O Insurgente

Março 15, 2009

Gran Torino

Filed under: Comentário,Cultura — Bruno Alves @ 22:02

(publicado, há dias, aqui)
Clint Eastwood como Walt Kowalski

Quando a mulher de Walt Kowalski (Clint Eastwood) morre, os seus filhos ficam sem saber “o que fazer com o pai”, preocupados com o facto de ele, um veterano da Guerra da Coreia, intratável e propenso a tiradas racistas, viver num bairro repleto de emigrantes. E de facto, Kowalski parece pouco confortável na convivência com os seus vizinhos. Mas quando o jovem Taoh (Bee Vang) e a sua irmã Sue (Ahney Her), são ameaçados pelo gang de um primo, Walt irá protegê-los (apesar de Taoh ter tentado roubar o seu Ford Gran Torino), tornando-se um herói para a comunidade hmong do seu bairro. À medida que a amizade entre Kowalski e os seus vizinhos cresce, crescerá também no entanto a sensação de que algo de terrível estará para acontecer.

Gran Torino tem sido visto como uma espécie de “revisão” de Dirty Harry, como se Eastwood estivesse a olhar para a sua velha personagem e pedisse desculpa por este fazer justiça pelas próprias mãos. De facto, Gran Torino é sobre um homem que “faz justiça” com “as próprias mãos”. Mas, por isso mesmo, não tem nada a ver com Dirty Harry, pois este, ao contrário do que é costume dizer, fazia tudo menos “justiça pelas próprias mãos”. Harry Callahan era, pura e simplesmente, um homem que fazia o seu trabalho, proteger os inocentes das ameaças dos criminosos. De forma pouco convencional e pouco preocupada com “as regras”, mas o seu trabalho. Não era propriamente o “justiceiro solitário” que geralmente é usado para caracterizar essa personagem. Mas é verdade que Eastwood está a olhar para trás, a pegar em velhas personagens suas, mas, longe de pedir desculpa por elas, faz uma reafirmação do que já antes havia dito com elas. Eastwood não está a pegar em Dirty Harry e a dizer que ele estava errado, mas antes a pegar numa série de personagens, e sem as mudar, a pô-las noutras situações.

Na realidade, se há filmes de Eastwood aos quais Gran Torino se assemelha, não é nenhum dos de Dirty Harry, mas sim The Outlaw Josey Wales, Honkytonk Man, Pale Rider (um filme poucas vezes mencionado mas que talvez seja dos melhores de Eastwood), Unforgiven e Million Dollar Baby. Tal como todos estes filmes (e quase todos desde Josey Wales), Gran Torino gira em torno da relação entre uma figura paternal e a sua “família adoptiva” e “acidental”, e a tragédia que geralmente se abate sobre eles. Tal como em Million Dollar Baby, é com essa “família adoptiva” e “acidental” que uma verdadeira relação familiar tem lugar (Kowalski chega mesmo a dizer, não sem alguma repugnância, que se sente mais próximo “destes chinocas” do que dos seus próprios filhos). Tal como o Red de Honkytonk Man, o Will Muny de Unforgiven, ou o Frankie de Million Dollar Baby, Walt é um homem atormentado pelo passado que não quer que os mais novos, os seus “filhos adoptivos”, repitam os seus erros ou tenham de passar pelo que ele passou. Tal como em Honkytonk Man, Clint Eastwood representa o papel de um homem doente (quem tenha visto esse filme não estranhará a tosse e o sangue de Walt) que tenta “fazer um homem” do jovem que o segue. E, tal como em The Outlaw Josey Wales e Pale Rider, Eastwood é um herói relutante, alguém que lentamente, de acto de ajuda em acto de ajuda, se enreda numa teia de acontecimentos que o obrigará a recorrer à violência, que o obrigará a ser o herói que ele não quer ser.

No fundo, Gran Torino é um filme acerca do que deve um homem bom fazer num mundo repleto de maldade (nisso é talvez o mais “scorsesiano” dos filmes de Eastwood, e há um plano em particular que poderia ter sido Scorsese a filmar), acerca de como um homem deve ser bom, por muito difícil que isso seja, até mesmo acerca de como compensa ser bom por muito difícil que isso possa ser. Tal como Unforgiven, Gran Torino é um filme sobre as consequências da violência, sobre as coisas que acontecem “all on account of pulling a trigger”, mas também sobre “como é matar um homem”, e como isso afecta um homem bom que tenha de o fazer. É até talvez o filme “definitivo” de Clint Eastwood. Não direi que é o melhor (não sei dizer se é ou não), mas é claramente aquele em que Eastwood diz tudo o que tem querido dizer de há uns anos para cá (a velhice, um tema comum nos últimos filmes em que Eastwood entra como actor, é aqui mais central que nunca). Mas, muito mais do que em Unforgiven, ou The Outlaw Josey Wales ou Pale Rider, talvez até mais do que em Million Dollar Baby ou Honkytonk Man, Clint fá-lo de uma forma extraordinariamente comovente. Um homem bom, um homem bom como Walt Kowalski ensina Taoh a ser, terá que chorar com o final de Gran Torino, pelo menos tanto como se riu durante o resto do filme.

1 Comentário »

  1. [...] a pena ler (ou reler) também o que o Bruno Alves escreveu sobre o Gran Torino. Comentários [...]

    Pingback por Gran Torino na Páscoa « O Insurgente — Abril 13, 2009 @ 23:01


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