O Insurgente

Março 20, 2009

O Papa, o preservativo e a intolerância progressista

Filed under: Cultura,Media,Política,Religião — André Azevedo Alves @ 22:04

Caminhamos, de facto, nesse sentido: Ainda não chegámos lá. Por Nuno Lobo.

Bem sei que muitos prefeririam fechar a boca do Papa ou os ouvidos de quem o ouve, mas ainda não chegámos lá. Caminhamos nesse sentido mas ainda não chegámos lá.

Elogio da loucura. Por Miguel Morgado.

Por esta altura, deveria já ser evidente para todos menos para os cegos de espírito que este discurso não é mais do que o preâmbulo para a mais rígida das ortodoxias, a mais uniforme das normalizações, a mais profunda das intolerâncias, o mais vazio dos pensamentos únicos. Há coisas que não mudam. Só não vê quem não quer.

11 Comentários »

  1. Se, porventura, a minha opinião coincidir com a de não sei quantos comunistas, socialistas e quejandos, isso faz automaticamente de mim um perigosíssimo esquerdista? Pois, a ser o caso, haja santa paciência – a condizer com o tema.

    O Papa cometeu uma tremenda argolada. Ou, pensando bem, duas argoladas: não apenas escolheu a pior ocasião possível e o pior local para dizer o que disse como, ainda por cima, “esqueceu-se” de que o preservativo não serve apenas para evitar DST, mas também para reduzir a natalidade. Duas coisas absolutamente essenciais, em especial neste tempo e naquele local (África).

    O erro maior não residirá especificamente na mensagem ecuménica (um dever de ofício, por assim dizer), mas na bambochata argumentativa: uma autoridade de semelhante calibre dizer que o uso do preservativo AGRAVA o problema da SIDA equivale, na prática, a justificar as crendices de raiz animista que proliferam nos países do “terceiro mundo”. Ou seja, em concreto, aquela aparentemente simples frase será a explicação imediata para uma relação directa de causa e efeito: mais uns quantos milhões de infectados e mais uns quantos milhões de nascimentos sem qualquer futuro ou viabilidade.

    Se isto não é grave, se é “comunistóide” dizer que isto é grave, então venha a bula da infalibilidade papal, venha o chicote politicamente incorrecto, ou, mais simplesmente, venha o mais pintado chamar-me comunista. E eu ralado.

    Comentário por JPG — Março 20, 2009 @ 22:50

  2. “… uso do preservativo AGRAVA o problema da SIDA equivale…”

    JPG

    Você pode não estar nada ralado com o que lhe chamam, mas se se dá trabalho de comentar o assunto, podia ao menos saber do que está a falar.
    O Papa não disse nada daquilo e nem esse é o sentido das suas palavras.
    E, já agora, porque é que é preciso reduzir a natalidade em África ?
    Acha que já há pretos a mais?
    Precisa de espaço para mandar para lá brancos ou amarelos?
    .

    Comentário por Mentat — Março 20, 2009 @ 23:18

  3. Caro AAA

    O mais grave nisto tudo, é que nem os Católicos (que eu tivesse detectado) se deram ao trabalho de defender a lógica das afirmações do Papa e ficam-se apenas na defesa da sua liberdade de expressão.
    Como se o Papa precisasse desse tipo de apoio.
    O pensamento único já está tal modo implantado que já não se contesta nada.
    O que eu entendi das suas declarações é que a DEFESA EXCLUSIVA do preservativo como meio de evitar o contágio até podia agravar o problema.
    Não o ouvi expressamente proibir o uso do preservativo.
    Ora esta afirmação é do mais básico bom senso.
    Se se sabe que o tabaco provoca cancro dos pulmões não se pode apenas defender que se pode fumar e não travar.
    Deve-se em primeiro lugar defender que não se pode fumar e depois que quando se fuma não se deve travar.
    .

    Comentário por Mentat — Março 20, 2009 @ 23:32

  4. Claro que a imprensa, que reage “pavlovianamente” a qualquer coisa que este Papa diga, em que apareçam as palavras “preservativo”, “sexo”, “islão”, etc., nem se dá ao trabalho de constatar que os únicos locais em África onde o combate contra a Sida tem sido mais bem sucedido, são onde actuam as organizações Católicas.
    .

    Comentário por Mentat — Março 20, 2009 @ 23:41

  5. JPG, sobre o acerto ou não das palavras do Papa

    In conclusion, although we may never fully know “what really happened in Uganda,” the experience there and in other countries that have achieved some success suggests that a comprehensive behavior change-based strategy, ideally involving high level political commitment and a diverse spectrum of community-
    based participation, may be the most effective prevention approach.

    http://www.usaid.gov/our_work/global_health/aids/Countries/africa/uganda_report.pdf

    Comentário por Helder — Março 20, 2009 @ 23:53

  6. Caro Mentat: A Igreja proibe expressamente o uso do preservativo. É claro que o Papa e a Igreja têm todo o direito a ter as opiniões que têm, e a manifestá-las e a defendê-las. E é óbvio que saber se se deve ou não obedecer a estas e outras proibições ou interditos é um problema de cada Católico, relativamente indiferente a quem não o seja. Mas a reacção generalizada às declarações do Papa justifica-se por duas razões: Uma é que o magistério de influência que o Papa detém influencia a vida não apenas dos Católicos mas também das comunidades no seu conjunto (a mim, que não sou Católico, não me é indiferente que este ou aquele comportamento generalizado faça aumentar ou diminuir a quantidade de portadores da sida); a outra é que a Igreja tem uma história de interferência, mesmo recente, na esfera civil, na tentativa muitas vezes bem sucedida de utilizar o poder do Estado para impôr a católicos e não-católicos uma mundividência católica. E, já agora, por causa do seu último parágrafo, não me parece que seja aceitável defender que “não se pode fumar”. Basta que não se deva.
    Cordiais cumprimentos.

