A imprensa económica em Portugal junta-se ao ramalhete dos que tentam explicar a inflação por tudo menos por apontando o dedo a quem tem de facto culpa: o BCE e todos os que o pressionam para baixar taxas de juro (que o BCE, felizmente, não tem feito) para emitir moeda ou facilitar o crédito.
Acreditar que os camionistas ou os pescadores têm culpa das subida generalizada de preços, é o mesmo que acreditar que um lojista hipotético, com uma clientela fixa de rendimento fixo, pudesse aumentar o lucro a subir os preços da fruta.
Tal como com os sectores afectados pelas greves (ou pelo petróleo, outro grande culpado da inflação) há dois cenários possíveis: ou os clientes continuam a comprar a mesma fruta e por isso ficam com menos rendimentos para comprar outros produtos, ou baixam o consumo de fruta ajustando as suas necessidades ao novo preço. Em qualquer dos casos nunca cai dinheiro do céu para que as pessoas possam pagar preços mais altos num grupo de bens, e manter o consumo nos restantes. Ergo, redução da oferta num sector da economia nunca terá como efeito um aumento de preços generalizado, mas sim um ajuste de consumos, que fará preços descer noutro sector, ou baixar o consumo no sector afectado: inflação 0%.
O facto de nenhum economista consultado referir isto demonstra que o ensino da Economia em Portugal é um falhanço, pelo menos no que diz respeito a existência de variedade de pensamento. Viva o pensamento único, portanto!
Adenda: Leitura complementar: On inflation
“para emitir moeda ou facilitar o crédito.”
Facilitar o crédito emitindo moeda…
Michael, os economistas não conseguem perceber como pode uma economia funcionar com uma quantidade de moeda fixa (que faria descer os preços).
O seu raciocinio é assim:
- se um preço de um dado bem/serviço descer isso é bom
- se muitos preços descerem é mau
É a confusão entre “preços descerem” por causa de crescimento económico e “preços descerem” por contração da massa monetária (sempre mau..coisa impossivel em padrão ouro com reservas de 100%… mas bem possivel com falências de bancos por causa de ultra-reservas-parciais no actual sistema).
por outro, ninguém aponta a completa anormalidade de termos as duas maiores moedas com:
infação EUA 4%, taxa FED 2%
inflação UE 4%, taxa BCE 4,25% (apenas menos mau porque a inflação está em subida, nao estável)
Comentário por CN — Julho 15, 2008 @ 13:37
Michael Seufert,
Não é assim tão simples. Pode haver um aumento generalizado de preços (não sustentével) sem aumento da massa monetária. Basta haver desvio da poupança.
Comentário por Ricardo G. Francisco — Julho 15, 2008 @ 13:45
Curiosamente não distinguem subidas de preço por causa de escassezes de comodidades e subidas de preços por causa da inflação…
Comentário por Michael Seufert — Julho 15, 2008 @ 13:51
“Basta haver desvio da poupança.”
A poupança descer estruturalmente em favor do consumo é possivel, mas isso faz aumentar as taxas de juro (livremente determinadas).
Mas fazer descer a poupança, com aumento de consumo e aumento do investimento é originado pelo aumento da massa monetaria, motivo pelo qual existem booms nao sustentados seguidos de recessão (e ameaças de contração monetária por falências financeiras).
Comentário por CN — Julho 15, 2008 @ 15:24
Ricardo, explique melhor, p.f., que não percebo ao que se está a referir.
Comentário por Michael Seufert — Julho 15, 2008 @ 15:25
“Acreditar que os camionistas ou os pescadores têm culpa das subida generalizada de preços”
é perfeitamente possível – os preços sobem quando o dinheiro em circulação sobe mais que a produção total (assumindo uma velocidade de circulação de moeda constante).
As greves dos camionistas e dos pescadores reduziram a produção disponivel, logo o dinheiro em circulação aumentou em relação à produção (alem disso, a velocidade de circulação de moeda também deve ter aumentado), já que muitas pessoas correram às lojas e às bombas de gasolina com medo que o produto acabasse)
Comentário por Miguel Madeira — Julho 15, 2008 @ 15:51
[...] « [AVP-TV] O Obama doméstico [Análise/opinião] 15 Julho Julho 15, 2008 O pensamento único na Economia em Portugal Michael Seufert, O [...]
