O Insurgente

Junho 30, 2008

A crise no Zimbabwe põe a nu o dilema das potências ocidentais

Arquivar em: Colunas, Comentário, Internacional, Política, Semana Política — Bruno Alves @ 18:11

Após um aumento da violência promovida pelo ditador do país, Robert Mugabe, o candidato a presidente do Zimbabwe Morgan Tsvangirai resolveu, a semana passada, desistir da sua candidatura, por temer que, caso continuasse a fazer frente a mugabe, este último pudesse exercer represálias ainda mais graves sobre os apoinates do seu rival. Mugabe, claro, foi reeleito, e garantiu que “só Deus” o poderia retirar do poder. No entanto, cada vez mais gente parece esperar tal intervenção divina com ansiedade: até os líderes afircanos que se têm mostrado indiferentes à brutalidade de Mugabe começam a ficar incomodados com os acontecimentos da última semana. Os países ocidentais, e organizações como a União Europeia, insistiram nas suas “condenações” do regime de Mugabe, procurando isolá-lo (coisa de que não se lembraram quando, ainda há alguns meses, muitos deles confraternizaram com ele alegremente nas ruas e hotéis de Lisboa).

No entanto, apesar desta posição de princípio dos países ocidentais, a forma como se processaram as “eleições” no Zimbabwe e a incapacidade do Conselho de Segurança da ONU para chegar a um “consenso” quanto à forma de lidar com Mugabe e as atrocidades que este pratica no seu país demonstram bem a irrelevância da organização. Mas toda esta crise é, também, uma prova de como as potências ocidentais não sabem como lidar com crises humanitárias ou conflitos nas suas ex-colónias. Sempre que um destes países cai numa guerra civil, ou sempre que um qualquer ditador pós-independência se entretém a assassinar parte da população, ou sempre que um conflito étnico atinge proporções suficientemente grandes para chocar as consciências da opinião pública dos países ocidentais, os governos destes países (e organizações a que estes pertencem, como a UE ou a ONU) apressam-se a “condenar” o sucedido, e a “fazer pressão” para “que se encontra uma solução pacífica para a crise”. No entanto, não estão dispostos a fazer mais que isso, e as suas palavras, por muito duras que sejam, não chegam para assustar quem acha que “só Deus” lhe pode retirar o poder, tal como sanções económicas não assustam quem não se incomoda com a pobreza extrema da população do seu país. Os países ocidentais “preocupam-se” com as crises humanitárias em países como o Zimbabwe, mas não estão dispostos a fazer muito para acabar com elas, muito menos afastar os ditadores que as provocam.

Na realidade, crises como a do Zimbabwe ilustram bem o dilema dos países ocidentais perante o “resto do mundo”: já que os seus métodos (palavras e sanções) não parecem ser eficazes, os países ocidentais poderiam reconhecer a sua incapacidade e, pura e simplesmente, ignorar o que se passa, deixando os zimbabweanos (ou os ruandeses, ou os iraquianos, ou qualquer outro país que caia em apuros destes) matarem-se uns aos outros. Mas aí teriam de viver com o sentimento de culpa de terem deixado “aquilo” acontecer. Ou então colocar, por trás das suas palavras e ameaças de sanções, o uso da força (ou a ameaça do uso da força) que dá credibilidade ao discurso “moral” que empregam. O “problema” está em que, se o fizerem, estarão a adoptar uma postura “neo-imperial”, e terão de viver com o sentimento de culpa que, numa época em que todos aceitam como sacrossanto o “princípio da autodeterminação dos povos”, tal conduta lhes provocaria. Como “adepto” de Niall Ferguson, tendo a achar que os EUA, em particular, deveriam assumir o papel de agente imperial que põe ordem em situações caóticas. Mas, sinceramente, já me contentava se os países ocidentais, muito humildemente, fizessem uma escolha: ou se deixam de proclamações morais acerca do comportamento dos governantes de outros países, ou, se acham que devem zelar pela “civilidade”, fazerem alguma coisa por isso, “putting the money where the mouth is”. Hoje em dia, eles preferem viver “in shit than to be seen to work a shovel”. E, como insistem em moralizar, combinam o pior de dois mundos: ao mesmo tempo que se mostram tão “arrogantes” como os “imperialistas” (com a “presunção” de que podem “dizer aos outros” como eles devem viver), exibem a fraqueza de quem não está disposto (ao contrário dos “imperialistas”) a “obrigá-los” a fazer o que dizem.