    Comentário por JMG — Março 21, 2009 @ 00:08

  7. Muito bem. O Papa diz o que quer e está no seu direito; os “outros” que não concordam com ele e (também) dizem o que querem são “progressistas intolerantes”.

    Brilhante…

    Comentário por Jorge Nunes — Março 21, 2009 @ 00:12

  8. “É claro que o Papa e a Igreja têm todo o direito a ter as opiniões…”

    Caro JMG

    É espantoso, como num comentário supostamente conciliatório se consegue ser tão intolerante.
    Continua a comentar sobre o que se “convencionou” que o Papa disse ou que a Igreja supostamente determina e não sobre o que efectivamente foi dito ou sobre o que se passa no terreno.
    Nem se deu ao trabalho de ler o que Helder “linkou”, pois não?
    .

    Comentário por Mentat — Março 21, 2009 @ 00:27

  9. JMG, o problema parece ser esse, a questão na Igreja não são “opiniões”, é Doutrina que é bem mais complicado e levou (até agora) dois mil anos a evoluir. Não é uma questão que apareceu há pouco mais de vinte anos que vai, de repente, mudar tudo.
    Este Papa tem uma particularidade curiosa que é ser extremamente racional. Quando defende uma posição sabe exactamente o que está a dizer e é atento aos dados empíricos. Não é tão simples como parece contra argumentar desde que isso seja feito honestamente. Leia o estudo do link, para começar.

    Comentário por Helder — Março 21, 2009 @ 00:35

  10. Caros Mentat e Helder:
    Fui ler o estudo que recomendam e confesso ter aprendido uma coisa e confirmado outra: Aprendi que, pelo menos no Uganda, é possível uma política concertada liderada pelas autoridades influenciar o comportamento sexual de um número significativo de pessoas; e confirmei que o retardamento da idade de iniciação às relações sexuais, bem como o aumento do número de casais fiéis, tem um efeito positivo na diminuição de incidência na doença. Também o tem – surprise – o preservativo, v.g. as seguintes transcrições:
    “… changes in age of sexual debut, casual and commercial sex trends, partner reduction, and condom use all appear to have played key roles in the continuing declines.”
    “… and using condoms if “you’re going to move around”
    “However, in more recent years, increased condom use has arguably contributed to the continuing decline in prevalence.”
    “… current condom use rates with non-regular partners are probably playing a role in the continued declining seroprevalence.”.
    Ao contrário do que Mentat parece acreditar, a Igreja é explícita e doutrinalmente contra o uso do preservativo. E é assim porque a Igreja é doutrinalmente a favor da abstinência antes do casamento, e a favor da fidelidade depois; além de, para efeitos de controle de natalidade, admitir apenas o falível método de abstinência em certos dias do mês.
    Quanto à contraposição entre Doutrina e opiniões, há uma diferença de grau mas não de essência: a Doutrina são opiniões longamente maturadas e debatidas ao longo de séculos e cristalizadas em certos momentos em vestes dogmáticas.
    Finalmente, uma suspeita: A generalidade das pessoas que defende a estigmatização das relações sexuais promíscuas tinha a mesma posição quando não havia sida; e teria a mesma posição mesmo que não houvesse outras DST. O que significa que há, consciente ou inconscientemente, uma pulsão controleira nesta atitude. Exagero? Talvez. Completamente fora do alvo? Não me parece.
    Cordiais cumprimentos.

    Comentário por JMG — Março 21, 2009 @ 02:08

  11. «”You can’t resolve it with the distribution of condoms,” the pope told reporters aboard the Alitalia plane headed to Yaounde, Cameroon, where he will begin a seven-day pilgrimage on the continent. “On the contrary, it increases the problem.“» The Wall Street Journal

    «The pontiff said condoms were not the answer to the continent’s fight against HIV and Aids and could make the problem worse.» The Guardian

    «Speaking to African bishops at the Vatican, the Pope described HIV/Aids in Africa as a “cruel epidemic”.
    But he told them: “The traditional teaching of the church has proven to be the only failsafe way to prevent the spread of HIV/Aids.”
    More than 60% of the world’s 40m people with HIV live in sub-Saharan Africa.»
    BBC

    «”It (AIDS) cannot be overcome by the distribution of condoms. On the contrary, they increase the problem,” he said in response to a question about the Church’s widely contested position against the use of condoms.»
    Reuters

    «”You can’t resolve it with the distribution of condoms,” the pope told reporters aboard the Alitalia plane headed to Yaounde, Cameroon. “On the contrary, it increases the problem.“»
    Fox News

    Pesquisa por “pope africa aids” (1.340.000 resultados) AQUI.

    Comentário por JPG — Março 21, 2009 @ 13:59


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 355 other followers