“Ta’aruf” de Fernando Gabriel (Diário Económico)
Na generalidade dos países árabes, ‘ta’aruf’ significa conduta apropriada; no Irão o termo foi deturpado e significa hipocrisia cerimonial.
Não me surpreenderia que o termo tivesse sido referido a propósito da mensagem vídeo que Obama dirigiu aos “líderes e ao povo iraniano”: uma oferta de aproximação, educada mas falsa e inaceitável. ‘Ta’aruf’. Por entre referências lisonjeadoras à cultura e história persas, Obama repete o preço do costume da normalização das relações políticas e diplomáticas com o Irão: o abandono do programa de armamento nuclear e o fim do apoio ao terrorismo xiita. Poderia ter sugerido ao Ayatollah Khamenei e ao seu Conselho dos Guardiões que se suicidassem: politicamente era o mesmo, mas não seria ‘ta’aruf’. O verdadeiro propósito da mensagem é tão evidente quanto inconfessável: com a aproximação das eleições presidenciais no Irão, o governo americano pretende retirar credibilidade à ameaça externa do “Grande Satã”, que serve como instrumento de demagogia populista, e desse modo reduzir a probabilidade de reeleição de Ahmadinejad. Mas as eleições no Irão contam pouco: uma série de enxertos constitucionais colocam o poder efectivo nas mãos da elite clerical. Acima do presidente eleito paira a autoridade ilimitada do Supremo Líder, o Ayatollah Khamenei -uma degenerescência tirânica do rei-filósofo platónico. Mesmo assim, a eleição de um moderado favorável à reintegração do Irão nas normais relações internacionais é impensável para o regime.(…)
As aspirações dos iranianos estão em conflito com os interesses da elite corrupta, cuja prosperidade depende do actual estado de coisas e para a qual uma maior abertura exterior implicaria ver o seu feudo político contestado. É com esta elite, e não com o “povo iraniano”, que a presidência americana tem de negociar. Sucede que os governantes não vão abandonar o programa de armamento nuclear: é o seguro de sobrevivência que os protegerá contra eventuais tentativas de interferência exterior. Também nunca deixarão de apoiar grupos terroristas como o Hamas ou o Hezbollah: são instrumentos úteis, não só na luta contra Israel mas também na oposição aos projectos de hegemonia sunita. Alguns entendimentos são possíveis, sobre a estabilização do Iraque, ou na luta contra os talibãs -adversários do Irão. Mas a revolução é uma realidade total que se esgota em si mesmo. A desistência do programa nuclear significaria a normalização do regime e anunciaria o fim irrevogável da revolução -e com ele da legitimidade da elite clerical que controla o Irão.
“terrorismo xiita”
A que se refere esta frase, concretamente? Que terrorismo é que tem sido praticado (nos últimos anos) por xiitas?
“apoiar grupos terroristas como o Hamas ou o Hezbollah [...] na oposição aos projectos de hegemonia sunita”
Como pode o Irão apoiar o Hamas, que é sunita, para se opôr a projetos de hegemonia sunita? Que sentido faz isto?
Comentário por Luís Lavoura — Março 25, 2009 @ 15:45
Recomendo-lhe este artigo de Bret Stephens. É sobre a Síria mas ajuda a desvendar a política (no só da síria mas também) do Irão e esclarecer o que à partida parecem alianças “contra-natura”.
Comentário por Miguel — Março 25, 2009 @ 15:57
Julgava que no Irão era mais farsi…Mas se o douto Gabriel diz que é árabe, então é porque é verdade
O Gabriel sonha com bombas a cair sobre o Irão…
Comentário por Luís Marvão — Março 25, 2009 @ 17:13
O Irão é um estado terrorista. Mas, no entanto, foi o sr. Bush quem bombardeou Bagdad… E sabe-se lá se uns atentados à bomba algures no Irão, que ocorreram nos últimos anos e ceifaram a vida a civis, não terão tido a mão de Bush.
Comentário por Luís Marvão — Março 25, 2009 @ 17:18
“O Irão é um estado terrorista. Mas, no entanto, foi o sr. Bush quem bombardeou Bagdad”
Por definição, Estado ou organização “terrorista” é todo aquele que nos ataca a nós, ou que ataca os nossos amigos e aliados.
