O Insurgente

Agosto 25, 2008

A conversa não acabou

Filed under: Portugal,Teoria — Helder Ferreira @ 23:43

Se tivesse que escolher um post para ter escrito dos milhares que li desde Junho de 2003 seria este. Infelizmente falta-me a estaleca e a experiência para dizer o mesmo. Hei-de ter.

E não há mais conversa por Pedro Arroja

Eu vivia na America do Norte no final dos anos setenta quando por lá se aprovavam as primeiras leis do divórcio sem culpa (no fault divorce). Hoje essas leis estão lá em franca regressão, como a própria taxa de divórcio, porque conduziram onde era previsível que levassem – a uma explosão dos divórcios com a consequente vitimização das crianças, em primeiro lugar, e das respectivas mães em segundo.

Em nome de ideias modernistas, invariavelmente importadas de fora e com trinta anos de atraso, ver agora as mesmas leis, destinadas a produzir os mesmos efeitos, serem impostas em Portugal causa-me profunda indignação. Por isso, a propósito deste tema (e de vários outros), eu já não tenho paciência para debates e espero que os meus leitores compreendam isso. Eu próprio já criei uma família, em breve serei avô, e se viver até à idade correspondente à esperança de vida do homem português, tenho mais oito mil dias para viver. Já não tenho tempo para debater o óbvio. Cada dia representa 0.0125% da minha esperança de vida restante.

Sobre temas como a família ou o casamento considero que já tenho muito pouco a aprender, se é que tenho alguma coisa a aprender. Por isso, as minhas opiniões sobre este tema não devem ser entendidas como teses. Devem ser vistas como a verdade de forma razoavelmente aproximada. Quem quiser compra, quem não quiser não compra. E não há mais conversa.

Eu tenho grande dificuldade em compreender como pessoas que nunca criaram uma família, ou que foram incompetentes para criar uma família ou para manter um casamento, como é público acerca do primeiro-ministro português, ousam alterar as leis que regulam a família e o casamento.

14 Comentários »

  1. Concordo com boa parte do que escreve Pedro Arroja, mas tenho muita dificuldade em considerar viável o critério enunciado no parágrafo a bold.

    Comentário por André Azevedo Alves — Agosto 26, 2008 @ 00:02

  2. Outro aspecto importante é que as *actuais* leis que regulam a família e o casamento já deixam muito a desejar.

    Há muito pouco nelas que valha a pena defender. De certa forma, talvez seja preferível que o sistema caminhe o mais rapidamente possível para o colapso em vez de o estar a atrasar.

    Comentário por André Azevedo Alves — Agosto 26, 2008 @ 00:03

  3. Ainda a respeito da parte a negrito, também se poderia virar ao contrário e dizer que quem nunca passou por um processo de divórcio não se deveria meter nas leis que regulam o divórcio

    (bem, segundo qualquer das interpretações, quem teria menos autoridade na matéria seria eu, que nunca me casei nem divorciei)

    Comentário por Miguel Madeira — Agosto 26, 2008 @ 00:12

  4. “parágrafo a bold”

    André, ainda esta semana discutia o assunto com uma amiga que me dizia que só se casou porque existe o divórcio, senão não o faria, mas não foi capaz de me explicar como se casou pela Igreja sem a mesma premissa. O critério faz sentido no contexto porque denuncia a profunda hipocrisia que rodeia esta questão. Como diz o PA tudo isto só faz sentido assim:

    É precisamente porque o casamento e a instituição a que ele dá origem – a família – é sobretudo uma fonte de deveres para os cônjuges, e não de direitos, que a discussão do casamento e do divórcio em termos de direitos dos cônjuges não pode ser senão o fruto da imaturidade – a imaturidade própria de quem ainda não teve a oportunidade ou o gosto para criar uma família, ou falhou no empreendimento, ou quer acabar com a instituição.

    Tudo o resto, quanto a mim, não passa de masturbação intelectual. Com o devido respeito por quem o defende com boas intenções, mas é só isso.

    talvez seja preferível que o sistema caminhe o mais rapidamente possível para o colapso em vez de o estar a atrasar.

