O Joaquim sustenta aqui e aqui algumas coisas sobre inflação que eu não percebo, mas gostava.
Oficialmente não estudei Economia, mas gosto de ler e tentar estudar por mim; e de entre das matérias económicas mais interessantes, e a meu ver mais mal-compreendidas, está justamente o tema da inflação.
O Joaquim escreve aqui, que «[a] inflação actual é o resultado do aumento do preço do petróleo e das matérias primas que importamos (estou a pensar a nível Europeu) do exterior e que obviamente reflecte o aumento da procura destes bens em relação à oferta, com mais ou menos especulação.», e mais abaixo «[s]e é possível aplicar este termo, a inflação actual é virtuosa, porque resulta de uma escassez real. Afecta o nível de vida de todos, é um facto, mas é um facto que não podemos alterar. Combatê-la com medidas monetárias compromete a única via que temos para reagir ao aumento dos preços que é investir, aumentar a produtividade e criar mais valor.» (os bolds são meus)
Salta-me à vista que definimos inflação de forma diferente. A wikipedia inglesa, e parece-me que o Joaquim concordará, define inflação como a rise in general level of prices of goods and services over time. Já a wikipedia portuguesa tem um conceito bem mais interessante de inflação, definindo-a a como a queda do valor de mercado ou poder de compra do dinheiro. Sendo que [i]sso é equivalente ao aumento no nível geral de preços.
A diferença entre estas duas formas de definir inflação traduz-se numa contradição na explicação do aumento dos preços que vivemos, e consquentemente em diferentes formas de propôr soluções. Justamente «para que não erremos no diagnóstico e na terapêutica», deixo aqui algumas questões para a discussão.
Será possível importar inflação? Se uma comodidade produzida no estrangeiro, como o petróleo, sobe de preço, porque hão de os restantes preços subir? Claro que o preço do petróleo influencia o preço de muitas mais comodidades, mas se a procura de petróleo e dos produtos com preço influenciado pelo petróle, apesar da subida de preços, se mantivesse constante, donde sobraria dinheiro para manter os restantes preços constantes ou até fazê-los subir? Um aumento do preço do petróleo a procura e massa monetária constantes levaria a uma descida da procura (e dos preços) noutras comodidades e consequente equilíbrio da taxa de inflação.
É possível haver inflação devido a uma escassez real de comodidades? Como explicar que todas as comodidades entrem ao mesmo tempo em escassez? E mesmo que assim fosse, os preços subiam porquê? Se os preços sobem generalizadamente o que acontece à procura? E de que serve aumentar a produção se não há aumento de procura?
Posto isto, o aumento de preços advém da escassez e/ou “fixação” de preços mais altos (por carolice, imagino) ou do facto de o dinheiro valer menos, por haver mais dinheiro a circular num determinado mercado, com consequente aumento generalizado de preços?
Em suma, é inflação igual a subida de preços, ou (como me parece a mim) é inflação o aumento da massa monetária?
“Em suma, é inflação igual a subida de preços, ou (como me parece a mim) é inflação o aumento da massa monetária?”
concentrado-me apenas na questão da definição de inflação, pondo de lado o resto da discussão.
Imagine-se que, num dado periodo de tempo, a massa monetária duplicava e a produção real triplicava, resultando numa ligeira descida dos preços.
Nesta situação o ms consideraria que tinhamos inflação (porque subiu a massa monetária) ou deflação (porque desceram os preços)?
Comentário por Miguel Madeira — Julho 2, 2008 @ 20:34
Uma forma simples de colocar a questão é a seguinte: imagine-se que a moeda é formada pelo conjunto das comodities não consumíveis (ouro, prata etc). Como é que se pode importar inflação nesta situação? Nesta situação não haveria subida generalizada de preços pelo simples facto que o ouro e a prata estão a valorizar em relação a grande parte dos bens e serviços.
Comentário por JoaoMiranda — Julho 2, 2008 @ 20:49
Excelente post e comentários.
Eu já algum tempo que passei a achar que a economia devia ser começar por ser estudada num paradigma de quantidade de moeda fixa.
A melhor qualidade de uma moeda (ou candidato a moeda) é ser fixa. Em primeiro lugar que a sua quantidade não possa decrescer (daí o cuidado do JM em falar de commodities não consumíveis) e depois que a sua quantidade não suba muito.
O único commodity que corresponde a esta característica é o ouro e depois a prata mas já a grande distância (é consumível por um lado, e o peso da sua produção anual no stock médio existente é já muito maior do que o ouro).
Dito isto, sempre que existe mais moeda existe inflação, mesmo que os preços baixem.
Se essa inflação é artificial (capacidade de criação de moeda a custo +/- zero pelos Bancos), mesmo na situação descrita pelo MM, os efeitos negativos apontados pelos austriacos (ciclos economicos, redistribuição de riqueza a favor de quem primeiro utiliza as novas quantidades de dinheiro, etc) mantêm-se.
