Comentando este post do RAF, o João Galamba afirma às tantas (negritos meus):
«Aliás, arriscar-me-ia a dizer que o que o RAF defende, levado até às últimas consequências, é uma realidade social que tende para a desumanidade. Algo parecido com o Triunfo da Vontade, mas na sua versão liberal atomizada. A Ayn Rand adoraria. Mas para ela a compaixão e a dependência são uma espécie de doença…»
Nas caixas de comentários dos referidos posts, o RAF identifica bem o âmbito do seu texto, mostrando que as conclusões do João são algo abusivas, no sentido em que esticam ideias para além do seu âmbito. Mas não é isso que me interessa particularmente. Por “deformação intelectual” não posso deixar passar em branco a parte a negrito. O João tem muito o hábito de name dropping no que escreve: Refere este ou aquele autor, atira com uma frase estereotipada para descrever as ideias do mesmo, e já está. Neste caso concreto, ele mostra desconhecimento. Até compreensível, na medida em que é muito comum os “adversários” de Rand usarem essa caricatura. Uma leitura atenta dos seus textos, contudo, mostra o erro da “acusação”. Na entrevista que deu à Playboy, em 1964, está um exemplo que vai directamente à crítica do João:
«PLAYBOY: What is the place of compassion in your philosophical system?
RAND: I regard compassion as proper only toward those who are innocent victims, but not toward those who are morally guilty. If one feels compassion for the victims of a concentration camp, one cannot feel it for the torturers. If one does feel compassion for the torturers, it is an act of moral treason toward the victims.
PLAYBOY: Would it be against the principles of Objectivism for anyone to sacrifice himself by stepping in front of a bullet to protect another person?
RAND: No. It depends on the circumstances. I would step in the way of a bullet if it were aimed at my husband. It is not self-sacrifice to die protecting that which you value: If the value is great enough, you do not care to exist without it. This applies to any alleged sacrifice for those one loves.»
No muito vilipendiado livro The Virtue of Selfishness, cujo título causa calafrios aos “humanitários”, existem múltiplos outros exemplos da sua visão sobre a benevolência e como esta difere de altruismo. Já escrevi sobre o assunto antes, aqui.
Grande Migas,
Post pertinente, mas ao estilo do Padre António Vieira: é que o people não percebe a diferença entre compaixão e altruísmo, essa é uma causa perdida:)
Eu acho além disso que o João Galamba não percebe bem o que anda a ser discutido, está fora do contexto, estacionou nos anos 40; facto agravado por não fazer um grande esforço para perceber o que estão a querer dizer os interlocutores: importa é encontrar uma frase para sustentar o name dropping, e as crítica que constam das sebentas dos tempos da Guerra Fria. Por exemplo, afirma que eu defendo “um triunfo da vontade, numa versão liberal atomizada”, ou então, ainda mais básica, a crítica de algibeira que faz ao objectivismo (e, em certa medida, aos liberalismos mais individualistas), da promoção de uma “ontologia atomistica”, quando aquilo que se escreve, hoje, já há muito ultrapassou que está noutra onda (sobretudo com a sociedade da informação e com a globalização).
Ab
RAF
Comentário por RAF — Julho 17, 2008 @ 00:32
Uma pergunta ao Raf:
Em que medida é que a globalização e a sociedade da informação refutaram o atomismo? Não achas o termo colectivismo (que tu atribuis a torto e a direito a quase tudo) só faz sentido em oposição ao atomismo? Ou seja, que usando um como acusação pressupões o outro como alternativa?
Todas as dicotomias que invocas na defesa do teu liberalismo pressupõem o tal atomismo que tu dizes ter sido ultrapassado. Há liberalismos holistas que escapam a essas dicotomias (não são em atomistas nem colectivistas), mas não me parece que esses sejam compatíveis com o que tu escreves.
Comentário por joao galamba — Julho 17, 2008 @ 01:12
sobre o que o miguel escreveu:
não achas que existem outras citações de Rand que contrariam o que ela diz na entrevista que referes?
Rejeitas que o pensamento de Rand é basicamente uma exaltação da actividade que resulta da vontade? A ideia de que o mundo se divide entre movers e outros revela uma dicotomia, cujo fascinio por um certo ideal tem semelhanças—repito: semelhanças— com o fascismo.
Comentário por joao galamba — Julho 17, 2008 @ 01:18
[...] No meu último post disse que Rand considerava a compaixão e a dependência como doenças, e o Miguel Moniz rapidamente ripostou com “Uma leitura atenta dos seus textos, contudo, mostra o e…. Para salvar a sua donzela, o Miguel refere um excerto de uma entrevista à Playboy. Respondendo à [...]
Pingback por cinco dias » Sobre Ayn Rand — Julho 17, 2008 @ 03:19
Fui fazer a habitual pausa laboral de dez minutos para despertar com a típica “bica”, aproveitando para fumar o já criminoso cigarro cujo providente guarda-sol permite, pois alberga na esplanada a segurança do emprego dos olhares mais reprovadores da entidade patronal, quando notei uma encenação que serve, a meu ver, de analogia para o princípio da subsidiariedade socialista.
