O Insurgente

Agosto 24, 2008

1 ano de Médio Oriente – Oportunidades para todos

Arquivar em: Comentário, Economia, Internacional, Médio Oriente, Política — Carlos Guimarães Pinto @ 22:22

Quem visitar o Dubai aperceber-se-à também de profundas diferenças no nível de vida. As mesmas pessoas que constroem dezenas de empreendimentos de luxo ou fazem emergir das águas do Golfo ilhas artificiais, partilham camaratas com mais 5 pessoas em armazéns no meio do deserto. Trabalham 12 horas por dia, 6 dias por semanas por salários a rondar os 300/400 dólares. Esta realidade existe numa cidade em que ninguém olha duas vezes quando passa por si um Ferrari e em que é impossível para alguém que queira morar a menos de 5 kms dos principais centros de negócios, viver num condomínio sem piscina, ginásio e outras infraestruturas semelhantes.

São duas (digo duas para simplifcar, serão muitas mais) diferentes realidades. Existem locais no Dubai onde se almoça por menos de um euro e hotéis a alguns quilómetros de distância onde uma simples garrafa de vinho pode chegar aos mil. Enquanto na recém-construída Palm Island alguns apartamentos chegam aos 10 milhões de euros, no Emirato dormitório de Sharjah alugam-se “bed spaces” por 50 euros por mês. Certo é que os imigrantes ligam pouco ao índice de Gini, e todos os dias entram no Dubai pessoas de todas as partes do Mundo querendo fazer parte de todas as diferentes realidades. Há algo em comum em todas estas pessoas: todas escolhem a sua realidade de livre vontade. O motivo pelo qual um Bengali escolhe vir trabalhar na construção civil por 400 dólares por mês é o mesmo que o cidadão inglês que vem ganhar 40 mil: uma vida mais próspera do que no seu país natal. E o Dubai serve os interesses de todos. As vantagens de uma economia livre (também de preconceitos) e de portas abertas é precisamente esta: a possibilidade de criar oportunidades para todos.

Uma das grandes lições que se aprende no Dubai, é que só é possível criar oportunidades para todos, se se aceitar viver com diferenças. E não me interpretem mal: eu sei que os europeus também não se importam de viver com as diferenças, desde que, claro, a diferença se mantenha longe. Um Europeu médio criticará um empreiteiro que mantenha trabalhadores africanos a ganhar 200 euros por mês, mas continua a jantar se vir os mesmos africanos a morrer de fome pela televisão no seu próprio país, longe. Um Europeu médio revolta-se ao ver um semelhante trabalhar longas horas para obter um salário de sobrevivência, mas não se importa de ver a mesma pessoa a viver de subsídios no seu gueto, condenado à indigência e à exclusão social.

12 Comentários »

  1. entretanto nos “nazis” espectaculos do encerramento olimpico tocam-se musicas dos led zepellin e o beckham desfila.

    Comentário por ferro — Agosto 24, 2008 @ 22:43

  2. “As vantagens de uma economia livre (também de preconceitos) e de portas abertas é precisamente esta: a possibilidade de criar oportunidades para todos.”

    Compreendo. O “livre de preconceitos” é lido aqui na perspectiva de uma flexibilidade moral que torna aceitável a troca de favores sexuais em troca da não-deportação, p.e., no interesse de “criar oportunidades”.

    Os expatriados no Dubai que não têm dinheiro para voltar e que existem á margem da sociedade (não podem recorrer a ajudas ou apoios ou justiça) na sua perspectiva então têm o que merecem. Como procuraram outras condições de vida diferentes das que encontraram colocaram-se num contexto que legitimiza ameaças á sua liberdade individual e integridade física. Tenho uma vívida imagem sua a dizer “Olha, Azar!”

    http://news.sky.com/skynews/Home/Sky-News-Archive/Article/20082851281723

    Como está em causa um crescimento económico explosivo devemos procurar aceitar (ou forçar como neste caso) a vivência quotidiana com as “diferenças” estatutárias no ponto de vista dos direitos dos indivíduos dentro da mesma sociedade. Coisas como uma “consciência” fazem obviamente parte de uma enorme farsa que para si é atribuída ao politicamente correcto e que é impeditiva de um crescimento de 12% ao ano.