Assim, o problema não os preços crescerem em si, mas sim o aumento da massa monetária sem custos de produção (no caso do ouro, a sua apreciação ou descida de preços incentiva a actividade das empresas prospectoras).
Assim, se a quantidade de moeda é fixa, todo o crescimento económico traduz-se em descida de preços. Se por acaso de uma situação destas partimos para uma onde os bancos começam a emitir moeda para conceder crédito, e mesmo que o façam a um ritmo que iguale apenas o crescimento eocnómico, os efeitos apontados pelos austriacos continuam válidos apesar de em tal situação podermos imaginar inflação de preços de 0%.
Deixo a sugestão que deixei ao Joaquim:
Tem hoje um bom artigo no Mises Institute de Frank Shostak, “chief economist of M.F. Global”.
http://mises.org/story/3018
Ver este ponto:
“Now, if for a given stock of goods an increase in the money supply occurs, this would mean that more money is going to be exchanged for a given stock of goods. Obviously then the purchasing power of money is going to fall, i.e., the prices of goods are going to increase (more money per unit of a good). In this case the general increase in prices is associated with inflation.
But now consider the following case: the rate of growth in money is in line with the rate of growth in goods. Consequently, the prices of goods on average don’t change. Do we have inflation here or don’t we?
For most economists, if an increase in the money supply is exactly matched by the increase in the production of goods, then this is fine, since no increase in general prices has taken place and therefore no inflation has emerged. We suggest that this way of thinking is false since inflation has taken place, i.e., the money supply has increased. This increase cannot be undone by the corresponding increase in the production of goods and services.
For instance, once a king has created more diluted gold coins that masquerade as pure gold coins he is now able to exchange nothing for something irrespective of the rate of growth of the production of goods. Regardless of what the production of goods is doing, the king is now engaging in an exchange of nothing for something, i.e., diverting resources to himself by paying nothing in return.
This diversion is possible because of the increase in the number of diluted coins, i.e., the inflation of coins.
The same logic can be applied to paper-money inflation.”
Comentário por CN — Julho 2, 2008 @ 21:33
Penso que o post ‘Blind Folded’ reflecte a realidade quando falamos de inflação, subida de preços, aumento da procura e diminuição da oferta, e a possível solução, “Combatê-la com medidas monetárias compromete a única via que temos para reagir ao aumento dos preços que é investir, aumentar a produtividade e criar mais valor”.
Comentário por Rui Moreira — Julho 2, 2008 @ 22:10
Acho que isto é uma discussão mais terminológica do que outra coisa qualquer.
Creio que estamos todos de acordo que existe uma coisa a que pudemos chamar “subida no nível geral de preços” e outra a que pudemos chamar “crescimento da massa monetária”; a questão é apenas a qual dos fenómenos iremos chamar “inflacção” (e qualquer solução é aceitável, desde que, numa dada discussão, fique claro à partida qual é o significado que se está a usar)
Comentário por Miguel Madeira — Julho 2, 2008 @ 22:12
Inflação devia ser aplicado ao aumento da massa monetária.
O efeito da subidade geral de preços no consumidor pode ocorrer ou não perante a inflação monetária.
Mas enfim, esse era o sentido orginal, mas agora é a subida de preços. E desta forma os economistas incluindo os monetaristas pensam que só existe um problema quando se verificam subidas gerais de preço, ignorando os outros que têm lugar mesmo que não se verifique tal subida nos indíces dos consumidores (mas provavelmente nas acções, ou nas casas, ou nos bens de equipamento, etc).
Comentário por CN — Julho 2, 2008 @ 22:24
“Combatê-la com medidas monetárias compromete a única via que temos para reagir ao aumento dos preços que é investir, aumentar a produtividade e criar mais valor”.
Bem, a única forma de combater o aumento de preços é … actuar sobre o aumento da massa monetária.
Comentário por CN — Julho 2, 2008 @ 22:26
«Nesta situação o ms consideraria que tinhamos inflação (porque subiu a massa monetária) ou deflação (porque desceram os preços)?»
Inflação Miguel. O Miguel descreve uma situação em que não ocorre subida de preços após inflação, mas apenas porque ocorreram fenómenos paralelos (aliás impossíveis na realidade) que fizeram esconder a consequência fundamental da inflação.
