O Insurgente

Dezembro 11, 2008

A crise e o “neoliberalismo”

Arquivar em: Economia, Insurgentes nos media, Internacional, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 14:46

A pedido de várias famílias, reproduzo aqui o meu texto publicado no Público do passado dia 6 de Dezembro:

A crise e a cartilha antiliberal

As referências ao “neoliberalismo” funcionam, desde os anos 1980, quase sempre como uma espécie de papão indefinido que é agitado ciclicamente para assustar a opinião pública.
Não espanta por isso que, no contexto da actual crise, o discurso sobre a falência das ideias “neoliberais” esteja a servir para ocultar os falhanços da política monetária e da regulação. Aqui, convirá recordar que foram os bancos centrais a gerar condições para a bolha de crédito (através da manutenção de taxas de juro artificialmente baixas) e não esquecer as falhas dos reguladores do sistema financeiro, que se revelaram incapazes de cumprir com independência (do poder político e económico) as funções que justificam a sua existência.
Tanto na Europa como nos EUA, o peso do Estado (absorvendo na maior parte dos casos entre um terço e metade da riqueza produzida) está muito longe do que se poderia considerar um Estado pequeno. Mesmo assim, a regulação não funcionou.
As falhas dos Estados tiveram um papel crucial na geração da actual crise internacional mas, infelizmente, serão os contribuintes actuais e futuros a pagar as consequências dessas falhas. E tanto mais quanto se insistir nas velhas receitas keynesianas de aumento da despesa pública, endividamento do Estado e expansionismo monetário.

Assim sendo, não deixa de ser surpreendente que o rebentamento da bolha gerada por anos de crédito fácil estimulado pelos Bancos Centrais (acompanhado pelo evidente falhanço das entidades de supervisão e regulação) seja repetidamente apresentado como um produto do livre funcionamento da economia de mercado. A forma como a cartilha antiliberal de muitos comentadores e jornalistas ignora as múltiplas formas de intervenção estatal na economia pode interpretar-se como pura má-fé ou simples ignorância. Mas, seja como for, há que reconhecer o seu eficiente contributo para a criação de um ambiente propício à ascensão de discursos e medidas populistas estatizantes (incluindo os famigerados “planos de salvação” que socializam os prejuízos de grupos e sectores politicamente influentes). Felizmente, ao contrário do que desejariam os arautos da cartilha antiliberal, o modelo de economia de mercado (mais ou menos intervencionada) que tem caracterizado os países mais desenvolvidos não deverá estar em causa. A memória do absoluto desastre de todas as experiências de “socialismo real” está ainda demasiado próxima, e deverá impedir que o discurso anti-capitalista mais radical se propague para além dos grupos extremistas.
Existe, no entanto, a ameaça bem real de assistirmos – no âmbito do actual modelo – a um aumento do intervencionismo estatal a nível nacional e do proteccionismo a nível internacional. Infelizmente, se tal se vier a verificar, serão os mais pobres e as pequenas economias mais dependentes da integração na economia internacional – como a portuguesa – quem mais sofrerá com a crise.

Uma ameaça que, no contexto português, tende a ser fomentada pela nossa histórica hostilidade ao funcionamento dos mercados, bem manifesta no corporativismo do Estado Novo e nas desastrosas políticas do período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.
Compreende-se assim que, num olhar retrospectivo, só o CDS de Lucas Pires tenha estado em alguns aspectos próximo do liberalismo, ainda que a crédito do PSD de Cavaco Silva se possam contar algumas importantes reformas liberalizantes.
Mesmo assim, temos de reconhecer que nenhum dos dois partidos alguma vez chegou a adoptar uma plataforma próxima da tradição do liberalismo clássico. O PSD, talvez pelas circunstâncias históricas da sua génese, sempre se assumiu como social-democrata e o CDS-PP tradicionalmente adoptou uma matriz de democracia cristã..

Importa no entanto frisar que seria um erro querer encaixar a ameaça do populismo estatizante promovido pela cartilha antiliberal nos estritos moldes da tradicional dicotomia esquerda/direita. Será que, no contexto da reacção à crise, se poderá classificar – por exemplo – Gordon Brown como sendo mais estatista do que Sarkozy? Ou esquecer que George W. Bush – nos anos que precederam o rebentar da actual crise – foi um dos Presidentes norte-americanos que mais aumentou o peso do Estado, por contraponto a Bill Clinton que privilegiou o equilíbrio orçamental?
Quem sabe se, daqui por algum tempo, Obama não irá começar a ser acusado pelos arautos da cartilha anti-liberal de – também ele – ser um agente do “neoliberalismo”? Seria, apesar de tudo, um bom sinal.

24 Comentários »

  1. [...] Publicado por Gabriel Silva em 11 Dezembro, 2008 Excelente artigo de André Azevedo Alves, publicado no jornal Público a 6 de Dezembro: «A crise e a cartilha anti-liberal» [...]

