O Insurgente

Julho 29, 2008

Exclusividade

Filed under: Comentário,Política,Portugal — LT @ 11:20

Esta notícia, caso se venha a concretizar, será mais um tiro ao lado. Isto porque, caso tenham que optar por um único patrão, fazendo fé que se paga melhor no privado, boa parte dos médicos tenderá a sair do estado, apesar de, como tenho ouvido, ser no SNS que se encontram alguns dos casos médicos mais interessantes e de se obter maior prestígio dentro da própria classe. Não sendo uma medida eficaz – porque não irá trazer mais clínicos ao SNS – é mais uma medida que parece bem, dentro do politica e socialmente correcto: para além dos médicos, quem irá opor-se a uma lei que impede que uma classe, já vista como favorecida, possa receber dinheiro no estado e no privado?

Dito isto, e apesar da minha base jurídica ser muito limitada, do que estudei da CRP, não me lembro de ler nada que impeça o estado de exigir a quem quiser para ele trabalhar, que o faça em regime de exclusividade. Mas se calhar (e aqui estou a arriscar) a base jurídca do sr. bastonário não é muito melhor que a minha…

11 Comentários »

  1. Haja Saúde

    Um dos melhores meios para se aferir do verdadeiro grau de desenvolvimento de um país é o estado da sua saúde. Ao analizarmos o caso português, chegamos à conclusão que temos elementos de um país do terceiro mundo: falta de condições em certas zonas do país, estado de sítio em algumas unidades de saúde e falta de médicos. Aqui não se irá falar do problema do encerramento das unidades de saúde ou das maternidades. Há demasiadas opiniões a esse respeito e a questão já foi suficientemente politizada. Falaremos, em vez disso, do principal elo para a cura de um doente: o médico.

    É triste ouvir a arrogância do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, a falar sobre a falta de profissionais em Portugal. Diz este senhor que “os médicos estudam durante seis anos e têm de obter um retorno ao seu investimento no final do curso” e ainda que “é impensável haverem médicos no desemprego”. É extraordinário que alguém fale assim num país civilizado sem ser chamado à atenção – sim, porque este discurso não é novo, já tem largos anos. O que eu mais queria é que a Ordem dos Economistas tivesse o poder para falar da mesma forma, mas isso não é possível. Por isso, como economista, só posso dizer uma coisa a este senhor: a concorrência é a melhor coisa do mundo, gera competitividade, aumenta a qualidade e diminui o preço. – O único problema é que é um obstáculo a grandes lucros e fortunas.

    Há grandes profissionais em Portugal, pessoas com grande capacidade de trabalho e com grande autoridade em diferentes matérias. Mas há também profissionais medíocres, que teimam em não se actualizar e a quem falta muito na simples sociabilidade humana. Mas o mais grave é a desresponsabiização dos erros: quando um economista, por exemplo, faz uma empresa falir, vai a tribunal e é eternamente condenado pelos seus erros. Quando um médico erra, a culpa é sempre de um ente superior ou de algo diferente, como se a medicina fosse algo de esotérico e não passível de discussão. No nosso país parece que um médico não é uma pessoa comum, um profissional como quaquer outro: é um super-homem com poderes sobrenaturais e com um escudo intocável. Estaremos ao nível do terceiro mundo enquanto o poder político não perceber que a medicina não pode ser um negócio com lucros gigantescos (nem para interesses privados, nem para os próprios médicos).

    É preciso mais médicos em Portugal: no interior, nas aldeias, nos hospitais (onde há profissionais a fazerem turnos de vinte e cinco horas). É preciso que o habitual génio dos portugueses para a inovação se centre nos tratamentos das doenças e na sua prevenção. É preciso que os Governos deixem de poupar na Saúde, que deixe de haver a disparidade entre o interior e o litoral. Haja saúde para sobrevivermos a este país.

    Comentário por Diogo — Julho 29, 2008 @ 11:23

  2. Eu acho que esta é uma medida do mais óbvio bom senso: pela mesma razão pela qual se acabou com os turbo-professores universitários, é essencial acabar com os turbo-médicos. Uma pessoa não pode servir ao mesmo tempo dois patrões que estão em concorrência um com o outro. Parece-me evidente!

