O Insurgente

Setembro 18, 2008

Sobre o mito da desregulação do mercado financeiro (2)

Filed under: Economia,Internacional,Política — André Azevedo Alves @ 10:44

Vale a pena recordar o artigo de Tyler Cowen citado pelo Miguel Noronha: Too Few Regulations? No, Just Ineffective Ones.

THERE is a misconception that President Bush’s years in office have been characterized by a hands-off approach to regulation. In large part, this myth stems from the rhetoric of the president and his appointees, who have emphasized the costly burdens that regulation places on business.

But the reality has been very different: continuing heavy regulation, with a growing loss of accountability and effectiveness. That’s dysfunctional governance, not laissez-faire.

(…)

For the regulatory category of finance and banking, inflation-adjusted expenditures have risen 43.5 percent from 1990 to 2008. It is not unusual for the Federal Register to publish 70,000 or more pages of new regulations each year.

In other words, financial regulation has produced a lot of laws and a lot of spending but poor priorities and little success in using the most important laws to head off a disaster. The pattern is reminiscent of how legislators often seem more interested in building new highways — which are highly visible projects — than in maintaining old ones.

(…)

In the meantime, if you hear a call for more regulation, without a clear explanation of why regulation failed in the past, beware. The odds are that we’ll get additional regulation but with even less accountability and even less focus on solving our very real economic problems.

Lamento a potencial desilusão, mas suspeito que o Rodrigo Moita de Deus só vai estar em condições de compreender a tal explicação depois de perceber que o que falhou não foi nenhum “mercado ultra-liberal”.

Por estas e por outras é que – embora tenha a Austrian School of Economics como primeira opção – prefiro ainda assim a Lota de Matosinhos Business School à Alfama School of Economics

20 Comentários »

  1. na realidade a unica chance do liberalismo são estas nacionalizações. É o que impede o mundo de um reality check doloroso. Uma crise como a de 29 terminaria com o segundo ciclo liberal definitivamente.

    Comentário por bg — Setembro 18, 2008 @ 11:53

  2. E no entanto os liberais pedem o “reality check” por mais doloroso que ele possa ser. Ou somos masoquistas ou o bg está errado.

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 12:22

  3. Temos de ser sérios nesta questão. Eu nunca na vida estive em matosinhos. Agora um pouco mais a sério. A expressão “nacionalização” é malandra. Partimos do princípio que as nacionalizações são um exercício de poder do Estado contra a vontade dos accionistas e stakeholders das empresas. Houve nacionalização do Nothern Rock (até porque havia outros candidatos à sua aquisição). Mas não é esse o caso da AIG, da Fannie Mae ou da Freddy Mac. O Estado aqui actuou como um agente económico, dentro das “regras do mercado” e por vontade do próprio mercado, accionistas e stakeholders. Provavelmente teremos de inventar uma expressão que faça mais justiça a este tipo de intervenção.
    Há regulação? Claro que há regulação. E ainda bem que há regulação. A regulação funcionou? Não. Não funcionou porque os seus mecanismos estão, obviamente, ultrapassados no tempo. Como alguém dizia e bem (julgo que o João Miranda) os mecanismos regulatórios foram criados para evitar crises que já acabaram. Como pode um banco central evitar a especulação sobre o imobiliário, as dot.com ou as matérias primas. Como pode uma autoridade local fiscalizar (eficazmente) a actividade de um carry trader? Não sei. Genuinamente não sei. O que sei é que a resposta não é, certamente, mais liberdade de actuação para os agentes económicos.

    um abraço
    RMD

    Comentário por Rodrigo Moita de Deus — Setembro 18, 2008 @ 13:37

  4. os liberais apenas pedem mais oportunidades para ter razão. é o chamado sindrome comunista.

    Comentário por bg — Setembro 18, 2008 @ 14:07

  5. ” O que sei é que a resposta não é, certamente, mais liberdade de actuação para os agentes económicos”

    Como é que sabes?

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 14:08

  6. “os liberais apenas pedem mais oportunidades para ter razão”

    Os liberais já provaram que têm razão. É claro que o socialismo é emocionalemente mais apelativo.