Pingback por [Análise/opinião] 15 Julho « A Vila de Potemkin — Julho 15, 2008 @ 16:30
Caro Michael,
Tem 12 Euros de rendimento. Antes gastava 10 Euros para comprar o seu cabaz. Agora gasta 11, “inflação” de 10%. Não precisa de aumentar o seu rendimento, basta desviar 1 Euro de poupança para o consumo.
Este crescimento de preços não é sustnetável sem crescimento da massa monetária. Pode-se consumir mais do que se produz, mas não indefinidamente. De forma agregada o limite teórico é o consumo de toda a poupança agregada acumulada.
De qualquer forma, há falta de uma moeda com base real, o melhor que podemos esperar é um Banco central verdadeiramente preocupado em garantir que a massa moneta´ria cresce com a Economia e não mais. Esperarmos que o planeador central funcione da melhor forma imaginável. Pelo menos o BCE não é o FED…
Comentário por Ricardo G. Francisco — Julho 15, 2008 @ 17:53
Caro Francisco, porque tem o dinheiro de crescer com a economia?
E que medida de dinheiro usaria o Banco Central? A massa monetária medida pelo M3 tem crescido a mais de 10% ao ano na UE.
Nos EUA deixaram de publicar o M3, mas o M2 subiu para o dobro em menos de 10 anos.
Além disso, os malefícios do aumento da massa monetária nem sequer são o aumento de preços mas sim o próprio facto de permitr investimento financiado a crédito tornado possivel apenas por criação monetária.
A economia não precisa de bancos centrais. Os déficits públicos sim.
Comentário por CN — Julho 15, 2008 @ 22:50
CN,
Eu não defendo que o dinheiro cresça com a economia. Apenas disse que pode existir inflação sem aumento da massa monetária.
Comentário por Ricardo G. Francisco — Julho 16, 2008 @ 10:40
Antes de mais convém lembrar que a definição de inflação que uso, é a que diz que inflação é o mesmo que aumento da massa monetária.
Quanto ao que o Ricardo diz, que é possível haver aumento generalizado de preços sem haver inflação, é parcialmente verdade.
Mas acho que o desvio da poupança não pode ser sustentado, a dada altura acabam as poupanças. Além disso, esquecendo as reservas escondidas debaixo de colchões, o dinheiro poupado está aplicado num banco, em investimentos ou a crédito, e portanto não aparece do nada.
Claro que se os bancos emprestam mais do que têm (emprestando por exemplo o mesmo dinheiro várias vezes, o que acontece quando um crédito é depositado, passando a contar como saldo nesse banco), estamos novamente a falar de inflação nos meus termos.
Comentário por Michael Seufert — Julho 16, 2008 @ 14:33
Inflação é o aumento dos preços de um cabaz entre períodos. O aumento da massa monetária de facto é um dos factores que pode influenciar essa subida mas há muitos outros.
Friedman sugeria que havia uma ligação entre a taxa de desemprego, as expectativas dos agentes e a própria inflação que apesar de fazer sentido nos 60/70 hoje em dia não se encontram evidências de que de facto seja assim.
É muito fácil criticar os economistas por não conseguirem explicar totalmente esse efeito mas até hoje, grandes economistas apenas conseguiram explicar 70-75% da inflação através de regressões usando as mais diversas variáveis. Isso é mau pois visivelmente não é suficiente e continuará assim pois simplesmente é impossível captar os efeitos relacionado com as expectativas dos agentes económicos.
Comentário por Leandro — Julho 20, 2008 @ 09:43
[...] Ler, já agora: On inflation, O pensamento único na Economia em Portugal. [...]
Pingback por Inflação/Deflação | Michael Seufert — Março 30, 2009 @ 01:12
“Apenas disse que pode existir inflação sem aumento da massa monetária.”
Como podem os preços subirem sustentadamente sem aumento de massa monetária (sem recessão)?
Se a quantidade de moeda for fixa, a subida de um preço desencadeia a descida de um outro preço qualquer.
Comentário por CN — Março 30, 2009 @ 09:55