Portanto, nós nunca somos objeto de atos de guerra. Todos os atos dirigidos contra nós, ou contra os nossos amigos e aliados, são “terroristas”. Guerra (essa atividade honesta, nobre e com regras claras e cavalheirescas), fazêmo-la nós.
Portanto: se Israel ataca e bombardeia o Líbano, isso é guerra. Se os libaneses retorquem lançando mísseis sobre Israel, isso é terrorismo. Se nós invadimos o Iraque, isso é guerra. Se os iraquianos matam os nossos soldados, isso é terrorismo.
Comentário por Luís Lavoura — Março 25, 2009 @ 17:58
“Julgava que no Irão era mais farsi…Mas se o douto Gabriel diz que é árabe”
Onde é que ele diz isso? Provavelmente deves estar a falar de um artigo diferente.
“O Irão é um estado terrorista. Mas, no entanto, foi o sr. Bush quem bombardeou Bagdad…”
Deixa ver mais… A Alemanha Nazi era um estado criminoso mas foram os EUA que bombarderaram a Alemanha. Também serve?
” E sabe-se lá se uns atentados à bomba algures no Irão, que ocorreram nos últimos anos e ceifaram a vida a civis, não terão tido a mão de Bush.”
Eu não sei. Tu sabes?
Queria apenas acrescentar que é sempre refrescante verificar o empenho com que defendes as teocracias!
Comentário por Miguel — Março 25, 2009 @ 18:25
“A Alemanha Nazi era um estado criminoso mas foram os EUA que bombarderaram a Alemanha. Também serve?”
O que ingleses fizeram em Dresden não deixou de ser terrorismo. O que os americanos fizeram em Hiroxima idem aspas.
Aliás a equivalência entre o Iraque e a Alemanha Nazi é das tiradas mais demagógicas a que já assisti. Além disso, só contribui para a banalização do Mal.
“Onde é que ele diz isso? Provavelmente deves estar a falar de um artigo diferente”
Então por que raio ele empregou a palavra ‘ta’aruf’, do árabe? Não estou a ver a figura de estilo…
Comentário por Luís Marvão — Março 25, 2009 @ 19:44
“O que ingleses fizeram em Dresden não deixou de ser terrorismo.”
Terrorismo não foi mas não foi o seu “brightest hour” de forma alguma.
“O que os americanos fizeram em Hiroxima idem aspas.”
Se falasses em Nagasaki era capaz de concordar. Sobre Hiroshima duvido. Quantas centenas de milhares teriam morrido numa invasão terrestre do Japão?
É claro que nem todos podiam fazer como os soviéticos que esperaram pelas bombas atómicas para lhes declarar guerra…
“Aliás a equivalência entre o Iraque e a Alemanha Nazi é das tiradas mais demagógicas a que já assisti. Além disso, só contribui para a banalização do Mal.”
Onde é que eu comparei os regimes da Alemanha Nazi e do Iraque? (embora existam semelhanças a nível ideológico e de “feitos”) Apenas comparei duas situações em qua o pais bombardeado não era nenhuma vitima.
“Então por que raio ele empregou a palavra ‘ta’aruf’, do árabe? Não estou a ver a figura de estilo”
Provavelmente porque é um termo que também se usa no Iraque. Será que em Portugal não usamos termos estrangeiros? Quando ouves alguém dizer “tchau” pensas que se trata de um italiano?
Comentário por Miguel — Março 25, 2009 @ 20:08
“Se falasses em Nagasaki era capaz de concordar. Sobre Hiroshima duvido. Quantas centenas de milhares teriam morrido numa invasão terrestre do Japão?
É claro que nem todos podiam fazer como os soviéticos que esperaram pelas bombas atómicas para lhes declarar guerra…”
Ter em conta que mesmo militares americanos e pensadores conservadores acharam o acto (de um Democrata)fútil dada a vontade já do regime no Japão em negociar (mas pelo caminho foi-lhes dado a entender que tinham de renunciar ao Imperador – na tradição onde o Imperador faz parte da sua religião, e assim coisa que nunca fariam – coisa que depois não veio a acontecer… mas tinha acontecido com o Kaiser e os Habsburgos… o que contribuiu para o aparecimento do nazismo). Infelizmente, a mania, que não fazia parte da tradição da guerra, em querer Vitórias Totais teve péssimas consequências, especialmente o Japão que deixou de poder ser um travão ao comunismo da Ásia (ex:Coreia), e para não falar na Europa, com Estaline a obter esse sim, uma Vitória Total. Mas cada um chegará às suas conclusões, as minhas, que os Estados em guerra e mesmo com causas justas, conseguem produzir a maior irracionalidade de decisões e com “bads” consequências é consistente com a minha visão liberal.
