O Insurgente

Novembro 2, 2008

Para além da “nacionalização” do BPN

A “nacionalização” do BPN e a injecção de dinheiro público no sistema bancário oferecem ao PSD uma oportunidade para explicar aos portugueses a necessidade de reformas profundas no nosso “modelo social”.

 

Confrontado com os prejuízos do BPN na ordem dos 700 milhões euros, o Governo decidiu “nacionalizar” o capital do banco, devido a, nas palavras do Ministro das Finanças Teixeira dos Santos, “uma situação “excepcional”, “delicada” e “anómala” vivida pela instituição bancária”, que a conduziu a uma situação de “pré-falência”, que poderia trazer uma maior instabilidade ao sistema financeiro português. Ao mesmo tempo, o Governo anunciou também que vai  injectar cerca de quatro mil milhões de euros no sistema bancário português «através de acções preferenciais» para reforçar a solidez financeira das instituições.

Ao longo dos próximos dias, assistiremos muito provavelmente a uma intensa discussão acerca dos méritos ou deméritos de ambas as medidas. O CDS, por exemplo, já veio acusar o Banco de Portugal de ter falhado, no caso dos negócios do BPN em Cabo Verde, na sua tarefa supervisora, e o BE não demorou muito tempo para pedir ao Governo que intervenha directamente na política remuneratória dos bancos. O PCP, por sua vez, manifestou a sua reacção positiva à entrada do estado em “posições importantes em áreas estratégicas da economia, visando o seu relançamento e o apoio ao aparelho produtivo e à produção nacional”. É um debate ao qual o PSD não se deve juntar. Pois aquilo em que o PSD deve concentrar as suas atenções não é em encontrar uma alternativa ao que o PS faz hoje, mas em preparar uma política alternativa para pôr em prática partir de 2009. Tudo o que o PSD diga que faria diferente do PS hoje seria irrelevante (pois o PSD não pode pôr essa alternativa em prática), e o que realmente interessa é perceber que consequências futuras terá a política governamental, e o que é que terá de ser feito em virtude disso.

Um Estado português já muito endividado optou por injectar dinheiro no sistema bancário, para evitar males maiores. Ou seja, para evitar males maiores, agravou um mal de que já padecia, pois esse dinheiro tem que vir de algum lado, e como, ao que consta, a produção de riqueza não aumentou em Portugal, ele só pode vir de endividamento público, que terá de ser pago pelo contribuinte mais tarde ou mais cedo. Esta dívida ou será paga com subidas de impostos intoleráveis para uma população que já entrega metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que “cresça nas árvores” (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido “modelo social europeu”, eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro.

Este foi o caminho (timidamente) escolhido pela Suécia quando, nos anos 90, interveio de uma forma semelhante no seu sistema bancário para responder a uma crise financeira. A despesa pública subiu de forma acentuadíssima após a resposta à crise, tal como o défice público. Assim, a única forma de manter a economia sueca competitiva passou pela aplicação de cortes na despesa pública e por reformas dos serviços sociais como a saúde e a educação, progressivamente privatizados. Até a Segurança Social foi alterada, deixando de funcionar como um sistema de “pay as you go”, passando  a prever que cada pessoa fosse detentora de um fundo de pensão individual cujo fornecedor pode escolher livremente.

É isto que o PSD deve discutir. Não se Vitor Constâncio e o Banco de Portugal cumpriram a sua função reguladora, ou se a “nacionalização” do BPN foi boa, ou se se deveria injectar ou não dinheiro no sistema bancário. O que o PSD deve explicar aos portugueses é algo de muito diferente: uma vez tomadas estas medidas, que implicações têm elas para o futuro do país e que medidas terão de ser introduzidas no futuro para que Portugal consiga tornar-se mais competitivo. Até porque estas medidas oferecem ao PSD uma oportunidade para conseguir convencer os portugueses a aceitarem reformas que muitos deles não estariam dispostos a aceitar.

Nos últimos anos, os portugueses têm estado a agarrar-se aos últimos tostões que vão mantendo: estão até dispostos a pagar mais impostos, desde que possam manter o seu acesso (falsamente) gratuito aos (medíocres) serviços de saúde e de educação, bem como as (mais magras que eu) pensões estatais que só recebem à custa do empobrecimento dos mais novos (que nunca terão acesso a algo de semelhante). É como se estivessem todos num barco a afundar, mas no qual se preferem manter pois, ao menos, a cabeça está seca: só aceitarão abandoná-lo quando ele for mesmo ao fundo.