Quando Bin Laden falava do “cavalo cansado” do Ocidente, era disto que falava. Não era de um cavalo que ficava fechado num estábulo, longe da vista de todos, mas de um cavalo que, não parando de relinchar, nunca participava nas corridas: ao mesmo tempo que, nas palavras do dr. Soares, provocava o “ressentimento” do resto do mundo “humilhado” pelo sentimento de “superioridade moral” de quem “impõe” o que pensa, o Ocidente mostrava não ter vontade nenhuma de lutar por aquilo que apregoava. De cada vez que um político ocidental “condena” o que se está a passar no Zimbabwe, sem que nenhuma demonstração de força (nem que passe apenas pela ameaça credível do seu uso) seja feita por países como os EUA ou o Reino Unido, está apenas a confirmar a “tese” de Bin Laden. E, nem que seja só por isso, esta crise é bastante mais do que algo que está “lá longe”, num país africano que “nem se sabe muito bem onde fica”. Ela uma crise que tem lugar “aqui”, uma crise que mostrará, a quem olha para nós por razões que são tudo menos boas, aquilo que queremos e o quão longe estamos dispostos a ir por isso. Até agora, a resposta que estamos a dar não é a melhor.

2 Comentários »

  1. Partilho da indignação e da frustação que este post refere e denuncia.

    Concordo com a ideia de que os paises ocidentais, ou pelo menos uma coligação “activa” conduzida pelos Estados Unidos, deveriam procurar intervir com forças militares e meios financeiros excepcionais em situações e conflitos que provocam ou podem provocar autenticos desastres humanitarios. Se possível com a concordância e o apoio do maior número de países e organizações, incluindo a ONU. Se necessário “unilateralmente”.

    No entanto, julgo que temos de nos render à evidência de que a correlação de forças é actualmente desfavorável a este tipo de política humanitária “intervencionista”. No plano internacional muitos países, incluindo vários ditos ocidentais, não colaboram ou se opõem pura e simplesmente. A ONU, em pricípio vocacionada para este tipo de “direito de intervenção”, é atravessada por fortes contradições que a paralizam ou tornam mesmo contraproducente. As opiniões públicas nacionais, em particular as das principais democracias, são sensíveis à propaganda e às diferentes formas de chantagem política dos que se opõem a este tipo de politica.

    As razões deste estado das coisas são diversas. Uma das mais relevantes tem certamente a ver com a circunstância de muitos dos governantes, dirigentes, elites intelectuais, jornalistas e “opinion makers”, etc, pertencerem a uma geração que nasceu, cresceu e se formou na segunda metade do século XX no seio de ambientes culturais ainda fortemente influenciados por ideologias de tipo “politicamente correcto”, mais ou menos marxistas e terceiro mundistas.

    Enquanto se mantiver este tipo de “consciência colectiva” é dificil imaginar que se possam multiplicar intervenções humanitárias com o adequado uso da força. A “comunidade internacional” vai continuar a assistir de longe a sucessivos desastres. Querendo ser optimistas podemos apenas esperar que a repetição e o carácter insuportável destas situações vá de par com o enfraquecimento das ideologias absurdas e irresponsáveis que as provocaram e as provocam ainda !

    Comentário por Fernando S — Junho 30, 2008 @ 22:52

  2. É bem amanhado o post.
    E a Europa com estes políticos de meia tijela também está bem amanhada…
    “Descolonizaram” para serem “colonizados” e quando se portam mal rebemtam-lhes umas bombas para recordar como é…

    Comentário por Miles — Julho 1, 2008 @ 00:08


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