Os caros ladrões de bicicletas insurgem-se (I, II, III) contra os neoliberais, que segundo estes construíram o sistema vigente de suposta desregulação do mercado financeiro e dos sistemas monetários internacionais que culminou na presente situação difícil destes. Entretanto, vão querendo vender o bolo e comê-lo simultaneamente. Destaco:
Até Ben Bernanke, que começou o seu mandato a elogiar o dinamismo do mercado sem fim em discursos no Cato Institute, já fala em reforçar a regulação para diminuir a miopia face ao desastre que a «coerção da concorrência», em agentes dopadas a incentivos pecuniários, inevitavelmente gera.
Aliás, não é por acaso que os bancos centrais desistiram de seguir a evolução dos agregados monetários e muito menos de os controlar. O monetarismo, em sentido estrito, já foi enviado há algum tempo para um sítio onde está bem: o caixote do lixo das ideias testadas e falhadas.
O caro João Rodrigues tem que se decidir: é preciso “reforçar a regulação” (que se depreende das suas palavras é inexistente ou reduzida), mas afinal o “monetarismo, em sentido estrito, já foi enviado há algum tempo para um sítio onde está bem: o caixote do lixo das ideias testadas e falhadas”?
Além disso, fica-me algumas dúvidas: o Banco de Portugal existe desde 1846; o padrão-ouro, no nosso país (como medida autónoma) acabou em 1891; o Sistema de Bretton Woods acabou em 1971, depois de ter vigorado desde 1944; a FED existe desde 1913; o Banco Central Europeu existe desde 1998; nunca existiu nenhum sistema bancário de plenas reservas ou com rácio de solvabilidade unitário. Outros variados bancos centrais são centenários, e vivemos há anos com rácios de solvabilidade (quando existem) impostos pelos reguladores inferiores a 10%. Os bancos centrais colocam a rotativa a trabalhar quando bem entendem, no exercício das suas funções regulatórias e dos poderes (para além do mais exclusivos) que lhes são conferidos politicamente.
Pergunto-me, portanto, quando é que existiu afinal esse suposto ordenamento monetário e financeiro neoliberal e isento de regulação de que se queixa o João Rodrigues. Juro que gostava de saber.
Leituras adicionais: Gente gira, Socialismo americano.
Admito que possa estar a ser injusto mas, pela amostra, os “ladrões” esquerdistas aparentam perceber bastante mais de propaganda anti-capitalista do que de economia monetária…
Comentário por André Azevedo Alves — Julho 16, 2008 @ 01:28
Essa malta não faz a miníma ideia do que está a falar. Hoje em ideia, qualquer pessoa semi-alfabetizada, como esse João Rodrigues, se sente habilitada a mandar uns bitaites sobre economia ou finanças.
Comentário por Tiago — Julho 16, 2008 @ 11:51
“nenhum sistema bancário de plenas reservas ou com rácio de solvabilidade unitário”
Existiu aqui ou ali apesar dos próprios bancos com conveniência política, passarem o tempo a subverterem a obrigação legal de 100% que estava subentendida no contrato civil (tipo “isto vale uma moeda de ouro”, e não “isto pode eventualmente valer uma moeda de ouro porque tenho menos moedas do que recibos”).
As crises bancárias com corridas aos depositos limitavam esta prática.
Nos anos que antecederam a WWI o comércio internacional atingiu niveis que só foi recuperar em termos relativos, nos anos 80.
Isto porque o ouro era uma verdadeira moeda única internacional.
E nem foi preciso nenhum economista ou politico internacionalista pensar nela.
Comentário por CN — Julho 16, 2008 @ 13:19