    Pingback por Leituras: « BLASFÉMIAS — Dezembro 11, 2008 @ 16:01

  2. Excelente. Não tinha lido ainda, pois sábado estava fora do país. Muito bem, mesmo.
    Ab
    RAF

    Comentário por RAF — Dezembro 11, 2008 @ 18:25

  3. Há uns tempos andavam a queixar-se de o que o ensino do Latim estava em decadência. O do Português, caso não tenham reparado, também. Anti-liberal, neo-liberalismo… sim senhor…

    Comentário por Pedro — Dezembro 11, 2008 @ 18:52

  4. Obrigado RAF.

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 11, 2008 @ 19:09

  5. Caro Pedro,

    Obrigado pelas correcções. Depreendo pela atenção dada aos hífens que, em termos do conteúdo do artigo, não tenha nada a apontar, o que também me deixa satisfeito.

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 11, 2008 @ 19:22

  6. Li no Público e achei excelente.

    Comentário por a. pinho cardão — Dezembro 11, 2008 @ 23:35

  7. Parabéns!

    Comentário por Rui Costa — Dezembro 12, 2008 @ 00:21

  8. “Li no Público e achei excelente.”

    Obrigado.

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 00:33

  9. “Parabéns!”

    Obrigado Rui, ainda para mais sabendo que provavelmente discordas de boa parte do conteúdo. ;)

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 00:34

  10. Tinha lido no Público este artigo e pensei: “finalmente lê-se alguma coisa equilibrada nos media portugueses sobre a crise”. Parabéns! Está excelente!

    Comentário por Nuno Gouveia — Dezembro 12, 2008 @ 01:43

  11. “Tinha lido no Público este artigo e pensei: “finalmente lê-se alguma coisa equilibrada nos media portugueses sobre a crise”. Parabéns! Está excelente!”

    Nuno,

    No teu caso, apesar de não te conhecer pessoalmente, não posso agradecer pois, como sabes, o intrépido (e sempre vigilante) Luís Marvão descobriu a nossa terrível conspiração segundo a qual tu escreves em meu nome.

    Ainda assim, anoto com agrado que continuas a executar com empenho o plano secreto. ;)

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 01:51

  12. «Mesmo assim, a regulação não funcionou.»

    Este argumento serve mais para refutar a cartilha “pró-estatal” do que para sustentar uma cartilha “liberal”. Afinal a função da regulação é limitar a liberdade de actuação dos agentes. Se esta falhou é porque não limitou convenientemente a actuação dos agentes. Logo, o que se deduz do argumento é que é necessária mais e melhor regulação. Reconhece-se que os agentes precisam de ser vigiados. O que é uma conclusão anti-liberal.

    Comentário por Tarzan — Dezembro 12, 2008 @ 12:20

  13. “Este argumento serve mais para refutar a cartilha “pró-estatal” do que para sustentar uma cartilha “liberal”. Afinal a função da regulação é limitar a liberdade de actuação dos agentes. Se esta falhou é porque não limitou convenientemente a actuação dos agentes.”

    Eu diria que esse argumento sobre a regulação assenta numa concepção anti-liberal de regulação. O objectivo da regulação – pelo menos numa perspectiva liberal – deveria ser o de aplicar e fazer respeitar regras gerais e abstractas de conduta. Se o Estado usa a regulação para intervir nos mercados além disso (como fez em vários sectores a começar pela política monetária), é natural que provoque consequências desastrosas e essas consequências devem ser consideradas falhas do Estado.

    Em qualquer caso, não é de facto objectivo do artigo defender uma cartilha (liberal ou outra) mas antes contribuir para refutar algumas das enormidades mais gritantes associadas à cartilha antiliberal que se tornou praticamente hegemónica nos media e em muitos meios académicos.

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 12, 2008 @ 13:05

  14. [...] A crise e a cartilha antiliberal, André Azevedo Alves, 6 de Dezembro no Público Acato, mas não obedeço, Gabriela Calderón, OrdemLivre.org   [...]

    Pingback por Estado de Previdência » A via liberal — Dezembro 12, 2008 @ 15:49

  15. [...] Leitura complementar: A crise e a cartilha antiliberal. [...]

    Pingback por Apesar de tudo, um bom sinal « O Insurgente — Dezembro 13, 2008 @ 10:20

  16. [...] Leitura complementar: Atracção pelo abismo; A crise e a cartilha antiliberal. [...]

    Pingback por Atracção pelo abismo (2) « O Insurgente — Dezembro 18, 2008 @ 01:04

  17. [...] Leitura complementar: A crise e o “neoliberalismo”. [...]

    Pingback por O que causou a crise financeira? « O Insurgente — Janeiro 10, 2009 @ 10:00

  18. [...] Muitos milhões, fásssismo e “neoliberalismo” Arquivar em: Comentário, Economia, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 12:16 am Assim vai a campanha eleitoral já em curso: anúncio de muitos milhões distribuídos conjugados com incentivos ao crédito (esquecendo que a crise resultou precisamente de uma bolha de crédito…) e acusações mais ou menos disparatadas. Entretanto, a despesa pública do Estado chega aos 50% do PIB pela primeira vez na história, mas uma coisa é certa: quando as coisas correrem mal, a culpa será – como habitualmente – do temível “neoliberalismo”… [...]

    Pingback por Muitos milhões, fásssismo e “neoliberalismo” « O Insurgente — Janeiro 20, 2009 @ 00:16

  19. [...] Leitura complementar: A crise e o “neoliberalismo”. [...]

    Pingback por A crise, o Estado e os mercados « O Insurgente — Fevereiro 3, 2009 @ 20:09

  20. [...] Leitura complementar: A crise e o “neoliberalismo”. [...]

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