    Um “salto” que está a precisar de fazer (para além do de uma era pré-abolicionista para o ano 2008):

    http://en.wikipedia.org/wiki/Human_rights

    Comentário por Nuno — Agosto 25, 2008 @ 01:09

  3. Ve-se bem este tipo de gente. Este tipo de capitalismo. Pior… nao podias pois nao???

    “Uma das grandes lições que se aprende no Dubai, é que só é possível criar oportunidades para todos, se se aceitar viver com diferenças”. Sobretudo as diferenças de uns a ganharem os tais 400 euros ao mes e outros a gastarem 4000 por dia. Se aceitarmos vamos todos para o ceu… mas na terra uns sao escravos e outros senhores.
    Aceitar o que??? a escravidao?? Nao… nao queremos.

    Mas nao fiquemos impressionados. O capitalismo nao è uma ideologia (alias… malguem conyhece uma ideia saida da boca de um capitalista???). O capitalismo è niilista. O lixado sao mesmo è os capitalistas. Escoria que vive a custa do trabalho dos outros. mas nao passam de uns tristes cobardes… pois vivem medrosos com a sua corja de capangas para sujarem as maos por eles.

    Marx?? Nao!!! Revoluçao??? Tb nao!!! Cristianismo??? isso è que nao mesmo. Alias os melhores dos cristaos praticantes sao a mais alta escumalha da humanidade… MAFIOSOS.

    Educaçao. respeito e justiça. E se ela vier na ponta de uma espingarda nao tenham medo… pois foram voces que escolheram o caminho… da justiça. As mortes?!?!? Inocentes, por tudo o mais sagrado espero que nao as hajam… as vossas??? Danos colaterais!!! Mas… ate os codigos penais preveem o legitimo uso deforça para sobreviver. Quem nao tiver de comer??? de trabalhar etcetc… Rua. è na rua que conquistamos os nossos direitos (nao foram adquiridos… nao vinham escritos nas tabuas)… o parlamento??? nem resposta merece. por isso tem tanto medo da rua…

    Comentário por CNT — Agosto 25, 2008 @ 01:37

  4. Tenho lido com bastante interesse as crónicas do Carlos sobre o Dubai. Muitos preconceitos e ideias feitas têm sido desmitificadas nestes textos, nos quais o Médio Oriente surge como um exemplo autêntico de mercado livre e com repercussões na liberdade efectiva na população, bastante heterogénea.
    Contudo, por todos os relatos está implícito e por vezes também explícito uma quase impossibilidade de tal realidade ser vivida no mundo ocidental, com os actuais modelos sociais e políticos – para não falar de outros aspectos tais como as mentalidades.
    Está na hora de muitos ocidentais, em especial quem tem responsabilidades políticas e de liderança, começarem a questionar o futuro do actual modelo social e político europeus. Não, não estou a dizer que serão os do Médio oriente que servirão de modelo!
    As democracias de modelo ocidental estagnaram, e o pensamento democrático pressupunha ser mais dialéctico e estar e em evolução e “revolução” permanentes…

    Comentário por PF — Agosto 25, 2008 @ 01:57

  5. Caro Nuno,
    Os problemas com agências de recrutamento existem onde existem grandes fluxos de emigração. No Dubai, se considerarmos que 90% da população é emigrante, é normal que os problemas sejam mais visíveis. A questão é que, apesar de tudo isto, hoje em dia as agências de recrutamento são cada vez menos importantes. Hoje funciona mais o word of mouth. Ou seja, grande parte dos novos operários já vem chamado por vizinhos e amigos. Há uns dias falava com um taxista paquistanês que me dizia que tinha convencido todos os seus irmãos a mudarem-se para o Dubai. Fala-se de razias em aldeias no sul da Índia, Sri Lanka e na região de Peshawar no Paquistão. Dizia-me ele que quando juntasse 20 mil euros, se poderia reformar…

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Agosto 25, 2008 @ 09:40

  6. O “word of mouth” ocorre em quase todos os cenários de emigração, para resultados variados.
    Para dar um exemplo na Europa, aqui vai um muito conhecido em que mulheres do Leste europeu são recrutadas para “servir á mesa” ou ser “recepcionistas” na Europa Ocidental e acabam como escravas sexuais em que as famílias no país de origem são ameaçadas fisicamente.
    São casos amplamente publicitados mas ocorrem todos os dias. Mas percebo agora que na perspectiva de alguns estas mulheres estavam mesmo a pedi-las e é por isso que estas situações perduram:

    http://www.cbsnews.com/stories/2005/02/23/48hours/main675913.shtml

    (uma de milhões de notícias)

