Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico
Quando Mitterrand percebeu que a política de abertura de Gorbatchev acabaria por fortalecer a Alemanha, deu uma entrevista à televisão soviética onde declarou que “a França e a Rússia haviam lutado lado a lado na maioria das grandes guerras”. Profundo conhecedor da história europeia, o então presidente francês estava perfeitamente consciente da falsidade da declaração, mas pretendia recordar aos alemães que a França não tencionava abdicar do seu ascendente sobre o parceiro europeu, mesmo que isso implicasse reforçar o eixo Paris-Moscovo.
Poucos dias antes do lançamento da União para o Mediterrâneo, em declarações ao jornal Le Figaro, o presidente sírio Bashar al-Assad caracterizou a política externa de Sarkozy como “uma ruptura com o passado”. Sem o lastro histórico e cultural de Mitterrand, Assad provavelmente acredita na veracidade das suas declarações. Não é o único a cometer esse erro de apreciação: diversos comentadores vêem na iniciativa e no regresso da França à NATO o advento do pós-gaullismo. Porém, com a excepção de alguns nostálgicos irrelevantes, há muito que existia um amplo consenso em França sobre os inconvenientes da auto-exclusão da NATO. Quanto à União para o Mediterrâneo, ela é consistente com os princípios fundamentais da política externa gaullista e reedita uma obsessão política antiga. No seu processo de criação, o novo quadro de cooperação euro-mediterrânico mostra também que Mitterrand não estava enganado: 60 anos depois de ter perdido a guerra, a Alemanha reunificou-se e venceu a paz.