O Insurgente

Julho 17, 2008

Resposta a uma pergunta, que afinal são três…

Filed under: Diversos — Rodrigo Adão da Fonseca @ 15:02

O João Galamba faz-me uma pergunta (que afinal são três), algures abaixo, numa caixa de comentários, com o seguinte conteúdo:

Uma pergunta ao Raf:

Em que medida é que a globalização e a sociedade da informação refutaram o atomismo? Não achas o termo colectivismo (que tu atribuis a torto e a direito a quase tudo) só faz sentido em oposição ao atomismo? Ou seja, que usando um como acusação pressupões o outro como alternativa?

Todas as dicotomias que invocas na defesa do teu liberalismo pressupõem o tal atomismo que tu dizes ter sido ultrapassado.

A dada fase, dei nota que, na minha óptica, o atomismo que se apontava ao liberalismo, com maior ênfase durante o século XX – e que o João Galamba transporta no seu finger-pointing, para o século XXI – estaria ultrapassado, em grande medida porque as circunstâncias mudaram, e o próprio pensamento evoluiu. Não vou discutir se, à época, as críticas de “atomismo” – que acarretavam, sobretudo, a ideia de um menor sentido de humanidade e do “próximo”, e equiparavam as doutrinas randianas (e a própria filosofia liberal) ao egoísmo, a um exacerbar do “Eu” – fazem ou não sentido. A esta questão já o Migas respondeu. O contexto do século XX, onde, v.g, Rand, Hayek, e outros, produziram a sua obra, era o da Guerra-Fria, e de um certo entusiasmo intelectual e científico por doutrinas colectivistas, derivadas do marxismo, ou de outras experiências do tipo totalitário, como o nazismo ou o maoísmo. Nessa época, a discussão acabava necessariamente por se centrar no papel que o indivíduo deveria ter na sociedade, se deveria afirmar a sua esfera de direitos ou dilui-la, colocando-se ao serviço de uma ideia de bem-comum. A própria doutrina social da Igreja, em especial nos anos 60, e as sociais-democracias, acabaram por ser sínteses destas tensões.

Embora hoje estes temas mantenham alguma actualidade, o próprio individualismo evoluiu, porque o mundo está diferente. Para além de saber qual o papel que o indivíduo deve ter na sociedade, e como se afirma a sua esfera de direitos – se por acção directa, se por intermédio de instituições públicas ou da sociedade civil que assegurem as mediações – hoje, em plena sociedade da informação e num mundo globalizado, discute-se como se deve agir neste ambiente de risco e incerteza. A preocupação com o indivíduo não deve apenas concentrar-se, pois, sobre a protecção da sua esfera de direitos (e que era, no fundo, o que conduzia às críticas de “atomismo”), mas no seu papel na relação com os outros e na sua interacção com um ambiente que, por ser cada vez mais aberto, incerto, imprevisível, impõe decisões com risco.

Diria que a dicotomia “Atomismo Vs Colectivismo” está ultrapassada, sendo hoje mais pertinente discutir qual o papel do indivíduo e qual o papel das mediações (e, dentro destas, qual a escala da sua acção).

PS: Não percebo onde foste buscar a ideia que eu atribuo “o termo colectivismo ((…) a torto e a direito a quase tudo)”. Estive a reler o texto que serve de base à tua crítica, e o termo em questão – “colectivismo” – não aparece em lado nenhum. Apenas uso uma expressão próxima - ”entes colectivos” - uma única vez, e precisamente para pôr em causa aquilo que é a tendência para a imposição de mediações.

11 Comentários »

  1. “Estive a reler o texto que serve de base à tua crítica, e o termo em questão – “colectivismo” – não aparece em lado nenhum.”

    Mas pensaste em “colectivismo”. E isso basta. Não negue à partida uma ciência que desconhece…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 15:18

  2. Enganas-te, André. Quando escrevi o texto, estava a pensar em gajas, talvez por isso a ideia de vontade tenha aparecido ligeiramente exacerbada…

    Comentário por raf1973 — Julho 17, 2008 @ 15:21

  3. “Quando escrevi o texto, estava a pensar em gajas”

    Cuidado com @s referênci@s sexist@s.

    São sempre de evitar, especialmente em discussões com a extrem@-esquerd@ cavi@r…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 15:27

  4. André,
    Posso sempre pensar em gajas e caviar, certo? Aliás, nem vejo qual seja o mal, eu só penso em gajas no bom sentido, é claro.

    Comentário por raf1973 — Julho 17, 2008 @ 15:33

  5. “Posso sempre pensar em gajas e caviar, certo?”

    Sim, desde que penses em sentido inclusivo e de forma a tentar compreender genuinamente @ Outr@.

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 15:39

  6. “eu só penso em gajas no bom sentido, é claro”

    Nem eu me atreveria a pensar outra coisa, como é evidente…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 15:39

  7. Atomismo é a teoria segundo a qual a realidade é composta por partes indivisíveis. O atomismo não diz nada sobre a forma como as partes se relacionam, mas apenas que existem partes elementares que constituem tudo o resto. O colectivismo é uma forma de organização em que as partes estão sujeitas ao todo. O atomismo não diz nada sobre a relação entre as parte e o colectivismo não diz nada sobre a divisibilidade das partes. Não faz por isso sentido usar “atomismo” como o oposto de “colectivismo”.

    Comentário por JoaoMiranda — Julho 17, 2008 @ 16:02

  8. André,

    “Sim, desde que penses em sentido inclusivo e de forma a tentar compreender genuinamente @ Outr@.”

    Mas se eu sou pelos vistos sou um randiano, que se move por uma ontologia atomista, não sou obrigado a ter esse tipo de preocupações, a menos que essa “genuina compreensão” me traga algum benefício adicional, certo?

    Comentário por RAF — Julho 17, 2008 @ 16:09

  9. “Quando escrevi o texto, estava a pensar em gajas”

    An old cowboy sat down at the Starbucks and ordered a cup of coffee. As he sat sipping his coffee, a young woman sat down next to him.

    She turned to the cowboy and asked, ‘Are you a real cowboy?’

    He replied, ‘Well, I’ve spent my whole life breaking colts, working cows, going to rodeos, fixing fences, pulling calves, bailing hay, doctoring calves, cleaning my barn, fixing flats, working on tractors, and feeding my dogs, so I guess I am a cowboy.’

    She said, ‘I’m a lesbian. I spend my whole day thinking about women. As soon as I get up in the morning, I think about women. When I shower, I think about women. When I watch TV, I think about women. I even think about women when I eat. It seems that everything makes me think of women.’

    The two sat sipping in silence.

    A little while later, a man sat down on the other side of the old cowboy and asked, ‘Are you a real cowboy?’

    He replied, ‘I always thought I was, but I just found out that I’m a lesbian.’

    Comentário por Fernando S — Julho 17, 2008 @ 16:22

  10. “Mas se eu sou pelos vistos sou um randiano, que se move por uma ontologia atomista,”

    aren’t we all my dear?

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 18, 2008 @ 01:20

  11. “He replied, ‘I always thought I was, but I just found out that I’m a lesbian.’”

    :) :) :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 18, 2008 @ 01:20


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