O Insurgente

Janeiro 9, 2009

Como se faz um país de maus empresários

Arquivar em: Comentário, Economia, Política, Portugal — Carlos Guimarães Pinto @ 21:49

(para o Pedro Sales)

A Zon lançou uma campanha em que oferecia 1 bilhete de cinema grátis por semana a cada assinante da TVCabo. Numa economia de mercado decente, a PT e a Medeia estariam em contacto no dia seguinte para a formação de uma parceria que resultasse numa oferta semelhante ou melhor para os clientes MEO (talvez incluisse pipocas). No final, as forças de mercado fariam com que os clientes de ambas as empresas ficassem melhor: para além do serviço de televisão que já tinham anteriormente, passariam a poder ir ao cinema uma vez por semana à borla pelo preço da assinatura. A Medeia ganharia uma quantia paga pela PT (substancialmente inferior ao preço actual dos bilhetes, como é óbvio) por cada bilhete oferecido e, como poucas pessoas vão ao cinema sozinhas, por cada bilhete oferecido gratuitamente haveria sempre pelo menos um que seria pago integralmente. Os cinemas Medeia ganhavam a base de clientes do MEO, que é significativamente superior à sua. No final, a competição entre a PT e a Zon traria benefícios aos clientes e ainda beneficiaria a indústria cinematográfica.

Claro que na República Socialista Portuguesa, os empresários não têm de pensar, de competir ou inovar para benefício do cliente. Para sobreviver, o mais fácil é pedir favores ao estado. E de favores do estado o senhor Paulo Branco e os senhores da PT percebem bem.

Nota: O departamento de Marketing da Zon está de parabéns pela resposta dada à proibição da Autoridade da concorrência. A atribuição de 50% de desconto na compra de dois bilhetes  de cinema vai dar essencialmente ao mesmo que a promoção anterior porque, como refiro acima, são poucas as pessoas a ir ao cinema sozinhas. Como não se está a dar bilhetes grátis vai ser mais difícil á Autoridade da Concorrência justificar a proibição: o argumento imbecil dos 40 milhões de bilhetes gratuitos num mercado de 15 milhões vai deixar de poder ser utilizado.

21 Comentários »

  1. “(talvez incluisse pipocas)”

    Por exemplo… ;)

    Excelente post.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 9, 2009 @ 22:03

  2. Todo o raciocínio estaria perfeito, não se desse o facto de a Zon deter a Lusomundo, o que significa dumping, que apesar de não ser proibido, não é recomendável, porque no limite pode levar a uma situação de monopólio ou quase monopólio – veja-se a Microsoft. Se a Zon não detivesse a Lusomundo e se tanto a PT como a ZON tivessem os mesmos custos nessa promoção, todo o raciocínio seria simplesmente perfeito. Infelizmente, o mercado não é de concorrência perfeita, o que gera noances.

    Cumprimentos

    Comentário por Tiago Moreira Ramalho — Janeiro 9, 2009 @ 22:42

  3. As leis da concorrência têm uma longa história. E não é por acaso que os governos responsáveis recorrem a elas. O abuso de posição dominante é bom para o consumidor no curto prazo, mas é mau no longo prazo. Veja-se o caso da decisão da Microsoft incluir o Internet Explorer gratuitamente no Windows. Esta decisão ditou a morte da Netscape. E isso provocou um abrandamento da evolução tecnológica nos web browsers. A Microsoft, já não tendo um concorrente forte, deixou de sentir necessidade de investir no Internet Explorer. Foram precisos muitos anos para que surgisse uma alternativa forte (o Firefox). Mas se a Netscape não tivesse sido aniquilada, o nível tecnológico que vemos no Firefox actual já teria sido atingido há 5 anos atrás. O consumidor lucrou no curto prazo, mas perdeu no longo prazo.

    No caso da Lusomundo vs. Medeia, quem realmente percebe de cinema sabe que a morte da Medeia teria um efeito devastador no panorama da exibição de cinema em Portugal. Deve-se à Medeia o facto de ainda se poder assistir a cinema non-mainstream no nosso país. O modelo de negócio da Medeia reside numa escolha equilibrada de filmes para as massas e de filmes para público exigente (logo minoritário). Acredito que a Medeia tenha prejuízo com os seus filmes para público minoritário ou, pelo menos, não tenha o lucro que teria se ocupasse todas as suas salas com filmes de massas. Estes ajudam a compensar o déficit dos filmes para o público minoritário. A Medeia, por isso, presta um serviço público. E é isso o que a torna uma empresa especial e cuja sobrevivência deve ser defendida.