Ora, aquilo a que estamos a assistir, longe de ser o fim do “capitalismo” ou da “globalização”, é precisamente ao inundar do barco de um ”modelo social europeu” que está prestes a ir ao fundo: as medidas que os Estados europeus tiveram de tomar para responder à crise financeira ou casos como o do BPN estão a agravar os seus já graves problemas de endividamento, que se traduzirão no empobrecimento generalizado das populações, caso esse “modelo social” não venha a ser reformado. Se os portugueses perceberem isto, estarão muito mais abertos a aceitar reformas que, podendo ter custos (que terão certamente), serão a melhor forma que temos de fugir a um ciclo vicioso de empobrecimento e estagnação que nos tornará ainda mais dependentes do pouco que o Estado nos dá, o que por sua vez nos tornará ainda mais pobres e ainda mais dependentes, e assim sucessivamente.

O que o PSD precisa de explicar aos portugueses é precisamente isto: as medidas que o PS introduziu obrigam a reformas muito mais profundas do que os “remendos” que têm sido aplicados nos últimos anos, sob pena de nos tornarmos cada vez mais pobres e atrasados. O PSD tem de explicar aos portugueses que, longe de serem “sacrifícios” impostos pela “Europa”, estas reformas, por muito difíceis que sejam, serão a melhor oportunidade para tornar o país mais competitivo e melhorar as nossas vidas. A crise financeira, e a resposta que o Governo lhe deu, oferecem ao PSD a melhor oportunidade que o partido terá de vir a ser ouvido.

7 Comentários »

  1. Bruno, eu diria que mais de 80% dos portugueses estão convencidos que “descontam” para a sua própria reforma. Não fazem a mínima ideia do esquema de Ponzi que está montado na Segurança Social e, se tentares explicar-lhes, pensam que estás maluco. esquece, isto não tem solução a não ser o empobrecimento generalizado. Daqui a uns anitos não serás considerado magro, com um bocado de azar hão-de dizer que estás obeso ou, com alguma inveja, nós os outros diremos que és um rapaz bem alimentado.

    Comentário por Helder — Novembro 2, 2008 @ 23:50

  2. tem toda a razao , mas como é que o partido SOCIALDEMOCRATA , vai explicar ao tuga que o partido SOCIALDEMOCRATA mentiu durante 20 anos e que o sistema SOCIALDEMOCRATA nao funciona ,como é que o parido que implantou o modelo social democrata , vai explicar ao povinho que …. se enganou , afinal não é possivel …a intencao era boa … como ? responda a isto e tamos safos

    Comentário por Ze — Novembro 3, 2008 @ 01:08

  3. Caro Bruno,

    Concordo no geral, discordo nos pormenores:

    - Não me parece que o Modelo Social Europeu esteja a ir ao fundo, antes pelo contrário (acho que o modelo é que ainda vai aguentando a “coisa”).

    - É óbvio que o modelo deve ser revisto, especialmente no que diz respeito às reformas, mas não abolido. Acredite que, caso essas coisas não existissem e não pertencessemos à UE, já tinha havido um golpe de estado e tinhamos um regime autoritário.

    - O nosso sistema de saúde não é mediocre, é até bastante bom. Já quanto à educação concordo, mas o problema não está no modelo (público) de ensino, mas antes na sua implementação (dirigismo da 5 de Outubro, focagem nos resultados estatísticos e não nos reais, limitação à escolha de escolas).

    Comentário por Carlos Duarte — Novembro 3, 2008 @ 10:43

  4. Pede-se apoio para esta proposta para melhorar o estado do país:
    http://cabalas.blogspot.com/2008/11/proposta-para-melhorar-o-estado-do-pas.html

    Comentário por O Raio — Novembro 3, 2008 @ 19:27

  5. ótimo post

    Comentário por Robert — Novembro 3, 2008 @ 21:54

  6. [...] Room: o PSD em 2009 e a crise Vale a pena ler o excelente artigo de Bruno Alves, sobre as prioridades estratégicas do PSD em matéria de mensagem política, num momento em que o [...]

    Pingback por Blog Room: o PSD em 2009 e a crise « bem-vindo à esfera — Novembro 3, 2008 @ 23:59

  7. Para dizer a verdade, esta noticia não me choca visto que na realidade e salvo excepções menores tudo me parece minuciosamente

    planeado, o problema, a resposta, tudo deveras bailando em tal harmonia que padece de ritmo para fluir.

    Vivemos num sistema monetário, falso e ruindo à nossa volta.

    Nacionalização?

    Fantastico, o Governo fazendo lucro e dando o de volta aos portugueses.

    Que alguêm me explique os beneficios da privatização por favor, porque além de tornar a nossa sociedade uma autêntica máquina

    carnivora e alimentar o grupo de empresários ricos em Portugal, não sei bem para que mais servirá.

    Comentário por ricardocaetano — Novembro 5, 2008 @ 10:13


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