    Mais uma vez e mais ainda com todo o respeito, quando temos um filho (e imagino que netos mais ainda) que há-de cá andar quando estivermos a fazer tijolo começamos a ter dúvidas sobre isso. E medo.

    Comentário por Helder — Agosto 26, 2008 @ 00:17

  5. Disclaimer:

    o que penso sobre o assunto não tem que ver com qualquer ideia religiosa. Não tenho a felicidade da Fé.

    Comentário por Helder — Agosto 26, 2008 @ 00:18

  6. “Mais uma vez e mais ainda com todo o respeito, quando temos um filho (e imagino que netos mais ainda) que há-de cá andar quando estivermos a fazer tijolo começamos a ter dúvidas sobre isso. E medo.”

    Compreendo e partilho o medo. Não sou geralmente adepto das teses “quanto pior melhor” nem tenho grande confiança no potencial regenerativo das crises.

    Mas a verdade é que o *actual* enquadramento legal da família e do casamento já está FUBAR…

    Comentário por André Azevedo Alves — Agosto 26, 2008 @ 00:30

  7. Esse argumento está ao mesmo nível do utilizado pelo Louçã quando disse que o Paulo Portas não devia mandar bitaites sobre o aborto porque não tinha filhos…

    Comentário por João — Agosto 26, 2008 @ 00:38

  8. Vá lá João, deixe-se disso. Não é um argumento, é uma perplexidade e não vale a pena descontextualizá-la e comparar o olho do cú e o mês de Agosto. Senão explique-me as semelhanças entre o casamento e o aborto.

    Comentário por Helder — Agosto 26, 2008 @ 00:43

  9. “Mas a verdade é que o *actual* enquadramento legal da família e do casamento já está FUBAR…”

    Concordo e provavelmente é tarde demais, mas em algum lado se tem que fazer o risco no chão.

    Comentário por Helder — Agosto 26, 2008 @ 00:45

  10. Miguel, o divórcio não é uma coisa que existe para lá do casamento e dizer que se está a regular o divórcio e não o casamento é um disparate.

    Comentário por Helder — Agosto 26, 2008 @ 00:47

  11. Helder, acho que o Miguel Madeira disse tudo.

    Estabelecer o conhecimento concreto de situações concretas como uma condição necessária aos agentes legislativos para legislarem, parece-me dos argumentos mais primários e pobrezinhos que li nos últimos tempos.

    Estender-se-ia facilmente, por absurdo, à autoridade eclesiástica católica que o mesmo PA tanto idolatra.

    Já nem discuto a arrogância e o argumento de autoridade de detentor da verdade enunciado um parágrafo antes.

    Assinala-se pelo menos o regresso à expressão em português.

    Comentário por João Luís Pinto — Agosto 26, 2008 @ 01:28

  12. Não vi na parte do texto do Pedro Arroja aqui transcrita qualquer argumento. Pedro Arroja diz que sabe tudo sobre o casamento, mas não nos explica nada daquilo que sabe, pelo que ficamos na mesma.

    Não está provado que as leis sobe o “divórcio sem culpa” tenham tido seja o que fôr a ver com o aumento observado no número de divórcios. Por exemplo, em Portugal nos últimos anos tem-se observado um acentuado aumento do número de divórcios apesar de a lei se manter inalterada. Pelo que, pode presumir-se que a tendência para o aumento do número de divórcios tem a ver com alterações culturais e não com alterações legais.

    Comentário por Luís Lavoura — Agosto 26, 2008 @ 10:02

  13. Helder,
    O bold está fora do contexto. O PM deve promover as leis que considere adequadas, um pouco afastado da sua história pessoal. De contrário, estaríamos numa ditadura, aí sim, a sociedade é uma extensão do umbigo do Querido Lider, à sua imagem e semelhança.
    Ab
    RAF

    Comentário por RAF — Agosto 26, 2008 @ 10:55

  14. Concordo com o post. É, além de tudo, científico: prova que a proposta já foi tentada e, no somatório final, acaba por dar mais infelicidade ainda.

    Comentário por A. R — Agosto 26, 2008 @ 21:34


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 355 other followers