No seguimento dos ‘posts’ do Carlos Guimarães Pinto, sobre Sá Carneiro, não posso deixar de fazer algumas considerações que julgo importantes.
Saber se Sá Carneiro era um liberal, um socialista, social-democrata ou um mero político sagaz (o que já é muito difícil), pouco importa. Sá Carneiro morreu em 1980, quando meio mundo era marxista e o outro anti-marxista; quando metade de Portugal era contra a economia de mercado e acreditava no enriquecimento por decreto. No meio de toda a confusão que foi a política portuguesa entre 1969 e 1980, ele esteve sempre do lado certo da barricada. Mais: Sabia o que queria. Queria uma democracia liberal, num país europeu que mantivesse a sua aliança atlântica; pretendia uma economia de mercado, a dita ‘libertação da sociedade civil’; lutou pelo fim do Conselho da Revolução e pelo afastamento do PCP do poder. E por aí fora. É pouco? Não é. À data era até demais. Demasiado arrojado. Arriscado. Porque era isso que Sá Carneiro tinha e a direita portuguesa nunca mais viu num político: Arrojo; ter uma visão de longo prazo da política. Por isso, Sá Carneiro saía quando não estava satisfeito, era inconstante, porque certos acordos e determinadas cedências não levavam a lado algum. Por isso mesmo, quando primeiro-ministro, conseguiu, ao contrário de outros aparentemente mais sensatos e capazes, centrar toda a sua energia política no esforço de renovação e reforma que o país necessitava. Esteve sempre na ofensiva, sempre com a iniciativa política do seu lado, sabendo que só dessa forma seria capaz de romper com os interesses instalados no Estado.
É esta sagacidade política ímpar e imparável a que se junta o inconformismo, obrigatório a quem queira servir o país, que Sá Caneiro nos deixou. São, aliás, estas características que o estado do país nos obriga procurar e que a direita portuguesa precisa. É apenas isto que julgo não podemos esquecer.
Parabéns, André. Excelente, post.
Comentário por Diogo Almeida — Dezembro 11, 2008 @ 12:51
“Queria uma democracia liberal, num país europeu que mantivesse a sua aliança atlântica; pretendia uma economia de mercado, a dita ‘libertação da sociedade civil’”
Sá Carneiro queria, nas suas próprias palavras, um país que tivesse sempre o “socialismo possível” e “mecanismos de poder alternativos à procura do lucro”. DEfendia também a “redistribuição de riqueza pela utilização da carga fiscal”. Isto não se coaduna muito com uma economia de mercado ou mesmo uma democracia liberal.
“Porque era isso que Sá Carneiro tinha e a direita portuguesa nunca mais viu num político(…)”
A direita portuguesa não vê hoje nem nunca viu. Sá Carneiro rejeitou algumas vezes ser de direita.
“É esta sagacidade política ímpar e imparável a que se junta o inconformismo, obrigatório a quem queira servir o país, que Sá Caneiro nos deixou. São, aliás, estas características que o estado do país nos obriga procurar e que a direita portuguesa precisa. É apenas isto que julgo não podemos esquecer.”
Se é de características pessoais e não pensamento político de que a direita anda à procura, Sá Carneiro será a pessoa certa, mas não só. Inconformismo e sagacidade política também se podem encontrar em Mário Soares por exemplo.
Comentário por Carlos G. Pinto — Dezembro 11, 2008 @ 14:48
Obrigado, Diogo.
Carlos, Mário Soares era sagaz, mas não o suficiente para ter afrontado Cunhal desde o início. Não o suficiente para defrontar Eanes (que tinha o aopio do PCP) em 1980.
Comentário por André Abrantes Amaral — Dezembro 11, 2008 @ 18:56
Excelente, André. Não teria dito melhor. Os meus parabéns.
Comentário por Luis Pedro Mateus — Dezembro 11, 2008 @ 21:53
[...] Categories: História Tags: História, verdade e demência lado-a-lado André Abrantes Amaral dá este excelente contributo, no seguimento da cgpiniedade publicada no mesmo blog. CGP nos comentários mantém a sua cruzada e [...]
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