Na semana passada, Manuela Ferreira Leite deu uma entrevista à TVI, onde continuou a sua crítica aos compromissos assumidos pelo Governo com a realização de um vasto conjunto de obras públicas que, no entender da líder laranja, deveriam ser “repensados” em virtude da conjuntura complicada em que o país se encontra, especialmente se for tida em conta as dificuldades financeiras do Estado português. É precisamente por ligar a sua oposição ao projecto “desenvolvimentista” do Governo à crise que o país enfrenta que a mensagem de Ferreira Leite é eficaz: ela não só traça uma linha de diferenciação entre o seu PSD e o PS de Sócrates (ao dizer que, ao contrário dos socialistas, não acredita que o investimento público seja o instrumento adequado ao desenvolvimento do país), como, ao centrar essa sua mensagem na crise, coloca pressão sobre a atitude propagandística do Governo.
A entrevista de Sócrates à RTP, no dia seguinte, é um bom exemplo da eficácia de Ferreira Leite e da sua estratégia: pela primeira vez, Sócrates sentiu a necessidade de dizer que nem tudo estava bem. Claro que continuou a dizer que tudo o que fez foi excepcional, e que tudo o que de negativo paira sobre Portugal é alheio à sua responsabilidade. Mas já não diz, como há uns meses dizia o seu Ministro das Finanças, que Portugal estava imune à crise internacional, graças ao esforços do Governo. A dimensão da crise, e a tónica que Ferreira Leite nela coloca, obrigaram Sócrates a descer à terra e, implicitamente, a admitir o falhanço: pois se até há uns meses Portugal estava preparado para a crise, devido ao trabalho do Governo, se agora está à sua mercê, é porque afinal o Governo já não acha que o seu trabalho teve o condão de isolar Portugal do resto do mundo e dos seus problemas. A eleição de Ferreira Leite, e a mudança de linha política que operou no PSD, transformou a cena política portuguesa, que já não é a mesma de há uns meses. O PSD já não se limita a comentar o que o Governo vai dizendo. Antes centra toda a sua oposição numa única diferencia de posição (em relação ao investimento público e à atitude perante a crise), o que como se vê, causa muito mais dificuldades ao governo do que a histeria de um Santana Lopes “combativo” em debates parlamentares.
Outro sinal desse mesmo impacto é evidente nas notícias de que começa a haver alguma tensão entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, em torno do pacote de Obras Públicas que Ferreira Leite critica. É bom lembrar que, aquando da eleição presidencial, este era precisamente o tema sobre o qual se antecipava um maior potencial de conflito entre Cavaco e Sócrates. No entanto, nos últimos meses, e à medida que o Governo apresentava um número cada vez maior de “projectos”, esse conflito parecia inexistente. Não é difícil de perceber porquê: quando Cavaco foi eleito, o líder do PSD era Marques Mendes, muito crítico de projectos como o TGV e a Ota, enquanto nos últimos meses, o partido laranja era liderado por Luis Filipe Menezes, sempre ambíguo em relação a tais questões. Mal Ferreira Leite recuperou a oposição de Marques Mendes ao “faraonismo” de Sócrates, logo o tema regressou, tal como regressaram as notícias de que Cavaco não partilha o entusiasmo governamental.
O que a eleição de Ferreira Leite não mudou, no entanto, foi a profunda divisão que existe no seio do PSD, e o facto de que um dos lados em confronto é, como aqui escrevi, o melhor amigo que Sócrates pode ter. Segundo o Diário de Notícias, vários autarcas do PSD manifestaram-se contra as críticas de Ferreira Leite pondo-se do lado do Governo ao afirmarem a necessidade de tais projectos. Isto mostra como existe de facto uma divisão entre um “PSD nacional” e um “PSD autárquico”, e que este último é incompatível com uma verdadeira alternativa ao PS: tanto o PS como o “partido autárquico” acham que obras públicas faraónicas são um instrumento de “desenvolvimento” e “modernização” do país, ambos acham que é através de dinheiro público em “obras” que o país “anda para a frente”, e ambos sabem que com Ferreira Leite, e perante a conjuntura actual, esse “caminho” não será seguido. Há, por isso, uma convergência de interesses entre o PS de Sócrates e o PSD dos aparelhos autárquicos, que pouco se importarão se Sócrates ficar em São Bento e lhes ofereça as obras que “tratam” do que está à sua “porta” (para usar as palavras de um autarca de Figueiró dos Vinhos), por muito que isso custe o tecto da casa nacional. Especialmente se, na liderança do seu partido estiver uma direcção que veja como prioritária a afirmação do partido a nível nacional, subordinando (como Marques Mendes fez e Ferreira Leite certamente se prepara para fazer) os esforços de perpetuação dos feudos de poder locais dos “caciques” do “partido autárquico”, à afirmação de uma política alternativa ao PS a nível nacional. Há muito boa gente que acha que entre Ferreira Leite e Sócrates não há qualquer diferença. Mas o “Bloco Central” que realmente devia assustá-los é o que une o PS à parte do PSD que tem mais a perder com a possível subida de Ferreira Leite ao poder.
Apesar de tudo, penso que temos tido um pouco de azar. Previamos já a crise do subprime, mas não a dos combustíveis. Encaminhavamo-nos para um aumento substancial do PIB com estas obras públicas e de diminuição do desemprego. Infelizmente, estas crises, às quais estamos preparados para dar resposta, vêm atrasar-nos em termos de crescimento. Mas não é o discurso de MFL o adequado, até porque não aponta qualquer solução, e acho muit apiada ela dirigir-se à classe média, quando o que nos devia preocupar é a classe baixa ou baixissima.
Comentário por Rui Moreira — Julho 7, 2008 @ 20:22
“Encaminhavamo-nos para um aumento substancial do PIB com estas obras públicas e de diminuição do desemprego.”
Acredita mesmo no que escreveu?
Comentário por lucklucky — Julho 7, 2008 @ 22:37
O que é um facto é que estávamos a aguentar e bem os outros problemas, este choque petrolífero é que é mais complicado…
Comentário por Pedro Sá — Julho 8, 2008 @ 09:46
Todos os países estão a ser afectados pelo “choque petrolifero”. No entanto continuamos com taxas de crescimemto miseráveis. Tal como estavamos antes, acrescento. Sinal que algo está estruturalmente errado.
Comentário por Miguel — Julho 8, 2008 @ 09:53
“O que é um facto é que estávamos a aguentar e bem”
Desculpe Pedro, mas quem conhecer um pouco a realidade das empresas portuguesas (e não falo das 100 ou 200 maiores) sabe que estamos tudo menos bem. A grande maioria das empresas passa por dificuldades porque as pessoas vão consumindo cada vez menos. E não é de agora, é algo que se arrasta há alguns/vários anos.
Comentário por LT — Julho 8, 2008 @ 10:19
“O que é um facto é que estávamos a aguentar e bem os outros problemas, este choque petrolífero é que é mais complicado”
Devo viver em realidade paralela. Acha aguentar bem com crescimento a 1-2% enquanto a Europa de Leste crescia a 4 ou mais %? Acha aguentar bem quando vários países do Leste ultrapassaram o nosso rendimento per capita, apesar da miséria com que saíram do Comunismo?
Comentário por lucklucky — Julho 8, 2008 @ 11:43