    Caro Carlos Guimarães, volto sempre ao Insurgente porque aborda muitas vezes sem pruridos temas essenciais da nossa sociedade e não só e compreendo que num blogue o botão “Publicar” está sempre disponível mas procure ler o que escreve antes de dar uma imagem pública de si que não abona a favor da sua humanidade…

    Comentário por Nuno — Agosto 25, 2008 @ 10:47

  7. Caro Nuno,

    O que propõe? Que se proiba a emigração? Que se forcem salários elevados fechando a porta a muitos que não se importariam de entrar para receber os salários actuais? Que se obriguem os empreiteiros a colocar os trabalhadores em quartos individuais com wc e televisão privativas? Ou pretende perseguir aqueles que enganam e escravizan (uma pequeníssima minoria como deverá perceber)? É que se a sua resposta só for positiva em relação ao último ponto, então estamos de acordo.

    A questão do tráfico humano, embora interligada, não deve ser confundida com a emigração. É como confundir sexo com violação.

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Agosto 25, 2008 @ 11:16

  8. Antes de começar, digo que nunca visitei o Dubai e que não tenho grande vontade de o fazer, não por qualquer preconceito ideológico mas apenas porque não me atrai como destino turístico ou profissional. O que conheço, aprendi em livros e documentários.

    Aconselhava-lhe (humildemente) a leitura de O Mandarim, do Eça e do Le Génie du Christianisme do Chateaubriand, se quiser entender melhor o meu ponto de vista.

    Não estou nada convencido que apesar da extraordinária criação de valor que certamente existe no Dubai, uma parte importante (a maior?) dos proveitos gerados não esteja baseada na exploração dessa mão-de-obra escrava que vive acampada em condições miseráveis nos arredores dos condomínios de que fala o Carlos (um jogo de soma quase-zero no global). Essa aceitação pacífica de que fala (um pragmatismo amoral, típico do mundo pós-moderno) só se torna possível se não se atender demasiado aos contrastes em que vivem essas duas “castas”, porque não me parece correcto dizer que todos escolhem a realidade em que vivem de livre vontade – se assim fosse, mais taxistas paquistaneses viveriam na Palm Island.

    A mim angustiam-me as condições miseráveis em que vivem muitas das pessoas que me costuram a roupa, os sapatos e as bolas de futebol. Tanto as que vivem cá como as que vivem do outro lado do mundo. E tenho consciência que cada vez que visto uma camisola, seja da Zara ou da Gant, valido o sistema que esmaga milhões dos meus semelhantes e os obriga a trabalhar longas horas para terem o suficiente para viver, uns na China, outros no Vale do Ave. E custa-me viver com isso.

    Comentário por Manel — Agosto 25, 2008 @ 12:55

  9. “A questão do tráfico humano, embora interligada, não deve ser confundida com a emigração.”

    Concordo plenamente!
    O que acontece no caso do Dubai é que a emigração laboral foi pervertida para servir o tráfico humano.
    Se reler o seu próprio texto verá que a confusão foi sua…

    Na sua perspectiva os emigrantes ou trabalham 14 horas por dia com 40º á sombra por uma miséria que chega (?) para a alimentação ou então são mamões que vivem á custa de subsídios para comprar plasmas.

    Aconselho-o a visitar uma das ONG que apoiam o emigrante em Lisboa para pelo menos poder dizer que sabe do que é que está a falar e para acabar com essa perspectiva extremista e generalizadora de um grupo que inclui tanta gente de bem e trabalhadora como qualquer outro segmento da sociedade.

    Comentário por Nuno — Agosto 25, 2008 @ 14:21

  10. Pergunto-me se as pessoas lêem e preocupam-se em valorizar e pesar os diversos prós e contras ou apenas têm uma reacção pavloviana.

    Então um trabalhador que ganha $1 no paquistão e 20$ no Dubai passou de livre a voluntáriamente escravizado?

    ” E tenho consciência que cada vez que visto uma camisola, seja da Zara ou da Gant, valido o sistema que esmaga milhões dos meus semelhantes e os obriga a trabalhar longas horas para terem o suficiente para viver, uns na China, outros no Vale do Ave. E custa-me viver com isso.”