Caída uma côdea de pão no chão logo se segue um pombo proveitoso, a quem já ouvi de um amigo meu norte-americano chamar de “rato do ar”, o qual, talvez por dureza daquela, se dedicou com enorme esforço ao repasto, debicando-a furiosamente. O seu árduo trabalho era com certeza recompensado com eventuais migalhas do enorme naco e seguido de perto por outro pombo, do qual não me apercebi de imediato as intenções. O segundo espertalhão estava apenas à espera de comer os bocados mais pequenos e macios, que não ofereciam resistência, que pela rapidez do aproveitador não podiam ser deleitadas pelo trabalhador.
Bem-haja!
Comentário por Augusto Emilio — Julho 17, 2008 @ 10:40
[...] a ser uma autoridade na sua interpretação. Curiosamente, se repares bem, eu nem interpretei nada. Limitei-me a citar textualmente. O paralelo com o Pacheco Pereira também é engraçado, mas completamente ao lado. Mas como não [...]
Pingback por Ayn Rand e outras heresias « O Insurgente — Julho 17, 2008 @ 14:22
[...] pergunta, que afinal são três… Arquivado como: Diversos — raf1973 @ 3:02 pm O João Galamba faz-me uma pergunta (que afinal são três), algures abaixo, numa caixa de comentár…, com o seguinte conteúdo: Uma pergunta ao [...]
Pingback por Resposta a uma pergunta, que afinal são três… « O Insurgente — Julho 17, 2008 @ 15:02
“… liberalismos holistas que … não são nem atomistas nem colectivistas…”
Diferentes versões de “liberalismo” … sem duvida !
Mas “liberalismos holistas” ?!!…
O que é comum a todas as correntes dentro da “tradição liberal” é precisamente uma metodologia “individualista”, por definição radicalmente oposta à “holista” !
Uma visão “holista” considera que a análise deve partir da sociedade, da identificaçao da sua própria estrutura e lógica de funcionamento. O comportamento dos indivíduos é compreensível apenas em função da posição que cada um ocupa nessa estrutura. O exemplo paradigmático é o do marxismo com a ideia de que a sociedade é fundamentalmente uma relação entre classes sociais. Por isso, a razão de ser de cada indivíduo é principalmente determinada pela sua “posição de classe”.
O “individualismo metodológico” parte dos indivíduos e chega aos indivíduos. Os indivíduos têm motivações e racionalidades próprias e agem em função delas. A sociedade é apenas o resultado dos comportamentos de todos os individuos em relação uns com os outros. Por isso, cada individuo existe enquanto tal, faz escolhas e toma decisões próprias.
Esta oposição é meramente conceptual. Diz respeito à metodologia de análise e não ao objecto da análise. Que é “a sociedade”. Que, objectivamente, é a mesma para todos os analistas. No plano empírico, nem os “holistas” excluem em absoluto a realidade da experiência e da responsabilidade indivíduais, nem os “individualistas” negam que cada indivíduo exista no seio de uma sociedade (mesmo quando é ermita !) e que a sua personalidade e os seus comportamentos sejam formados e condicionados por um contexto, dito “social”, que lhe é externo e até anterior.
A oposição entre valores e sentimentos individuais ditos “egoistas” e “altruistas” não tem a vêr com a oposição metodológica entre “individualistas” e “holistas”.
Os liberais, de todas as versões, incluindo as mais libertárias, não pretendem nem defendem que os indivíduos sejam necessáriamente “egoistas”. Nem “altruistas”, de resto. Pura e simplesmente, não se pronunciam sobre este aspecto de valorizaçao moral dos comportamentos individuais. Não discutem a maior ou menor moralidade dos fins de cada indivíduo, sejam eles quais forem. Não significa isto que enquanto pessoas concretas os liberais não tenham valores e convicções morais deste tipo. Mas enquanto analistas, no plano da metodologia, partem apenas da ideia de que cada indivíduo tem fins que lhe são próprios e procura realiza-los usando do modo mais eficiente os recursos à sua disposição. Estes fins podem ser mais ou menos “egoistas” ou mais ou menos “altruistas”.
Nestes termos, o modelo de organização social que os liberais defendem não é, como dizem muitos dos seus críticos, aquele que favorece os comportamentos “egoistas” dos indivíduos. É antes um modelo que permite que os indivíduos procurem realizar os seus fins, sejam eles mais ou menos “egoistas” ou mais ou menos “altruistas”, fazendo uso da maior liberdade possível na utilização dos recursos que possuem e a que têm acesso. No limite das hipóteses até se poderia aplicar a sociedades onde os indivíduos seriam ou todos “altruistas” ou todos “egoistas”. Mesmo que todos os indivíduos fossem “egoistas”, o modelo liberal faria com que o resultado das acções de todos fosse o mais benéfico para a sociedade. Esta foi a tese apresentada por alguns pensadores liberais, como Bernard de Mandeville no século XVIII (“A Fábula das Abelhas”), e que foi erradamente interpretada por muitos como sendo uma defesa moral de uma sociedade de “egoistas”. São hipóteses limite porque a natureza humana é o que é. Na realidade, os valores e sentimentos ditos “egoistas” e “altruistas” repartem-se entre os indivíduos e, no fim de contas, dentro de cada indivíduo. O modelo liberal é realista, tem em conta o que é a natureza humana, e sobretudo não descarta o que são as suas insuficiências e imperfeições.
Comentário por Fernando S — Julho 17, 2008 @ 15:14