O Insurgente

Setembro 1, 2008

Ferreira Leite e o discurso de 7 de Setembro

Filed under: Colunas,Comentário,Media,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 20:02

Os comentários feitos pelos meus colegas insurgentes João Luís Pinto e BZ acerca do discurso que Manuela Ferreira Leite irá fazer no próximo dia 7 de Setembro (ambos dizem que, devido às expectativas criadas, Ferreira Leite terá de produzir um discurso de conteúdo extraordinariamente relevante e com grande impacto) vêm confirmar aquilo que aqui escrevi há alguns dias: apesar de não haver qualquer “silêncio” por parte da líder do PSD, espalhou-se como uma epidemia pelas redacções da comunicação social uma “narrativa” assente na existência (falsa) desse “silêncio”, e só o facto de essa “narrativa” existir faz com que seja sempre um problema, um problema que Manuela Ferreira Leite terá forçosamente de ultrapassar.

Tome-se o discurso do próximo dia 7 como exemplo: ele será visto e avaliado sempre à luz da “narrativa do silêncio”, e nunca em si próprio. Para a comunicação social, o que “se espera” desse discurso é que “anule” a “postura silenciosa” de Ferreira Leite nos últimos meses. Ora, como Ferreira Leite, e variados responsáveis do PSD, se pronunciaram abundantes vezes durante esse período, e os jornalistas continuam a dizer que ela se manteve em “silêncio”, fica bem evidente que nenhuma prova de que esse “silêncio” não existiu será suficiente para a comunicação social. Os jornalistas já estarão, à partida, convencidos de que Ferreira Leite se quer manter “silenciosa” (ou seja, sem “confrontar” o governo e sem “apresentar alternativas”) e, como é apenas e só natural nos seres humanos, interpretarão o seu discurso de forma a confirmar aquilo que já pensavam anteriormente.

Por que é que isto é um problema para Ferreira Leite? Porque aquilo que passar do seu discurso será aquilo que os jornalistas quiserem que passe, ou seja, a interpretação que eles, nos jornais e telejornais, irão fazer do seu discurso. Nas edições anteriores, o discurso de encerramento da Universidade de Verão do PSD nunca foi transmitido em directo pelas televisões. Provavelmente, este ano não será diferente. Assim, e à excepção de quem estiver presente, a única impressão com que todas as pessoas ficarão acerca do discurso da líder laranja será a que obtiverem dos curtos excertos televisivos e das reportagens escritas, ainda por cima “enquadrados” por uma interpretação que está condenada a ser pouco favorável a Ferreira Leite. O João e o BZ ficarão desiludidos com a prestação da líder laranja, por muito bom que o discurso seja, pois só terão acesso a uma (curta) parte dele, e, repito, “enquadrada” por uma apreciação negativa da “prestação” de Ferreira Leite.

Como é que Ferreira Leite pode ultrapassar este obsctáculo? Ela não só precisa de fazer um bom discurso, como de fazer circular a ideia de que fez um bom discurso, num ambiente mediático em que já está instalada a ideia de que ela consegue dizer nada de relevante. Por isso a solução terá de passar por “mudar de ambiente”: em vez de ficar dependente das televisões e dos jornais para a transmissão da sua mensagem, em versões que serão necessariamente truncadas e contrárias aos seus propósitos, Ferreira Leite deverá passá-la integralmente e sem “mediação”. Os responsáveis laranja fariam bem em filmar a intervenção de Ferreira Leite no próximo domingo e disponibilizarem-na online para quem a quiser ver. Mas mesmo isso não será suficiente. Serão poucos os que se darão ao trabalhar de procurar a intervenção de Ferreira Leite no site do PSD ou no You Tube. Por isso mesmo, os responsáveis do PSD teriam de os entregar às pessoas: por exemplo, enviar para os endereços de e-mail dos principais blogs de comentário político o vídeo da intervenção de Ferreira Leite. Estes ficariam, logo à partida, lisonjeados pela relevância que o PSD lhes estaria a atribuir, o que talvez fizesse com que alguns deles se mostrassem mais favoráveis à “prestação” de Ferreira Leite. E, de qualquer das formas, os responsáveis do PSD estariam a criar as condições para que a interpretação da comunicação social tradicional não circulasse sem contradição: se alguns bloggers se mostrarem agradados pela prestação de Ferreira Leite, talvez alguns dos colunistas dos jornais seguissem a mesma linha (estas coisas pegam-se), e essa interpretação favorável do discurso de Ferreira Leite alastrasse aos cidadãos em geral, permitindo à líder do PSD ultrapassar o problema posto pelo sucesso da “narrativa do silêncio”.

Será, é claro, um risco: se o discurso não for bom, a reacção dos bloggers, mesmo daqueles que à partida poderiam ser mais favoráveis a Ferreira Leite, será bem mais agressiva do que a que circulará na comunicação social, e Ferreira Leite perderá toda e qualquer hipótese de ultrapassar este seu problema. Mas se ela não correr esse risco, é garantido que Ferreira Leite ficará à mercê do “enquadramento” que a comunicação social fizer do seu discurso. Se correr esse risco, ao menos terá uma oportunidade de passar por cima desse obstáculo. E se o discurso for suficientemente bom, e Ferreira Leite consiga, a partir de algumas apreciações positivas, desencadear uma reacção em cadeia que propague uma interpretação alternativa à que a comunicação social irá passar do seu discurso (no fundo, propagar uma epidemia contrária à da “narrativa do silêncio”), o risco será certamente compensador.

6 Comentários »

  1. Excelente matéria!
    Pena que não posso visitar teu blog mais vezes. Depois do acidente que sofri fiquei com movimentos no teclado mais limitados. Mas, estou voltando, quase boa, perfeita…

    Saudades!!!