    É claro que, ao exigir exclusividade, o Estado terá que passar a pagar mais, para compensar os médicos pelo trabalho acrescido que reslizarão. Salta à vista.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 29, 2008 @ 11:47

  3. “Dito isto, e apesar da minha base jurídica ser muito limitada, do que estudei da CRP, não me lembro de ler nada que impeça o estado de exigir a quem quiser para ele trabalhar, que o faça em regime de exclusividade.”

    Já a retroactividade da medida em relação aos contratos já existentes… ;)

    Comentário por João Luís Pinto — Julho 29, 2008 @ 11:48

  4. Há uma segunda possibilidade, a de se tratar de uma medida para sacudir do SNS os médicos que raramente lá põem os pés e que o sistema não consegue (não quer ou não está disposto a dar a entender que é incapaz) controlar as horas efectivamente dedicadas ao trabalho no SNS.

    Dar-se-á o caso de, mesmo estando o médico dentro das instalações do SNS, estar a trabalhar em casos que nada têm a ver com o SNS? Dar-se-á o caso de se ter percebido ser particularmente tortuoso verificar para quem, em qualquer momento (apesar de, por exemplo, se estar dentro de um hospital público), está o médico a trabalhar?

    No mundo privado, controla-se nem que seja à bruta. No mundo público, só passando por cima … se calhar da constituição.

    .

    Comentário por Range-o-Dente — Julho 29, 2008 @ 12:03

  5. Bom ponto João. :)

    Comentário por LT — Julho 29, 2008 @ 12:04

  6. Tal como os militares os médicos estudam todos por conta do erário público.Os primeiros são escravizados por anos e anos de obrigatoriadade de serviço, indemnizações,maus salários… cadê os outros?

    Comentário por Miles — Julho 29, 2008 @ 12:36

  7. Penso que os funcionários da DGCI já trabalham em regime de exclusividade…

    PS: resulte desta medida o que resultar, a promiscuidade irá concerteza permanecer; uns ficam no privado outros ficam no público mas porque o incentivo não é eliminado, existirá sempre forma de perpetuar situações como as listas de espera para beneficiar os médicos privados…

    Comentário por Ricardo Sebastião — Julho 29, 2008 @ 12:53

  8. Miles, está a tentar comparar militares e médicos? Realmente os militares são uns explorados pelo sistema. Basta ver a carga brutal de trabalho a que estão sujeitos. E é vê-los ai pelo País fora, a prestar um serviço público indispensável, que a todos beneficia. E os salários miseráveis que lhes são oferecidos? É que eles estudam e muito (até porque a grande maioria foi para as Forças Armadas para isso mesmo, para continuar os estudos, dado que eram todos alunos brilhantes). Além de que representam sempre condignamente a instituição (ainda este fim de semana vi uma “soldada” condignamente a por a metralhadora no chão para atar a bota). Que orgulho para o País termos gente deste calibre, a servir-nos tão generosamente.

    Comentário por rxc — Julho 29, 2008 @ 14:25

  9. Aproveitava-se o balanço e aplicava-se o mesmo aos políticos e ao cumulo de reformas, pensões subsídios e bilhetes-refeição.

    Bem-haja!

    Comentário por Augusto Emilio — Julho 29, 2008 @ 14:30

  10. Aproveitando a força motriz é aplicar a mesma linha aos politicos e o multi funcionalismo, sem esquecer todas as criaturas que acumulam funções, tachos, pensões, reformas e bilhetes refeição por esse país fora.

    O prisma dos anos de estudo é interessante, na medida em que assume que quem estuda deve ter emprego garantido e pago ao ano de escola. Nesse caso o estado devia empregar todos os licenciados, retirando daí o seu “investimento”, ao invés de desejavelmente deixar de sustentar a “juventude”.

    Bem-haja!

    Comentário por Augusto Emilio — Julho 29, 2008 @ 14:33

  11. Aproveitando a força motriz é aplicar a mesma linha aos politicos e o multi funcionalismo, sem esquecer todas as criaturas que acumulam funções, tachos, pensões, reformas e bilhetes refeição por esse país fora.

    O prisma dos anos de estudo é interessante, na medida em que assume que quem estuda deve ter emprego garantido e pago ao ano de escola. Nesse caso o estado devia empregar todos os licenciados, retirando daí o seu “investimento”, ao invés de desejávelmente deixar de sustentar a “juventude”.

    Bem-haja!

    Comentário por Augusto Emilio — Julho 29, 2008 @ 14:35


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