    Comentário por Rodrigo Fonseca — Janeiro 9, 2009 @ 23:08

  4. Pode ser um excelente post, mas para o ser necessita que se verifique um pressuposto de díficil verificação. Não sabemos se o Paulo Branco propôs ou não uma solução como a que aqui se fala. Sinceramente, não estou a ver o interesse da PT na mesma. O Meo é o novo produto no mercado. É suposto ter campanhas mais agressivas que a ZON. Qual seria o seu interesse em oferecer uma proposta similar à da ZOn, com a desvantagem, não negligenciável, da Medeia apenas ter 20 salas de cinema em vez das 200 da Lusomundo? Seria sempre um parente pobre da ZON. Ora, com as características digitais do seu serviço, pode, muito bem, oferecer um ou dois filmes em Video on demand aos seus clientes.

    Tudo isto é especulação, como é normal, mas é esse o problema deste post. Para fazer sentido, exige a convergência de interesses entre duas empresas sem nenhuma ligação entre si. Não é isso que acontece com a Lusomundo e a ZON, duas empresas do mesmo grupo. E é aí que reside o problema. A ZON aproveita-se da sua posição num mercado que gera receitas várias vezes superiores à do cinema, como é o caso da transmissão de dados por cabo, para, sem grande problemas, oferecer uma promoção que desvaloriza totalmente o valor facial do bilhete de cinema.

    É por isso que não vejo qualquer problema nesta segunda versão da promoção. Implica uma compra e, assim, limita o alcance e os efeitos perversos desta campanha. Deixa de ser uma borla, que inundaria um mercado doravante encarado como oferecendo um produto quase gratuito, para ser uma promoção. Por mim tudo bem, mais a mais quando sou cliente da Zon…

    ps: como já disse na caixa de comentários do Arrastão, não tenho qualquer simpatia pelo Paulo Branco e os seus métodos. Pelo contrário, conheço dois actores e um realizador que, vários anos depois de terem trabalhado para a sua empresa, ainda continuam à espera de receber o primeiro cêntimo. Não é o Paulo Branco, e as suas mais que questionáveis práticas comerciais, que está em causa, mas a existência de diversidade e concorrência no mercado de distribuição cinematográfica.

    Comentário por Pedro Sales — Janeiro 9, 2009 @ 23:23

  5. [...] @ 11:45 pm Ao contrário do que supõem o Tiago Moreira Ramalho e o Pedro Sales em comentário a este -excelente, o mais acertado que li sobre o assunto – post do CGP, mesmo que a Zon e a Lusomundo acabassem por ficar com o monopólio da distribuição de cinema, [...]

    Pingback por Como se faz um país de maus empresários II « O Insurgente — Janeiro 9, 2009 @ 23:47

  6. O ideal neoclássico de concorrência perfeita e os mitos populares sobre monopólios continuam a fazer estragos. O que garante a concorrência e protege os consumidores não é (nem nunca foi) o número de consumidores mas a contestabilidade dos mercados.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 00:44

  7. “As leis da concorrência têm uma longa história.”

    É verdade. Historicamente, têm sido muitas vezes um dos principais instrumentos utilizados pelos governos para favorecer players politicamente favorecidos, atrasar a inovação e… arrasar a concorrência.

    “E não é por acaso que os governos responsáveis recorrem a elas.”

    Claro que não. São um excelente mecanismo para actividades de rent-seeking.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 00:47

  8. “No caso da Lusomundo vs. Medeia, quem realmente percebe de cinema sabe que a morte da Medeia teria um efeito devastador no panorama da exibição de cinema em Portugal.”

    Quem percebe realmente de cinema sabe que decisões como a pedida pela Medeia são devastadoras para o cinema em Portugal.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 00:51

  9. “Deve-se à Medeia o facto de ainda se poder assistir a cinema non-mainstream no nosso país.”

