Logo após o anúncio da falência do Lehman Brothers havia análises para todos os gostos. Mas havia em todas um tópico convergente: o governo deveria ou não agir para ajudar os clientes? Mesmo sem o governo, os depósitos dos clientes foram assegurados e os credores vão receber o devido com a venda dos ativos da holding.
Pegando o exemplo da falência do Lehman para falar da situação dos bancos de forma geral, há dois aspectos que merecem observação: o primeiro é o impulso em ver o governo como uma salvaguarda permanente; em segundo lugar, do ponto de vista do cliente, ter com o banco privado uma relação quase cega de confiança.
A confiança talvez seja o maior ativo de um banco. Uma vez estabelecida essa relação a empresa trabalha para preservá-la. E assim o cliente vê no banco uma solidez que é fictícia. No setor privado todas as empresas (incluindo os bancos) assumem o risco de serem bem sucedidas ou de irem à bancarrota.
Mas qual seria o impacto da mudança na relação de confiança por parte dos clientes? Numa situação hipotética (e ideal) só é possível conjecturar:
1- Sem mais a certeza de segurança os clientes passariam a exigir mais dos seus bancos;
2- Para modificar seu perfil e atender o novo tipo de cliente os bancos, inicialmente, precisariam aumentar as garantias, o que implicaria num aumento de custo;
3- Esse aumento de custo seria repassado aos clientes;
4- Uma parte dos clientes toparia bancar o aumento de custo para ter maior segurança;
5- Outra parte da clientela se recusaria a bancar um custo maior;
6- Um novo tipo de empresa surgiria no mercado para atender a demanda por um serviço que atendesse os consumidores que saíram do sistema bancário;
7- A entrada dessas empresas faria com que os bancos reagissem baixando os preços dos serviços para manter os atuais e reconquistar os antigos clientes;
8- A redução do preço dos serviços bancários beneficiaria aqueles que se mantiveram clientes dos bancos tradicionais e faria com que parte daquela clientela voltasse a usar o sistema.
9- Nesse sistema de concorrência, haveria empresas bem-sucedidas e malsucedidas em ambos os setores, com casos, inclusive, de falência.
Na hipótese de o governo intervir esse quadro hipotético com nove pontos seria reduzido a dois: 1) clientes receberiam o dinheiro que investiram; 2) os empresários do setor continuariam ter com o governo uma relação cega de confiança.
Os clientes do banco deveriam ficar desprotegidos face às empresas? Não, mas essa proteção tem que ser garantida pelo Estado na forma de um ordenamento legal e de um sistema jurídico eficaz (incluindo o acesso ágil à Defensoria Pública). Se o cliente foi lesado, que tenha condições de ser ressarcido na Justiça. Inaceitável é, por exemplo, o indivíduo que sequer tem dinheiro para abrir conta num banco pagar, como contribuinte, pelo fracasso empresarial ou pelo investimento frustrado de outros indivíduos.
Se o governo direciona recursos para salvar uma empresa privada o ato está longe de representar uma falha de mercado, em cujo bojo residem o sucesso e o insucesso; tratar-se-á, sim, para usar a expressão de Edward Crane sobre o caso Fannie Mae e Freddie Mac, de uma pura e simples falha de governo.
PS: Não há anjos em lado algum.
PS2: Os dois primeiros parágrafos do post foram modificados após a observação feita pelo RAF.
O que é engraçado é que ainda há quem tenha dito hoje “The fundamentals of our economy are strong”! (http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/09/fundamentals-of-our-economy-are-strong.html). O que se não fosse grave até tinha piada.
Comentário por Carlos Santos — Setembro 16, 2008 @ 03:19
Carlos Santos
Retomando conversa passada, o problema da expansão monetária não é só a inflação de preços (para mim, esse até é um efeito menor comparativamente porque mais evidenciado) mas sim a do sobre-investimento (a palavra miseana correcta será “malinvestment”) o qual não suportado em poupança real (até porque a poupança é desincentivada na fase de expansão dado que as taxas de juro estarão abaixo do que seria natural) mais tarde ou mais cedo tem de ser liquidado.
Comentário por CN — Setembro 16, 2008 @ 09:30
Bruno,
Nenhum cliente do Lehman ficou prejudicado, a SEC já anunciou que os depósitos estão garantidos. A falência é da holding, e agora a Lehman irá vender os seus activos – incluindo unidades de negócio inteiras – para salvaguardar os direitos dos credores. Os accionistas é que, em princípio, vão “arder”, devem receber 0 dólares.
A Lehman faliu, porque tinha de falir. A Fannie e a Freddie, se falissem, arrastavam o mercado das hipotecas, e obrigavam o Tesouro a incorrer em enormes perdas, por ser avalista.
Pior será uma eventual falência da AIG, isso sim, vai ser complicado.
Comentário por RAF — Setembro 16, 2008 @ 09:57
Obrigado, RAF, não havia lido essa informação, que vou acrescentar ao post. Abraços.
Comentário por Bruno Garschagen — Setembro 16, 2008 @ 23:22
[...] PS2: Os dois primeiros parágrafos do post foram modificados após a observação feita pelo RAF. [...]
Pingback por » Lehman Brothers, clientes, governo e concorrência — Setembro 16, 2008 @ 23:31
[...] PS2: Os dois primeiros parágrafos do post foram modificados após a observação feita pelo RAF. [...]
Pingback por Lehman Brothers, clientes, governo e concorrência | OrdemLivre.org/blog — Junho 23, 2009 @ 19:43