O Insurgente

Março 29, 2009

Prevenção da Sida, eficácia dos preservativos e risco de contágio: a irresponsabilidade dos “beatos do látex”

Filed under: Cultura,Educação,Media,Política,Portugal,Teoria — André Azevedo Alves @ 16:21

Um texto (que não subscrevo integralmente, mas cuja leitura integral recomendo) recebido por email do leitor Fernando Gomes da Costa:

Os beatos do látex

Começo por esclarecer que sou médico há 29 anos, e responsável pelo mais antigo site em Portugal sobre sexualidade (10 anos de actividade ininterrupta), com mais de 3 milhões de visitas e acima de 15.000 perguntas respondidas. Serve esta introdução apenas para ilustrar que tenho provavelmente mais experiência e, sobretudo, actividade concreta na área da informação sobre sexualidade que com certeza muitos dos iluminados que hoje em dia vemos a debitar sentenças sobre esta matéria.


Desde sempre defendo o uso do preservativo como o meio mais eficaz de protecção das doenças de transmissão sexual em caso de relações casuais, incertas ou com infectados confirmados. Durante esse tempo, no consultório on-line que existe no site, ou na minha actividade médica diária, já recomendei a utilização do preservativo milhares de vezes.

Sucede que, como também tenho sempre o cuidado de informar, o preservativo tem uma taxa de falhas média em termos de contracepção de 5% e em termos de protecção da SIDA terá eventualmente mais, apontando a Organização Mundial de Saúde para 10% de falhas (ou melhor: 90% de eficácia, o que vem a dar no mesmo)*.

Se pensarmos (exercício pelos vistos a cair em desuso) que o vírus da SIDA é cerca de 400 vezes mais pequeno que um espermatozóide, que os preservativos podem ter microporos, que podem rasgar, que podem ser mal colocados ou escorregar, que a gravidez só acontece se os espermatozóides passarem o preservativo na fase fértil (3 dias por mês) enquanto a SIDA se pode transmitir em qualquer altura, ou que a gravidez só acontece com a passagem do esperma para a vagina e o vírus da SIDA se pode contagiar por outras vias não protegidas pelo preservativo (sexo oral ou contágio boca a boca se houver lesões sangrantes), vemos que a margem de falhas terá que ser, infelizmente, demasiado grande, não obstante os negacionistas serem muitos.

Imagino que ao dizer isto estou a indignar muitos dos pseudo-preocupados com o problema da SIDA. Acontece que para mim (talvez porque me preocupe com os doentes e não com os aproveitamentos político-ideológicos que se possam fazer à custa das doenças deles…) tanto é condenável o fundamentalismo religioso que incute conceitos errados na cabeça das pessoas, como o é qualquer outro, concretamente, no caso presente, o novo fundamentalismo anti-religioso que hoje em dia é de bom tom manifestar e que leva a
escrever perfeitas irresponsabilidades como as que ultimamente se podem ver na imprensa ou ouvir à mesa dos cafés (o que é cada vez mais a mesma coisa…).

De qualquer modo, a lamentável e preocupante situação que temos é a seguinte: de um lado a Igreja Católica que apenas reconhece a fidelidade e abstinência como caminhos eficazes para a combater a SIDA, o que é tecnicamente correcto, mas na prática fortemente irrealista, e por isso seria muito positivo se acrescentasse que, no caso de não se cumprirem as duas premissas que defende, o preservativo será a melhor protecção possível, embora não absoluta. Do outro lado temos uma espécie de neo-fundamentalistas “beatos do látex” que, sob o pretexto de combaterem ideias retrógradas, fazem a generalidade das pessoas acreditar em duas coisas perigosamente erradas: que a Igreja proíbe o uso do preservativo (o que não é verdade, apenas não o preconiza nem defende o seu uso, o que não é exactamente a mesma coisa e pode fazer toda a diferença na cabeça de um pecador ortodoxo mais fanático), e, facto grave que não hesito em classificar de voluntariamente criminoso, incute a ideia de que o uso do preservativo é eficaz a 100%, quando, na verdade, pode falhar demasiadas vezes.