    É esta ignorància que custa. Sabe que é este “sistema” que dá de comer a muita gente que se não existisse ainda vivia mais miserávelmente? Sabe que é este sisteama por via da concorrência e do aumento de competências que está a aumentar exponencialmente os rendimentos dos mais pobres? Sabe que a maioria deles agradece que tenha comprado GANT ou ZARA?
    Sabe que pobreza mundial tem diminuido como nunca?

    Comentário por lucklucky — Agosto 25, 2008 @ 17:45

  11. Como o Carlos Guimarães acha que para se ter um crescimento económico comparável ao Dubai é preciso fechar os olhos aos direitos humanos o lucklucky considera que o único modo de um trabalhador poder a passar a ganhar para viver não é trabalhar no duro mas ir directa e resignadamente pela via do esclavagismo.

    Comentário por Nuno — Agosto 25, 2008 @ 18:37

  12. A falta de educação da sua resposta deveria merecer apenas o meu silêncio mas não consigo deixar de contribuir para a educação de um ignorante.

    Quando o “Paquistanês” vai para o Eldorado do Dubai à procura de uma vida melhor, não julgo que esteja à espera de encontrar as condições que têm sido mostradas na maior parte dos documentários que tenho visto (Panorama BBC, etc.). Ninguém se torna escravo de livre e espontânea vontade, mas se a única saída da miséria que têm é uma outra, dourada, é praticamente o mesmo, sendo que esta última tem implícita a aprovação de todos os que usufruem do sistema que o inclui (eu, por exemplo) – para além de merecer discussão quanto deveria ser o salário de um “Paquistanês” para ter maior qualidade de vida no Dubai do que tinha no Paquistão.
    Antes deste Eldorado existiram muitos outros (Brasil, EUA, França, Alemanha, Angola, etc.) aos quais muitos (quase um terço da população portuguesa, p.e.) recorreram para tentar uma vida melhor. Muitos conseguiram, através do trabalho, melhorar a sua condição económica, outros, apesar do trabalho, nem por isso e voltaram em piores condições do que foram. Não conheço balanços globais para pesar os prós e contras, mas conheço bastante gente que se saiu muito bem, muitos outros que se saíram muito mal, sem terem sido escravizados e um que, infelizmente, se saiu mal por ter sido escravizado (na Alemanha). Os efeitos da liberalização da economia e do mercado de trabalho não são todos positivos e muitas vezes não garantem o mínimo da dignidade humana (Declaração Universal dos Direitos do Homem, artº 22º a 25º, por exemplo), mas não me parece que valha a pena entrarmos por aqui porque a seguir vem a lenga-lenga do salário mínimo que deveria deixar de existir para as pessoas poderem ir ganhar experiência em troca de gratificações e géneros (como se pretende legalizar por cá à imagem do que já se faz na SONAE, p.e.), abaixo do que se possa considerar o mínimo adequado à sobrevivência. Abaixo disso prefiro que estejam desempregados a viver à custa dos meus impostos, porque não existe nenhum serviço que implique 40 horas semanais de trabalho que mereça menos que os miseráveis 426 euros que o Estado define.
    Se temperasse a sua raiva extremista (típico reflexo condicionado de Pavlov) perceberia que não tenho nada contra muitas das ideias que se discutem neste blogue, nem contra as oportunidades que o “Paquistanês” ou o Carlos Guimarães Pinto vão procurar para o Dubai.
    O que me incomoda é ver muitas ideias merecedoras de discussão tratadas como ideologia ou dogma, como se fosse tudo perfeito (O Joaquim do Portugal Contemporâneo dizia há tempos que não há pobres na América). Não sei onde viu demonstrado que foi este “sistema” que provocou todas essas melhorias na qualidade de vida dos que têm menos rendimentos. Eu, pela minha parte, por muitos documentários e relatórios de Think Tanks Nórdicos e Grandes Pensadores Liberais que veja, consigo concordar que a riqueza mundial tem aumentado exponencialmente, mas se formos ver a distribuição de rendimentos, não partilho das suas “evidências” finais.
    Talvez se ler o Mandarim do Eça (que é curtinho e está escrito em Português) consiga perceber o que eu encontro de errado no post do Carlos Guimarães Pinto.

    Comentário por Manel — Agosto 25, 2008 @ 20:32


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