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 14:10

  7. O que os agentes económicos esperam do mercado é a criação de mais valias para os seus accionistas. e muito justamente. a questão da sua responsabilidade social é secundária. quanto mais latitude dermos aos agentes económicos mais secundaria a questão da responsabilidade social se torna. Quanto menos latitude dermos aos agentes económicos menor o benefício que trazem para a sociedade. Entre essa preocupação “socialista” e o reconhecimento do papel do capitalismo enquanto motor de desenvolvimento há um ponto óptimo. chamam-lhe social-democracia.

    Comentário por Rodrigo Moita de Deus — Setembro 18, 2008 @ 17:37

  8. A tua análise está profundamente errada (e sim, é socialista). O papel social das empresas cumpre-se ao proporcionarem um produto ou serviço aos seus clientes e ao criarem mais-valias para os accionistas. É claro que com isto geram outros beneficios secundários (principalmente a criação de empregos directos e indirectos). Tudo o resto a que se convencionou chamar “responsabilidade social” nada mais é que a intromissão dos política na esfera privada. Um objectivo muito do agrado dos socialistas.

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 17:46

  9. Miguel,

    Vais desculpar-me mas a minha análise “não está errada”. No máximo poderás não concordar com as conclusões que tirei porque valorizas mais um aspecto em detrimento do outro. E não. Não é só socialista. O mesmo princípio está na génese da doutrina social da Igreja (como bem sabes). Ou desse monstro que é a “social-Democracia”. A não ser que pretendas dizer que tudo o que não é liberal é socialista. Afirmação que, com latitude, percebo.

    De resto, quando dizes que a responsabilidade social (que eu leio como sendo papel social) das empresas é a intromissão dos políticos na esfera privada identificas bem a natureza das nossas diferenças. Como disse, e repito, os agentes económicos são, para mim, meros instrumentos, ferramentas e meios. E o capitalismo é o pior dos sistemas à excepção de todos os outros.

    Comentário por Rodrigo Moita de Deus — Setembro 18, 2008 @ 18:34

  10. Caro RMD,

    “Como disse, e repito, os agentes económicos são, para mim, meros instrumentos, ferramentas e meios. E o capitalismo é o pior dos sistemas à excepção de todos os outros.”

    Não percebo. Se o capitalismo é mau, mas os outros são piores, significa isso que vale a pena moldar o capitalismo, para o tornar pior do que ele já é, mais próximo de todos os outros?

    Comentário por RAF — Setembro 18, 2008 @ 18:53

  11. “O mesmo princípio está na génese da doutrina social da Igreja (como bem sabes).”

    Tenho fracos conhecimentos da DSI mas parece-me que uma eventual obrigação moral inscrita na doutrina da Igreja Católica não implica que exista uma obrigação legal que é o que estás a sugerir

    “Ou desse monstro que é a “social-Democracia”.

    Segundo o “pai” da social-democracia, os seus obejctivos sãoos mesmo que os dos socialismo. O caminho dá mais umas voltas mas leva ao mesmo final.

    “E o capitalismo é o pior dos sistemas à excepção de todos os outros.”

    Neste ponto faço minhas as palavras do RAF.

    “os agentes económicos são, para mim, meros instrumentos, ferramentas e meios”

    Estás, portanto, a transformar seres humanos em instrumentos dos teus designios.

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 20:58

  12. Miguel,

    Estavamos a falar de princípios doutrinários. A ideia de que todas as empresas têm um papel social é um princípio que pode ou pode não estar reflectido na lei.

    “Segundo o “pai” da social-democracia, os seus obejctivos sãoos mesmo que os dos socialismo. O caminho dá mais umas voltas mas leva ao mesmo final.”

    Sim. Os objectivos da social-democracia, do socialismo, do fascismo, do ambientalismo, do comunismo e de todas as outras doutrinas que o homem até hoje criou são exactamente os mesmos. Paz na terra entre os homens, muita prosperidade e saúde e tal. Tipo Miss Universo. O caminho dá umas voltas mas leva ao mesmo final.

    Pergunta o RAF: Não percebo. Se o capitalismo é mau, mas os outros são piores, significa isso que vale a pena moldar o capitalismo, para o tornar pior do que ele já é, mais próximo de todos os outros?

