O Insurgente

Fevereiro 13, 2009

A crise, o Estado e os mercados (2)

Filed under: Economia,Internacional,Política,Teoria — André Azevedo Alves @ 23:00

Comentário de Tiago Tavares ao post A crise, o Estado e os mercados:

Parece-me evidente que os mercados financeiros são tudo menos livres. A acção dos governos sempre esteve presente. Vou apenas adicionar mais algumas falhas governamentais à apontada pelo Bruno Alves – de que o excesso de poupança mundial e gestão de câmbios (conhecido entre alguns economistas como Bretton Woods II) foram em parte responsáveis pela crise que temos hoje:

- alteração da missão das agências (Fannie Mae e Freddie Mac) a meados dos anos anos 90 e incentivos estatais à aquisição de habitação própria (noutro espaço já tinha tentado argumentar em favor desta ideia);
- manutenção de taxas de juro (determinadas pelo FED) em níveis anormalmente baixos após a recessão de 2001, num claro desvio em relação à “regra” que tinha sido utilizada nos últimos 20 anos (Taylor rule) e que os intervenientes de mercado já conheciam; e que promoveu uma inflação de activos reais como habitação e matérias primas;
- regulações financeiras mal desenhadas e restritivas, em particular o acordo de Basileia II, que certamente promoveram muita inovação financeira, onde algumas soluções foram excelentes mas outras aumentaram a opacidade dos instrumentos (noutro espaço também comento em maior detalhe o impacto do Basileia II).

Já depois da crise ter rebentado encontrámos ainda uma política governamental errática que não terá ajudado a fortalecer os mercados, muito pelo contrário. O melhor exemplo disto foi o plano TARP do Sr. Paulson. Depois do salvamento do Bearn Stearns, do não salvamento do Lehman, e do salvamento do AIG era natural que os investidores privados começassem a ficar preocupados. Mas o plano do TARP, sustentado em 3 páginas de legislação onde o congresso daria $700 biliões ao Sr. Paulson para fazer aquilo este bem entendesse, é que destabilizou por completo os mercados. Em apenas 1 mês após o anúncio do programa, o diferencial Libor-OIS explodiu em mais de 3pp (anteriormente encontrava-se a oscilar entre 0.5% e 1.5%). Claro que não há ninguém que queira entrar num jogo onde o árbitro se encontra sistematicamente a alterar as regras do jogo. E não vejo razões porque os mercados financeiros devam ser diferentes.

Tal como a democracia, os mercados livres não são perfeitos. A questão será saber se existe alguma alternativa mais apelativa. E aquilo que temos vindo a assistir indica claramente que não existe.

Leitura complementar: A crise e o “neoliberalismo”.

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