    Comentário por Santa — Setembro 1, 2008 @ 22:43

  2. O Orçamento é um Fingidor

    http://joshuaquim7.blogspot.com/2008/09/o-oramento-um-fingidor.html

    PALAVROSSAVRVS REX

    Comentário por PALAVROSSAVRVS REX — Setembro 2, 2008 @ 03:28

  3. Muito Bem, mas dúvido que tenham esse descernimento. Quanto a políticas não espero nada dela, tomara que seguisse a ideias de Kadafhi “O Liberal” na economia pelo menos :D

    “In his speech, he again pledged to scrap most government ministries and hand their budgets directly to the people to spend themselves.

    He said the plan, which he first announced in a speech in March, was a response to complaints of widespread corruption in the administration.

    “Libyans should all be ready to receive a share of the oil revenues starting from the beginning of next year,” the Libyan leader told the General People’s Congress, referring to the plan to hand out $37 billion currently spent by nonessential government departments.

    “You always accuse the peoples’ committees [ministries] of corruption and poor management,” he said. “These complaints will never end. So everyone [should] have their share [of oil revenues] in their pockets and manage.”

    He first announced plans to abolish all but the key ministries on the anniversary in March of the republic’s creation.

    The Libyan leader acknowledged that the scheme risked causing “chaos” for the first couple of years, but he said he it was necessary as any bureaucracy inevitably spawned corruption.”

    http://www.dailystar.com.lb/article.asp?edition_id=10&categ_id=2&article_id=95617

    Comentário por lucklucky — Setembro 2, 2008 @ 09:00

  4. Bruno, efabulas sobre o Discurso Futuro e do Futuro da MFL e sobre o muro de agentes de tratamento da informação, como se a pobre mulher tivesse a enfrentar um gigante no fundo seriamente adverso e intransponível. Sente-se a delicadez cirúrgica com que procuras soluções para superar o enquadramento limitador e faccioso por omissão dos diversos media. Dificilmente, porém, MFL terá argumentos que apaguem o seu problema da narrativa do silêncio: a Imprensa, as TVs, as Rádios e OS BLOGGERS, principalmente os BLOGGERS, talvez não tenham como poupar uma estratégia só agora em arremedo explicada por Marcelo.

    Se outros líderes no passado também souberam manter a castidade prolongada da própria língua, certamente não seria o caso de estarmos na recta final de uma eleição com as favas contadas, de onde surgirá um governo de coligação PS-BE, tornando-se Louçã um vice-primeiro ministro e o PSD dramaticamente residual, com percentagens de votação confrangedoras de 25% a 30% e tudo porque nem no tom nem nas opções de fundo nem no conhecimento profundo dos dossiês, o PSD terá existido com vigor, liderança e atempadamente.

    Por mim, não auguro nada de bom ou de marcante da homilía de encerramento de, por sinédoque, Castelo DiVide. Há um tempo para tudo, já rezava o Eclesiastes, mas o tempo actual exige marcação directa, política a política, ministro a ministro, sector a sector, exige uma verdade e uma frontalidade que décadas de mentiras, más opções, clientelismo camaleónico PS-PSD, não mais suportam.

    PALAVROSSAVRVS REX

    Comentário por PALAVROSSAVRVS REX — Setembro 2, 2008 @ 11:00

  5. “O João e o BZ ficarão desiludidos com a prestação da líder laranja, por muito bom que o discurso seja, pois só terão acesso a uma (curta) parte dele, e, repito, “enquadrada” por uma apreciação negativa da “prestação” de Ferreira Leite.”

    Bruno, asseguro-te que não haverá qualquer desilusão! Em relação a políticos as minhas expectativas são sempre muito (MUITO) baixas. ;)

    PS: o discurso de Ron Paul no seu Rally for The Republic será a única excepção.

    Comentário por BZ — Setembro 2, 2008 @ 11:46

  6. Bruno Alves,
    Vejo que continuas a bater na tecla de que a Ferreira Leite não tem estado em silêncio.
    Lamento, mas os exemplos que dás de faladuras não são minimamente convincentes. A verdade é que ninguém a ouve. Eu não tapei os ouvidos, continuo a ser um tipo tão atento como era antes, e muito raramente a oiço.
    Ora alguém na posição da Ferreira Leite (e com o estatuto que tem) não teria dificuldades em se fazer ouvir, caso o quisesse. Ora se ela bota faladura tantas vezes como tu dizes que ela bota e mesmo assim ninguém a ouve pode ser que não esteja a seguir uma estratégia de silêncio, mas apenas o de colocar o volume do microfone muito baixo, o que, para todos os efeitos práticos, é a mesma coisa. (e parece-me que só tu é que não concordas com isto)
    É esta estratégia de mutismo certa? Ela é que saberá o que tem a dizer, mas penso que sim, que é a estratégia correcta e parece-me que é a adequada à maioria dos dirigentes do PSD. Basta lembrar que enquanto o Durão Barroso esteve caladinho nos EUA (a fazer um doutoramento em Ciência Política que depois, afinal não esteve a fazer) a sua cotação no partido estava em alta. Mal tomou conta do partido, qual salvador, e botou faladura percebeu-se que o seu silêncio era de ouro. Apenas conseguiu ganhar as eleições devido ao estado em que Guterres deixou o país, e mesmo assim ia perdendo contra Ferro Rodrigues…
    Enfim, enquanto que o que o PS e o PSD tiverem a oferecer for mais do mesmo, qualquer deles que esteja na oposição o melhor que faz é estar calado. Afinal entre a cópia e o original as pessoas tendem a preferir o que já está no governo.

    Comentário por LA-C — Setembro 2, 2008 @ 16:27


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