A pedido de várias famílias, reproduzo aqui o meu texto publicado no Público do passado dia 6 de Dezembro:
A crise e a cartilha antiliberal
As referências ao “neoliberalismo” funcionam, desde os anos 1980, quase sempre como uma espécie de papão indefinido que é agitado ciclicamente para assustar a opinião pública.
Não espanta por isso que, no contexto da actual crise, o discurso sobre a falência das ideias “neoliberais” esteja a servir para ocultar os falhanços da política monetária e da regulação. Aqui, convirá recordar que foram os bancos centrais a gerar condições para a bolha de crédito (através da manutenção de taxas de juro artificialmente baixas) e não esquecer as falhas dos reguladores do sistema financeiro, que se revelaram incapazes de cumprir com independência (do poder político e económico) as funções que justificam a sua existência.
Tanto na Europa como nos EUA, o peso do Estado (absorvendo na maior parte dos casos entre um terço e metade da riqueza produzida) está muito longe do que se poderia considerar um Estado pequeno. Mesmo assim, a regulação não funcionou.
As falhas dos Estados tiveram um papel crucial na geração da actual crise internacional mas, infelizmente, serão os contribuintes actuais e futuros a pagar as consequências dessas falhas. E tanto mais quanto se insistir nas velhas receitas keynesianas de aumento da despesa pública, endividamento do Estado e expansionismo monetário.
Assim sendo, não deixa de ser surpreendente que o rebentamento da bolha gerada por anos de crédito fácil estimulado pelos Bancos Centrais (acompanhado pelo evidente falhanço das entidades de supervisão e regulação) seja repetidamente apresentado como um produto do livre funcionamento da economia de mercado. A forma como a cartilha antiliberal de muitos comentadores e jornalistas ignora as múltiplas formas de intervenção estatal na economia pode interpretar-se como pura má-fé ou simples ignorância. Mas, seja como for, há que reconhecer o seu eficiente contributo para a criação de um ambiente propício à ascensão de discursos e medidas populistas estatizantes (incluindo os famigerados “planos de salvação” que socializam os prejuízos de grupos e sectores politicamente influentes). Felizmente, ao contrário do que desejariam os arautos da cartilha antiliberal, o modelo de economia de mercado (mais ou menos intervencionada) que tem caracterizado os países mais desenvolvidos não deverá estar em causa. A memória do absoluto desastre de todas as experiências de “socialismo real” está ainda demasiado próxima, e deverá impedir que o discurso anti-capitalista mais radical se propague para além dos grupos extremistas.
Existe, no entanto, a ameaça bem real de assistirmos – no âmbito do actual modelo – a um aumento do intervencionismo estatal a nível nacional e do proteccionismo a nível internacional. Infelizmente, se tal se vier a verificar, serão os mais pobres e as pequenas economias mais dependentes da integração na economia internacional – como a portuguesa – quem mais sofrerá com a crise.
Uma ameaça que, no contexto português, tende a ser fomentada pela nossa histórica hostilidade ao funcionamento dos mercados, bem manifesta no corporativismo do Estado Novo e nas desastrosas políticas do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.
Compreende-se assim que, num olhar retrospectivo, só o CDS de Lucas Pires tenha estado em alguns aspectos próximo do liberalismo, ainda que a crédito do PSD de Cavaco Silva se possam contar algumas importantes reformas liberalizantes.
Mesmo assim, temos de reconhecer que nenhum dos dois partidos alguma vez chegou a adoptar uma plataforma próxima da tradição do liberalismo clássico. O PSD, talvez pelas circunstâncias históricas da sua génese, sempre se assumiu como social-democrata e o CDS-PP tradicionalmente adoptou uma matriz de democracia cristã..
Importa no entanto frisar que seria um erro querer encaixar a ameaça do populismo estatizante promovido pela cartilha antiliberal nos estritos moldes da tradicional dicotomia esquerda/direita. Será que, no contexto da reacção à crise, se poderá classificar – por exemplo – Gordon Brown como sendo mais estatista do que Sarkozy? Ou esquecer que George W. Bush – nos anos que precederam o rebentar da actual crise – foi um dos Presidentes norte-americanos que mais aumentou o peso do Estado, por contraponto a Bill Clinton que privilegiou o equilíbrio orçamental?
