O Insurgente

Julho 17, 2008

Ayn Rand e outras heresias

Arquivar em: Blogosfera, Comentário, Teoria — Miguel Botelho Moniz @ 14:22

Caro João,

Tens piada, pá. Gosto especialmente do straw-man de sugerires subrepticiamente que eu sou uma espécie de acrítico seguidor de Rand; um “randróide”, como dizem os mais raivosos anti-randianos; ou que tenho qualquer pretensão a ser uma autoridade na sua interpretação. Curiosamente, se repares bem, eu nem interpretei nada. Limitei-me a citar textualmente. O paralelo com o Pacheco Pereira também é engraçado, mas completamente ao lado. Mas como não estou à espera que percas o teu ocupado tempo a ler o que escrevi no passado, também não precisamos de escarafunchar este ponto. No entanto, podias ao menos ter lido o último parágrafo do meu post e seguido o link para o meu outro post sobre o altruismo. Aí já tínhamos qualquer coisa para debater, e não havia necessidade de mais um name dropping e aquele infindável copy-paste do Zizek.

Ayn Rand é alguém que claramente desperta paixões. Tem seguidores cegos, que deixando cair o contexto do que ela escreveu, quase a lêem como se fosse uma escritura religiosa; e tem detractores que perdem todo o discernimento e racionalidade ao criticarem-na. Como isto do name dropping não tem dono, aproveito o que escreveu George H. Smith:

«Accounts of Objectivism written by Rand’s admirers are frequently eulogistic and uncritical, whereas accounts written by her antagonists are often hostile and what is worse, embarrassingly inaccurate.»

A sugestão de um paralelo ou semelhança entre Rand e o fascismo é um disparate fenomenal. Ao apresentares o argumento recauchutado do Zizek, cais nesse disparate. Objectivamente, a culpa nem é tua. O erro é do Zizek; se lesses o que ela escreveu com atenção verias isso. É o risco de emitir opiniões em segunda mão.

É verdade que Rand teve na sua juventude algum deslumbramento com Nietzsche. Mas isso passou-lhe rapidamente. Por altura da publicação dos seus livros de ficção mais conhecidos já tinha desenvolvido uma visão da realidade completamente incompatível com ele. Para não dizer nada da não-ficção posterior a 1960. É possível que alguma da exaltação nietzscheana do potencial humano tenha influenciado a hero worship presente em The Fountainhead ou Atlas Shrugged. Mas daí a afirmar que Rand tem algum fascínio com a “vontade” e “poder”, ao estilo fascista – e nietzscheano – de imposição pela força aos mais fracos, vai um “salto quântico” na lógica, para não dizer atropelo.

8 Comentários »

  1. “Aí já tínhamos qualquer coisa para debater, e não havia necessidade de mais um name dropping e aquele infindável copy-paste do Zizek.”

    Mais do que infindável, é de uma confrangedora banalidade.

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 14:35

  2. Aliás, não fica bem a um randiano criticar o que quer que seja por ser infindável… ;)

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 14:36

  3. “É verdade que Rand teve na sua juventude algum deslumbramento com Nietzsche. Mas isso passou-lhe rapidamente.”

    Salvo erro, estilisticamente continuou a apreciar Nietzsche, embora o considerasse excessivamente sentimentalista. Mas posso estar a confundir leituras.

    (podemos sempre perguntar ao Peikoff qual é a interpretação oficial na próxima reunião secreta… )

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 14:38

  4. “Mas daí a afirmar que Rand tem algum fascínio com a “vontade” e “poder”, ao estilo fascista – e nietzscheano – de imposição pela força aos mais fracos, vai um “salto quântico” na lógica, para não dizer atropelo.”

    Quanto a Rand de acordo, mas as colagens de Nietzsche ao fascismo e ao nacional-socialismo parecem-me igualmente pouco produtivas.

    Curiosamente, Heidegger – que colaborou activamente com o regime de Hitler e foi um entusiástico nazi – acaba por ser menos vezes alvo desse tipo de “crítica”…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 14:43

  5. [...] Arquivado como: Comentário, Política — André Azevedo Alves @ 2:52 pm As banalidades de Zizek são sempre dispensáveis, mas só tenho boas coisas a dizer do [...]

    Pingback por Ayn Rand e outras heresias (2) « O Insurgente — Julho 17, 2008 @ 14:53

  6. «Aliás, não fica bem a um randiano criticar o que quer que seja por ser infindável…»

    Pois. Lá isso é verdade :D

    «(podemos sempre perguntar ao Peikoff qual é a interpretação oficial na próxima reunião secreta… )»

    Resistance is futile. You will be assimilated.

    Comentário por Migas — Julho 17, 2008 @ 14:54

  7. “Resistance is futile. You will be assimilated.”

    I’m afraid there’s no hope for me on that regard.

    Mas lendo os Zizeks que andam por aí, é difícil não ter pelo menos alguma simpatia pelo Camarada Peikoff e os seus estranhos rituais…

    Comentário por André Azevedo Alves — Julho 17, 2008 @ 14:59

  8. [...] Mas é seguramente um domínio com barreiras à entrada, sobretudo de quem tiver apenas ideias pré-concebidas a partir de uma cartilha doutrinária de pseudo-Política. O problema é que muitos dos treinadores de bancada não têm mais do que isso. E não reconhecem [...]

    Pingback por Os treinadores de bancada — Abril 18, 2009 @ 23:05


Feed RSS para comentários a este post. TrackBack URI

Publicar um comentário

Blog em WordPress.com.