    Porque é mais eficaz atenuar os defeitos do capitalismo que realçar as virtudes dos outros sistemas.

    “Estás, portanto, a transformar seres humanos em instrumentos dos teus designios”

    Os bancos, as empresas são seres humanos ou personalidades jurídicas colectivas?

    Comentário por Rodrigo Moita de Deus — Setembro 18, 2008 @ 22:49

  13. “Estavamos a falar de princípios doutrinários. A ideia de que todas as empresas têm um papel social é um princípio que pode ou pode não estar reflectido na lei.”

    Entre o estar e o não estar vai uma grande diferença, no meu entender.

    “Sim. Os objectivos da social-democracia, do socialismo, do fascismo, do ambientalismo, do comunismo e de todas as outras doutrinas que o homem até hoje criou são exactamente os mesmos. Paz na terra entre os homens, muita prosperidade e saúde e tal. Tipo Miss Universo. O caminho dá umas voltas mas leva ao mesmo final.”

    É uma boa forma de fugir ao assunto.

    “Os bancos, as empresas são seres humanos ou personalidades jurídicas colectivas?”

    Os seus propritários e funcionários são pessoas ou abstracções juridicas?

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 23:05

  14. “Porque é mais eficaz atenuar os defeitos do capitalismo que realçar as virtudes dos outros sistemas.”

    E como é que sabes que o resultado final é melhor?

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 23:06

  15. de qualquer das formas de um espectro político ao outro todos defendem uma reforma das práticas correntes. Quando se defende a falência é para que uma certa “prática de gestão danosa” seja penalizada e arrumada do sistema. Não para que se perpetue. Ora se quase todos os grandes agentes financeiros estão em risco de colapso…

    Não é a reforma do sistema ou da praxis que está em causa portanto. Está é a maneira de o fazer. Através das falências em massa e da crise económica ditando o mercado a solução, ou seja o mercado como agente orgânico “ideologicador”, ou através da acção do estado.

    Comentário por bg — Setembro 18, 2008 @ 23:15

  16. O que o bg chama a “acção do estado” tende a produzir piores resultados e prolongar as crises. Já aconteceu nos anos 30 e relembro que foi a mesma “acção do estado” que ao tentar minimizar crises anteriores criou as raízes da actual.

    Comentário por Miguel — Setembro 18, 2008 @ 23:23

  17. Miguel,
    ninguém estava tentar fugir ao assunto. Respondi explicando-te que os “objectivos” de todas as ideologias são iguais. É exactamente “nas voltas que dás” que tens a diferença. Aliás “as voltas que dás” são as ideologias. Na prática, eu não sou socialista porque acredito que existe outro caminho melhor. Mas o destino é o mesmo.

    “Os seus propritários e funcionários são pessoas ou abstracções juridicas?”
    É exactamente para protejer proprietários (tipo accionistas) e funcionários que eu tenho de regulamentar o funcionamento das instituições.

    “E como é que sabes que o resultado final é melhor?”
    Pois. como eu não acredito que este tipo de colapsos sejam “bugs” normais ou aceitáveis no sistema qualquer mecanismo que corrija esses bugs é uma melhoria.

    Comentário por Rodrigo Moita de Deus — Setembro 19, 2008 @ 00:44

  18. [...] Azevedo Alves @ 5:58 pm O Rodrigo Moita de Deus continua a cair no mesmo erro que assinalei aqui e aqui: culpar a economia de mercado pelos problemas gerados pelo intervencionismo estatal, assim [...]

    Pingback por O mito do “sistema totalmente liberalizado” « O Insurgente — Setembro 21, 2008 @ 17:59

  19. [...] não espanta que no próprio blogue já se passe impunemente por cima dos ensinamentos da Alfama School of Economics para defender práticas concorrenciais como as do [...]

    Pingback por À atenção da Autoridade da Concorrência « O Insurgente — Janeiro 13, 2009 @ 22:04

  20. [...] Nanny State Watch, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 19:09 Há coisas que até a Alfama School of Economics percebe: mais ou menos sobre o peso do Estado na economia. Por Rodrigo Moita de Deus. Deixe um [...]

    Pingback por O jornal Público e a publicidade « O Insurgente — Agosto 22, 2009 @ 19:09


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 2.441 outros seguidores