Anda por aí em voga a ideia de que é preciso mais Estado para proteger os cidadãos da crise. Mais regulamentação da actividade laboral, mais protecção do trabalhador, maior controle das decisões tomadas pelos empresários, da forma como estes devem gerir a sua empresa, como os bancos devem conceder créditos. São inúmeros os exemplos, significativos dos ventos que correm e que tanta coragem têm dado à esquerda para que volte a desejar, sem receio de parecer ridícula, o fim do capitalismo.
Junte-se, a esta euforia, a ideia alicerçada até ao fundo da nossa consciência cívica de que os liberais não cuidam dos mais desfavorecidos. Não se preocupam com as situações mais gritantes da miséria humana, acreditando que toda a vida do homem é um percurso natural na evolução da condição humana. Que basta o trabalho, o esforço e a fé no mercado para que tudo corra pelo melhor.
Não há, no entanto, nada mais errado. Ao contrário do que tem sido ponto assente, quanto maiores as dificuldades para o despedimento, e que as forças de esquerda tanto preconizam, maior a dificuldade na obtenção de emprego. Se tais medidas protegem quem tem trabalho, já prejudica quem não trabalha. Qualquer homem e qualquer mulher que fique em casa sem nada fazer e desconhece como vai pagar as contas no final desse mês. Da mesma forma, as licenças de maternidade/paternidade podem ter um efeito contrário ao pretendido. Se protegem a mãe com emprego e que tem um filho, prejudica aquela que, estando desempregada, engravida e dificilmente encontrará alguém disposta a contratá-la. É, pois, uma medida que também pode desincentivar à constituição de família e contribui, à sua maneira, para a redução da natalidade. A desregulamentação é, pois e muitas vezes, a melhor forma de não discriminar e, não discriminando, não prejudicar os cidadãos.
Nenhum liberal deseja o desamparo total e completo dos cidadãos. Nenhum liberal acredita que o Estado se deve abster das políticas de apoio aos mais desfavorecidos. A existência de uma política mínima de cuidados de saúde, de apoio à pobreza, de acesso à educação, a tal rede de segurança que por vezes se fala, é o cerne do liberalismo. A única diferença é serem políticas sociais que não atrofiam e penalizam o esforço dos que têm trabalho, nem as poupanças dos que cuidam do seu futuro. São políticas que acreditam nas pessoas, no uso que fazem da sua liberdade (uma palavra tão erradamente entregue ao socialismo), e que não destroem a responsabilidade e capacidade das pessoas cuidarem do seus e dos que lhe são ou estão próximos. Não rouba à sociedade o seu papel e dever para cuidar de si. Não é possível dar esperança às pessoas, quando não se confia nelas.
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