    Já nem falo em DVD’s, mas ficando pelo cinema em sala: há alguma proibição legal que impeça os interessados (por razões económicas ou pelas suas preferências pessoais) de investir os seus próprios recursos na abertura de salas para exibir os filmes que muito bem entendam?

    Além disso, por definição, “cinema non-mainstream” não é um bloco homogéneo a que uma distribuidora como a Medeia possa garantir acesso. Esse tipo de argumentação é típico de quem ou não percebe nada de cinema ou conta que os seus interlocutores não percebam para tentar fazer por aceitáveis privilégios que não têm qualquer justificação.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 00:57

  10. “O modelo de negócio da Medeia reside numa escolha equilibrada de filmes para as massas e de filmes para público exigente (logo minoritário).”

    Pelo que se tem visto, o modelo de negócio da Medeia assenta na imposição pelo Estado de restrições à concorrência e em subsídios.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 00:59

  11. Filmes para publico exigente? O que é isso? Quais os critérios para serem considerados dessa maneira? Ter menos de 1000 espectadores? Isso não é um filme para público exigente, é um fracasso de bilheteira!

    Comentário por Kowalski — Janeiro 10, 2009 @ 01:22

  12. Carlos, a tua posição é que é anti-capitalista. Isto nos EUA seria proibidíssimo. Aliás, as produtoras como a Paramount ou a Disney não podem possuir salas de cinema no outro lado do atlântico para que haja concorrência e logo haja mercado. A concentração é anti-mercado, logo é anti-capitalista. Mesmo que a PT e a Medeia fizessem o mesmo, o que seria mais difícil porque não pertencem ao mesmo grupo, haveria sempre concentração porque impediria a entrada de novos concorrentes no mercado. Quem quisesse abrir salas de cinema teria que já ter um contrato com uma empresa de fornecimento de banda-larga ou então possuir uma.
    Acredite que eu sou defensor do modelo capitalista social-democrata e por isso mesmo desta vez concordo com o Pedro Sales.

    Comentário por Vítor — Janeiro 10, 2009 @ 13:25

  13. “Numa economia de mercado decente” – Não existem economias de mercado decentes. É sempre necessário a existência de mecanismos de regulação e protecção.

    A economia de mercado decente é uma utopia, tal como o comunismo. Os extremos tocam-se mesmo.

    Comentário por Ricardo Ferreira — Janeiro 10, 2009 @ 13:35

  14. “A economia de mercado decente é uma utopia, tal como o comunismo. Os extremos tocam-se mesmo.”

    Que grande confusão vai nessa cabeça…

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 13:42

  15. “A concentração é anti-mercado, logo é anti-capitalista.”

    Errado. A concentração só é “anti-mercado” se assentar em barreiras institucionais à entrada.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 13:45

  16. André, e o que é este caso?

    Comentário por Vítor — Janeiro 10, 2009 @ 14:08

  17. «Acredite que eu sou defensor do modelo capitalista social-democrata e por isso mesmo desta vez concordo com o Pedro Sales.»

    LOL!!!
    A conjugação destas duas frases mostra a razão pela qual o país não sai do marasmo…

    Comentário por Migas — Janeiro 10, 2009 @ 14:41

  18. “André, e o que é este caso?”

    Francamente, não vejo quais as barreiras institucionais à entrada neste caso. Mas se existirem, concordo que devem ser abolidas.

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 10, 2009 @ 14:57

  19. Sim, Migas faz-nos falta um subprime.
    O Pedro Sales tem razão quando critica os liberais que defendem mercado e depois actividades anti-concorrência. Essa conjugação é que é motivo para risada.

    Comentário por Vítor — Janeiro 11, 2009 @ 03:51

  20. “O Pedro Sales tem razão quando critica os liberais que defendem mercado e depois actividades anti-concorrência.”

    O problema é que muita gente não percebe nem o que é o mercado nem como funciona a concorrência. Dessa falta de entendimento ao socialismo é um passo…

    Comentário por André Azevedo Alves — Janeiro 11, 2009 @ 13:54

  21. Esse “Rodrigo Fonseca” que comenta aí em cima não sou eu, é só para avisar…

    Comentário por RAF — Janeiro 12, 2009 @ 11:04


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