Quem sabe se, daqui por algum tempo, Obama não irá começar a ser acusado pelos arautos da cartilha anti-liberal de – também ele – ser um agente do “neoliberalismo”? Seria, apesar de tudo, um bom sinal.
[...] Publicado por Gabriel Silva em 11 Dezembro, 2008 Excelente artigo de André Azevedo Alves, publicado no jornal Público a 6 de Dezembro: «A crise e a cartilha anti-liberal» [...]
Pingback por Leituras: « BLASFÉMIAS — Dezembro 11, 2008 @ 16:01
Excelente. Não tinha lido ainda, pois sábado estava fora do país. Muito bem, mesmo.
Ab
RAF
Comentário por RAF — Dezembro 11, 2008 @ 18:25
Há uns tempos andavam a queixar-se de o que o ensino do Latim estava em decadência. O do Português, caso não tenham reparado, também. Anti-liberal, neo-liberalismo… sim senhor…
Comentário por Pedro — Dezembro 11, 2008 @ 18:52
Obrigado RAF.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 11, 2008 @ 19:09
Caro Pedro,
Obrigado pelas correcções. Depreendo pela atenção dada aos hífens que, em termos do conteúdo do artigo, não tenha nada a apontar, o que também me deixa satisfeito.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 11, 2008 @ 19:22
Li no Público e achei excelente.
Comentário por a. pinho cardão — Dezembro 11, 2008 @ 23:35
Parabéns!
Comentário por Rui Costa — Dezembro 12, 2008 @ 00:21
“Li no Público e achei excelente.”
Obrigado.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 00:33
“Parabéns!”
Obrigado Rui, ainda para mais sabendo que provavelmente discordas de boa parte do conteúdo.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 00:34
Tinha lido no Público este artigo e pensei: “finalmente lê-se alguma coisa equilibrada nos media portugueses sobre a crise”. Parabéns! Está excelente!
Comentário por Nuno Gouveia — Dezembro 12, 2008 @ 01:43
“Tinha lido no Público este artigo e pensei: “finalmente lê-se alguma coisa equilibrada nos media portugueses sobre a crise”. Parabéns! Está excelente!”
Nuno,
No teu caso, apesar de não te conhecer pessoalmente, não posso agradecer pois, como sabes, o intrépido (e sempre vigilante) Luís Marvão descobriu a nossa terrível conspiração segundo a qual tu escreves em meu nome.
Ainda assim, anoto com agrado que continuas a executar com empenho o plano secreto.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 01:51
«Mesmo assim, a regulação não funcionou.»
Este argumento serve mais para refutar a cartilha “pró-estatal” do que para sustentar uma cartilha “liberal”. Afinal a função da regulação é limitar a liberdade de actuação dos agentes. Se esta falhou é porque não limitou convenientemente a actuação dos agentes. Logo, o que se deduz do argumento é que é necessária mais e melhor regulação. Reconhece-se que os agentes precisam de ser vigiados. O que é uma conclusão anti-liberal.
Comentário por Tarzan — Dezembro 12, 2008 @ 12:20
“Este argumento serve mais para refutar a cartilha “pró-estatal” do que para sustentar uma cartilha “liberal”. Afinal a função da regulação é limitar a liberdade de actuação dos agentes. Se esta falhou é porque não limitou convenientemente a actuação dos agentes.”
Eu diria que esse argumento sobre a regulação assenta numa concepção anti-liberal de regulação. O objectivo da regulação – pelo menos numa perspectiva liberal – deveria ser o de aplicar e fazer respeitar regras gerais e abstractas de conduta. Se o Estado usa a regulação para intervir nos mercados além disso (como fez em vários sectores a começar pela política monetária), é natural que provoque consequências desastrosas e essas consequências devem ser consideradas falhas do Estado.
Em qualquer caso, não é de facto objectivo do artigo defender uma cartilha (liberal ou outra) mas antes contribuir para refutar algumas das enormidades mais gritantes associadas à cartilha antiliberal que se tornou praticamente hegemónica nos media e em muitos meios académicos.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 13:05
[...] A crise e a cartilha antiliberal, André Azevedo Alves, 6 de Dezembro no Público Acato, mas não obedeço, Gabriela Calderón, OrdemLivre.org [...]
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