Repare-se que se tivéssemos os dois acontecimentos separados de dez anos, a questão não se punha. Ora a ordem dos factores não altera o resultado, neste caso a nomenclatura
Comentário por Michael Seufert — Julho 2, 2008 @ 23:24
(ainda não tinha lido o primeiro comentário do Carlos Novais quando respondi ao Miguel, mas assino por completo)
Quanto a se esta questão é terminológica ou não: se soubermos chamar as coisas pelos nomes, preparamo-nos melhor para as combater. Repare que se inflação for tido como um aumento de preços, ou um factor externo importado, etc., a culpa nunca é de ninguém – ou é dos mauzões que “controlam” os preços. Já se identificarmos a inflação como a subida do número de moedas que correm no mercado, e se soubermos quais as consequências da inflação, percebemos que ela tem culpados e que lhes podemos assacar responsabilidades.
Deixa de ser um papão…
Comentário por Michael Seufert — Julho 2, 2008 @ 23:31
“aliás impossíveis na realidade”
Não vejo porquê – bastaria o BCE por a quantidade de moeda no espaço euro a crescer a uma taxa inferior ao crescimento do PIB real para isso acontecer.
E penso que talvez tenha ocorrido algo do género no século XIX (nos tempos do padrão-ouro), em que os preços desciam mas, em termos absolutos, apesar de tudo a moeda em circulação estava a subir.
Comentário por Miguel Madeira — Julho 3, 2008 @ 00:30
Ainda a respeito da terminologia – se definirmos inflação como “crescimento da massa monetária”, há uma coisa acho que não poderemos fazer, que é dizer “taxa de crescimento do PIB real = taxa de crescimento do PIB nominais – taxa de inflação” (ou “salários”, em vez de PIB)
Concordam comigo que esta fórmula só faz sentido se se definir inflação como “subida dos preços”, e caso adoptemos a outra definição deveremos, na fórmula usar “taxa de crescimento dos preços” em vez de “taxa de inflação”?
É que em tempos vi um artigo aqui n’O Insurgente, à volta dessa questão que, sinceramente (e o re-postador que me desculpe), não me parecia ter lógica nenhuma.
Comentário por Miguel Madeira — Julho 3, 2008 @ 00:31
“PIB real = taxa de crescimento do PIB nominais – taxa de inflação”
É verdade que isto tem pouco sentido se tivermos em conta o crescimento monetário.
Parte do crescimento do PIB pode estar inflacionado apenas porque o credito ao investimento está a subir por criação monetária enquanto que a inflação de preços no consumidores está +/- estável.
Era portanto necessário determinar que parte do pib está aparentemente a subir apenas porque existe criação monetária e não poruqe existe poupança alocada.
Ou seja, é impossivel.
E por isso os economitas se baralham a si mesmo e baralham toda a gente.
Comentário por CN — Julho 3, 2008 @ 10:09
Caro CN, já agora uma pergunta, visto que sou um leigo que se interessa pelo problema da inflação:
diz no seu comentário que “Se por acaso de uma situação destas partimos para uma onde os bancos começam a emitir moeda para conceder crédito, e mesmo que o façam a um ritmo que iguale apenas o crescimento económico, os efeitos apontados pelos austriacos continuam válidos apesar de em tal situação podermos imaginar inflação de preços de 0%.” A minha questão é seguinte: se a emissão de moeda for ao ritmo do crescimento económico, o que está a acontecer não é apenas a oferta da moeda a responder à procura (evitando a deflação)? Não era isso que acontecia no padrão-ouro: a estabilidade de preços ser garantida pelo equilíbrio entre a riqueza produzida e a moeda existente em circulação, em virtude da necessidade de só ser emitida moeda que correspondesse às posse de reservas em ouro que lhes servissem de garantia?
Eu admito estar enganado, mas esta era ideia que tenho. Fico desde já grato (ao Carlos ou a qualquer outro que avance) pelo esclarecimento…
Comentário por Bruno Alves — Julho 3, 2008 @ 22:49
[...] Arquivado como: Economia, Política, Teoria — Michael Seufert @ 12:11 am Sobre isto, recomendo ler [...]
Pingback por Ainda a inflação « O Insurgente — Julho 4, 2008 @ 00:11
A deflação de preços não constitui problema. Na verdade existe crescimento económico na medida em que os preços baixam. Isso só não é visivel por causa da inflação monetária.
Grave, muito grave é a deflação monetária (que também causa baixa de preços), que tem lugar com o desaparecimento de depóstios quando um Banco (ou muitos) vai à falência.
É assim preciso assim distinguir entre descida de preços causada por:
- crescimento económico-aumento da produtividade
- por deflação monetária
Mas a segunda só é possível num sistema de reservas parciais que só pode ter lugar:
- num sistema de padrão ouro com reservas parciais (como aconteceu na Grande Depressão, após a expansão monetária nos anos 20, resultado da criação o FED) onde as notas e depósitos emitidos (para conceder crédito) só tinham por exemplo 20% do ouro como colateral.