Já agora, convido-os a fazer uma experiência: peçam a um médico, QUALQUER médico, que lhes passe uma declaração assinada a comprovar que o uso do preservativo o (a) protege integralmente da transmissão da SIDA em todas relações sexuais que possa vir a ter….o resultado será óbvio. É que afinal o cinto segurança também é um método fundamental para evitar mortes na estrada, e é por isso qualquer pessoa responsável recomenda o seu uso, mas ninguém no seu juízo normal afirma que, ao colocá-lo, os condutores
se podem atirar contra um muro a cem à hora …pelo menos até ao dia em que recomendar conduzir com precaução possa ser considerado “retrógrado” ou politicamente incorrecto.

Fernando Gomes da Costa
Médico (cédula profissional 22027 da Ordem dos Médicos)

* Já na Wikipédia se pode ler: According to a 2000 report by the National Institutes of Health, correct and
consistent use of latex condoms reduces the risk of HIV/AIDS transmission by approximately 85% relative to risk when unprotected

5 Comentários »

  1. Já eu subscrevo inteiramente o artigo.
    Não se pode fazer passar a ideia de que é seguro a 100% (aliás, não conheço nenhum método que o seja). Mas temos de convir (tal como é dito no artigo) que é a melhor arma que temos.
    Sobre a eficácia do preservativo… há vários estudos. A maioria deles apontando para uma eficácia de mais de 90%:

    “Na verdade, a evidência mais convincente da eficácia dos preservativos foi obtida por estudos feitos com casais sero-discordantes para o HIV, ou seja, casais em que um parceiro está infectado e o outro não (166, 557). Estes estudos constataram que nestes casais o risco de infecção do HIV era baixo, se eles usavam os preservativos de forma constante (22, 166, 167, 177, 311, 378, 416, 557). Em três estudos recentes, foram constatadas taxas de infecção menores que 1% ao ano entre usuários constantes de preservativos (134, 141, 473).

    Um estudo, feito em vários países da Europa, acompanhou 256 casais sero-discordantes para o HIV durante uma média de 20 meses e não registrou nenhuma infecção entre os casais que usaram o preservativo em todas as suas relações sexuais no período (134).”
    in: http://www.bibliomed.com.br/lib/ShowDoc.cfm?LibDocID=12839&ReturnCatID=499

    Comentário por Pedro — Março 29, 2009 @ 17:06

  2. Caro André Azevedo Alves,

    Coloquei este texto in extenso no meu blog. Se vir inconveniente nisso retiro-o e ponho apenas o link. Quando raio de carga de água a razão angariará tantos crentes praticantes como as crendices, venham elas de que lado vierem?

    Comentário por Luis Serpa — Março 29, 2009 @ 18:57

  3. A razão porque existem baixas taxas de contagio entre casais sero-discordantes que usam o preservativo não se baseia apenas na eficacia deste mas tambem na baixa taxa de contagio da sida numa unica relação, da ordem de 1/500 a 1/2000.

    Com o uso do preservativo essa probabilidade de contagio baixa para 1/5.000 a 1/20.000.

    Ora se 200 casais tiverem 100 relações sexuais num ano isto resultará em 10 a 40 contágios se não usarem preservativo e 1 a 4 contágio usando preservativo.

    As taxas de infecção são baixas, mesmo sem preservativo, no estadio 2 da doença.

    Mas a sida não é a unica doença que existe, é frequente quem tem sida ter outras doenças, por vezes tambem potencialmente mortais, e para muitas delas o preservativo é significativamente menos eficaz que para a sida.

    Comentário por Cam — Março 30, 2009 @ 11:10

  4. [...] Leitura complementar: Prevenção da Sida, eficácia dos preservativos e risco de contágio: a irresponsabilidade dos “b…. [...]

    Pingback por O acesso e uso de preservativos e as taxas de infecção do HIV « O Insurgente — Março 31, 2009 @ 20:01

  5. [...] Leitura complementar: Prevenção da Sida, eficácia dos preservativos e risco de contágio: a irresponsabilidade dos “b…. [...]

    Pingback por Preservativos, comportamentos de risco e compensação de risco « O Insurgente — Março 31, 2009 @ 23:00


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