Comentário por CN — Março 25, 2009 @ 20:32
A invasão da Geórgia também foi terrorismo para ajudar terroristas. A invasão e ocupação de Tchechénia também é terrorismo.
Comentário por A. R — Março 25, 2009 @ 21:24
“Terrorismo não foi mas não foi o seu “brightest hour” de forma alguma.”
Acho espantoso que digas uma coisa dessas, ainda para mais empregando uma expressão como “brightest hour”.
E sobre Hiroxima, quer dizer, podemos matar e experimentar armamento em cima de civis,desde que seja para proteger os nossos. Enfim, os fins justificam os meios
Comentário por Luís Marvão — Março 25, 2009 @ 21:49
“Provavelmente porque é um termo que também se usa no Iraque. Será que em Portugal não usamos termos estrangeiros? Quando ouves alguém dizer “tchau” pensas que se trata de um italiano?”
Comentário por Luís Marvão — Março 25, 2009 @ 21:50
“E sobre Hiroxima, quer dizer, podemos matar e experimentar armamento em cima de civis,desde que seja para proteger os nossos. Enfim, os fins justificam os meios”
Hiroshima era um importante base naval Japonesa. Não foi só escolhida porque sim. Matou muito mais gente o bombardeamento de Tóquio do que Hiroshima.
A retaliação é legítima, aliás a maioria dos exércitos tem disposições para entrar em comportamento ilegal por ordem de um Oficial, um exemplo é o uso de gás.
Não sei se sabe a doutrina da NATO é cometer um crime contra a Humanidade caso um Crime contra a Humanidade seja cometido contra um dos seus. Os nossos mísseis nucleares e os do adversário estavam apontados para cidades.
Todos em Portugal concordaram com isso incluíndo o PCP que estava do outro lado.
No caso da 2GM posde-se agora discutir se qualquer dos actos entra no âmbito da retaliação. Eu penso que sim uma vez que quer os Japoneses quer os Nazis(que aliás andavam enviar V-2 para cima dos Britânicos) mostraram que não tinham pruridos em aniquilar cidades e as investigções para bomba nuclear demonstram que o Eixo a teria dentro de poucos anos.
“Enfim, os fins justificam os meios”
Existe alguma guerra em que isso não aconteça? Deve-se discutir o grau com que isso acontece, mas numa guerra morrem sempre inocentes mortos por qualquer dos lados porque só assim é possível ganhar.
Btw uma curiosidade que se soube á poucos dias:
http://news.aol.com/article/japan-atomic-bomb-survivor/395993?icid=main
TOKYO (March 24) — A 93-year-old Japanese man has become the first person certified as a survivor of both U.S. atomic bombings at the end of World War II, officials said Tuesday.
Tsutomu Yamaguchi had already been a certified “hibakusha,” or radiation survivor, of the Aug. 9, 1945, atomic bombing in Nagasaki, but has now been confirmed as surviving the attack on Hiroshima three days earlier as well, city officials said.
Comentário por lucklucky — Março 26, 2009 @ 15:39
[...] em: Médio Oriente, Política — Miguel @ 9:13 am Num artigo que publicado, esta semana, no Diário Económico o Fernando Gabriel aludia ao apoio prestado pelo Irão a grupos terroristas como o Hamas ou o [...]
Pingback por Alianças (aparentemente) impossíveis « O Insurgente — Março 27, 2009 @ 09:13
[...] COMPLEMTARES: EUA e Irão: no reino da hipocrisia, Alianças (aparentemente) impossíveis Comentários [...]
Pingback por Irão & Hamas - Empreendimentos Terroristas, Lda « O Insurgente — Abril 27, 2009 @ 18:37