As reservas parciais sempre foram uma fraude cometida pelos bancos desde as primeiras casas bancárias, cometida para poderem conceder crédito sem terem de captar poupança (ouro). Fraude que por confusão de interpretação legal (e por interesse do próprio Estado em ser assim financiado) acabou por ser mais ou meno institucionalizada.
Quando a bolha rebentou em 1929, as pessoas acorreram aos depósitos e os bancos entravam em falência (como devia ser), diminuindo a massa monetária, causando descida de preços.
Os monetaristas dizem que a culpa foi de o FED não ter emitido mais moeda, mas como podia o FED emitir mais “ouro” para socorrer os Bancos? Não podia. Assim,a solução (má) foi acabar com a entrega do ouro (obrigação conratual) assim estabelecer o puro papel sem troca, e assim o FED podia passar a emitir quanto quisesse(para evitar as falências)
Agora, de quem é a culpa de existir a possibilidade de deflação monetária? Do ouro? Não, a origem de todo o mal vem das reservas parciais. A quantidade de ouro existente não desaparece. Num sistema de 100% de reservas, que cumpre o contrato legal que estabelece ao dizer “vale uma moeda de ouro”, a deflação é uma impossiblidade.
Já vi inumeras vezes culparem o padrão ouro pela grande depressão, quando o problema foi afastar-se dele, criando moeda/notas que virtualmente enganavam/incumpriam o seu contrato facial. Assim, as reservas parciais é a origem do problema.
Agora voltando a presente sistema monetário. Os bancos têm “reservas” de 2% a 5%. Mas a lógica do sistema já está trocada. Os Bancos Centrais (BCs) criam moeda para emprestar aos Bancos ou comprar dívida pública, o que aumenta as reservas possibilitando aos bancos multiplicar os depósitos por concessão de crédito. Ou seja, os BCs é que criam as reservas e não os Bancos que depositam 2% de reservas nos BCs.
Agora à pergunta concreta.
MEsmo que o aumento da massa monetária por criação de moeda para conceder crédito seja modesta, de tal forma que os preços são estáveis, estão de qualquer forma, ainda que em menor grau, presentes os efeitos preversos:
- o investimento assim financiado, está a ser financiado sem existir alocação de poupança real-voluntária (o banco não teve de concorrer pela captação de poupança para depois conceder o crédito)
- O banco benefecia porque consegue negócio de forma mais fácil
- o recebedor do empréstimo beneficia porque não teve de pagar a taxa real para captar a poupança, como beneficia, por gastar o dinheiro da economia com um poder de compra intacto, ainda antes dos efeitos da inflação de preços se fazer sentir
- ao mesmo tempo prejudicados são toda a população detentora de saldos monetários que vê o dinheiro desvalorizar, e quando recebe as novas quantidades de dinheiro, já os preços ajustaram.
E assim, os efeitos de erro económico introduzidos e pode-se dizer de redistribuição de riqueza têm sempre lugar. Se estes efeitos existem mesmo com uma inflação monetária modesta, imagine-se com uma que acaba a provocar uma grande inflação geral.
O pior efeito nem creio que seja a subida geral de preços, que quando é antecipada até acaba a ser mais ou menos neutro (os salários sobem, todos os preços sobem, etc) embora seja disfuncional e introduza imensos erros.
O pior são os ciclos económicos de expansão (a doença) e recessão (a cura) que provocam, intuitivo se imaginarmos que numa expansão induzida pelo aumento da massa monetária por criação de dinheiro via concessão de crédito, o investimento não está suportado em poupança real-voluntária, a taxa de juro é assim artificialmente baixa, rentabilizando projectos que não o seriam, e ainda por cima, como a taxa de juro é mais baixa, desincentiva a poupança.
Acabando por voltar ao padrão-ouro. É verdade que à medida que os preços baixam de forma benigna pelo crescimento económico, a prospecção de ouro torna-se mais rentável e assim a produção de ouro aumenta. Ou seja, a massa monetária aumenta, mas existe um custo associado e o sector mineiro como outro qualquer num mercado livre tende para ter um lucro normal resultado de um equilibrio ente custo marginal e proveito marginal.
Outra coisa é existir aumento da massa monetária com um custo muito baixo, dada a possibilidade de criar moeda, multiplicando as reservas que os BCs colocam no sistema.
Comentário por CN — Julho 4, 2008 @ 00:38
[...] Adenda: Leitura complementar: On inflation [...]
Pingback por O pensamento único na Economia em Portugal « O Insurgente — Julho 15, 2008 @ 12:59
[...] já agora: On inflation, O pensamento único na Economia em [...]
Pingback por Inflação/Deflação « O Insurgente — Janeiro 29, 2009 @ 15:41
[...] já agora: On inflation, O pensamento único na Economia em Portugal. [...]
Pingback por Inflação/Deflação | Michael Seufert — Fevereiro 5, 2009 @ 13:53