O Insurgente

Setembro 21, 2008

O mito do “sistema totalmente liberalizado”

Filed under: Comentário,Economia,Internacional,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 17:58

O Rodrigo Moita de Deus continua a cair no mesmo erro que assinalei aqui e aqui: culpar a economia de mercado pelos problemas gerados pelo intervencionismo estatal, assim como pelos custos que este impõe aos contribuintes.

Tal como o colapso da Fannie Mae e do Freddy Mac não foram “falhas de mercado” mas sim dois fracassos do intervencionismo, é igualmente errado (e quase caricatural) falar num “sistema totalmente liberalizado” quando existe um amplo aparato regulatório no sistema financeiro dos EUA cuja intervenção vai muitíssimo além de fazer respeitar regras gerais de conduta (com os resultados que estão à vista), quando o governo federal actua directa e indirectamente nos mercados financeiros através de diversas instituições, quando o mesmo governo federal (com apoio tanto de Democratas como de Republicanos) nacionaliza instituições financeiras de forma arbitrária fazendo aumentar exponencialmente os incentivos perversos e o moral hazard e quando os mercados funcionam no contexto de um regime de socialismo monetário imposto por um Banco Central.

Se isto é um “sistema totalmente liberalizado”, então talvez a Coreia do Norte seja mesmo uma democracia como defende o camarada Bernardino…

Melhor seria falar em falhas de regulação e nos custos impostos pela crescente espiral de intervencionismo estatal em que cada fracasso alimenta novas e maiores doses de intervencionismo para resolver os problemas criados. Assimilando a ladainha das “falhas de mercado” que os media – como sempre – vão debitando é impossível formar um diagnóstico correcto. E, sem um diagnóstico correcto e intoxicadas pela ideia de que o que falhou foi um “sistema totalmente liberalizado”, o mais provável é que mesmo pessoas bem intencionadas acabem a ponderar se afinal não seria melhor aplicar medidas totalitárias como a nacionalização de todo o sistema financeiro.

Entretanto, o Rodrigo Moita de Deus fica com a duvidosa conquista de se juntar graciosamente ao grupo dos que fazem papel de meninos das bandeirinhas ao serviço da extrema-esquerda mais demagógica.

Leitura complementar: Sobre o mito da desregulação do mercado financeiro (2); Fannie Mae e Freddy Mac: mais dois fracassos do intervencionismo; Gulag; Definir o capitalismo é muito fácil; Sobre a natureza dos mercados e das novas economias; O pior dos ciclos económicos; Ciclos Económicos: Hayek.

5 Comentários »

  1. Caro AAA,

    Eu continuo na minha: o problema da Fannie Mae / Freddie Mac NÃO FOI serem semi-públicos, mas sim comportarem-se como se fossem privados enquanto beneficiavam do aval do Estado.

    Comentário por Carlos Duarte — Setembro 21, 2008 @ 18:40

  2. “Eu continuo na minha: o problema da Fannie Mae / Freddie Mac NÃO FOI serem semi-públicos, mas sim comportarem-se como se fossem privados enquanto beneficiavam do aval do Estado.”

    Esta não entendo. O que é “comportarem-se como se fossem privados”?

    Comentário por lucklucky — Setembro 21, 2008 @ 19:51

  3. Caro lucklucky,

    “Esta não entendo. O que é “comportarem-se como se fossem privados”?”

    Se o risco de incumprimento (e, no limite, por soma das partes, de falência) era do Estado, não havia razão para que os responsáveis da Fannie e da Freddie monitorassem o risco. Eles não geriam hipotecas, mas cash flow, tendo todos os incentivos para alavancar ao máximo o seu negócio.

    Claro que contribuiu para o sossego das hostes e para o engrossar da espiral a ideia que o imobiliário nunca desceria, que os preços tenderiam sempre para crescer.

    Comentário por Rodrigo Adão da Fonseca — Setembro 21, 2008 @ 20:34

  4. Entendo isso. Mas a razão para agirem assim foi serem semi-públicos. Eu ligo directamente o aval do Estado ao facto de serem semi-publicos. Em teoria as regras poderiam ter sido óbviamente outras, mas os bolsos sem fundo encontram-se indelévelmente ligados aos Estados.

    Comentário por lucklucky — Setembro 21, 2008 @ 21:27

  5. [...] Política — André Azevedo Alves @ 1:32 am Devo esclarecer que não ambicionava com este post (nem com este) que o Rodrigo Moita de Deus se interessasse por tentar compreender as causas da [...]

    Pingback por O mito do “sistema totalmente liberalizado” (2) « O Insurgente — Setembro 24, 2008 @ 01:34


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