O Insurgente

Julho 24, 2008

A falência dos políticos da modernidade

Filed under: Comentário,Internacional,Política — João Luís Pinto @ 22:09

Há 45 anos, um presidente americano discursou – como resposta à construção recente do Muro de Berlim – junto à periférica antiga câmara municipal de um dos mais ou menos anónimos municípios (Schöneberg) que se fundiram na Berlim que conhecemos.

Tempos de grande convulsão política internacional, que entrava na casa de muitos cidadão europeus e elevavam líderes políticos à condição de condutores de Homens.

Hoje, um candidato à presidência dos mesmos Estados Unidos (afinal um mero cidadão), senador numa campanha que ainda está longe de começar em pleno, discursa junto à Coluna da Vitória, a umas meras centenas de metros do Reichstag, depois de – ao que ouvi – a chanceler Merkl o ter dissuadido de discursar na Porta de Brandemburgo (colocando no devido lugar e incutindo alguma noção das coisas e da realidade ao referido senhor).

Os benefícios de um discurso plantado dos lugares comuns (a que já nos vamos habituando), feito a uma multidão de alemães que nem sequer nele podem votar, no seguimento de uma tournée que contribui mais um pouco para a progressiva transformação dos políticos em estrelas de rock, ou naquelas vedetas que todos querem ver ao vivo mas em que ninguém está minimamente interessando que abram a boca, são algo que me escapa.

Procura-se: verdadeiros políticos.

10 Comentários »

  1. E com urgência. Excelente texto João.

    Comentário por Tiago Moreira Ramalho — Julho 24, 2008 @ 22:29

  2. Que eu saiba há liberdade de manifestação. Tanto na Siegesaeule como no Brandenburger Tor. Não havendo impedimentos legítimos, qualquer indivíduo, seja ele senador ou não seja, seja ele americano, alemão ou afegão, pode manifestar-se onde quer que seja.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 25, 2008 @ 09:49

  3. Caro Luís Lavoura,

    A artigo não versa sobre se o acto foi ou não foi legal, se é legítimo ou não. É antes uma análise que se pretendia política do mesmo.

    Agora, mesmo não conhecendo a legislação relativa às manifestações públicas na Alemanha, lhe sublinho a minha dúvida: se eu, cidadão anónimo, quisesse fazer uma manifestação no mesmo local (lembre-se, uma artéria bem concorrida de Berlim), a um dia de semana e interrompendo o trânsito (e promovendo o ajuntamento de alguns milhares de pessoas), duvido que tal me fosse autorizado.

    Comentário por João Luís Pinto — Julho 25, 2008 @ 10:24

  4. Se você, cidadão anónimo, quisesse manifestar-se na Siegesaeule, certamente que lhe permitiriam, pois você não atrairia mais de 100 pessoas ao local, e portanto não peturbaria nada.

    Mas Obama não é um cidadão anónimo. É um gajo que atrai uma manifestação de 200.000 pessoas. Logo, têm que marcar para a manifestação um local adequado.

    Já agora: aquela zona de Berlim não tem muito trânsito, que eu me recorde. Embora se trate de uma avenida gigantesca (mas não tão grande como as de Moscovo!), o trânsito é deveras reduzido. Em Berlim anda-se mais de metro ou de bicicleta do que de carro. E a zona fica mesmo ao pé do Jardim Zoológico, que em Berlim está bem no centro da cidade.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 25, 2008 @ 10:35

  5. “Se você, cidadão anónimo, quisesse manifestar-se na Siegesaeule, certamente que lhe permitiriam, pois você não atrairia mais de 100 pessoas ao local, e portanto não peturbaria nada.”

    Julgo que bem menos que essas 100 pessoas inviabilizariam o trânsito na rotunda.

    “Já agora: aquela zona de Berlim não tem muito trânsito, que eu me recorde.”

    Não é nada essa a minha memória. E parece que sou corroborado pela Wikipedia:

    “Surrounded by a heavily trafficked street circle, the column is accessible to pedestrians through four tunnels, built in 1941 to plans by Albert Speer.”

    Comentário por João Luís Pinto — Julho 25, 2008 @ 10:41

  6. Estrelas de rock? Antes fosse, Obama parece querer elevar-se ao nível de um Messias. Isto é mesmo o culto de personalidade.

    O mais curioso é que nos “shows” que faz nos EUA, é preciso comprar bilhetes e podem nem sempre admitir todos(isto é se és um crítico do Obama, ficas lá fora a apanhar frio). Mas neste “show” em Berlim, qualquer um pode ver sem ser necessário fazer controlo.

    Comentário por CC — Julho 25, 2008 @ 12:35

  7. “nos “shows” que faz nos EUA, é preciso comprar bilhetes”

    Bem, eu penso que vale a pena pagar para ver. É que, se não prestarmos atenção à vacuidade prática do seu discurso, é um facto indesmentível que ele discursa de forma empolgante, superior. Além de que tem uma figura impecável, magro e elegante, o que, para um homem da idade dele, é de invejar.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 25, 2008 @ 12:43

  8. “Além de que tem uma figura impecável, magro e elegante, o que, para um homem da idade dele, é de invejar.”

    Nesse caso, será melhor aplicar o dinheiro do bilhete para se inscrever num ginásio.

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 25, 2008 @ 13:39

  9. eu quero ver o que sucederá quando os governos europeus nos começarem a apresentar a nova (acrescimento da) factura da defesa se ele for eleito o resto é mero espectáculo.

    Comentário por Carlos Afonso — Julho 25, 2008 @ 14:48

  10. [...] A falência dos políticos da modernidade, João Luís Pinto, O Insurgente [...]

    Pingback por Dos outros… « Eleições Americanas de 2008 — Julho 25, 2008 @ 15:06


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