O Insurgente

Junho 16, 2008

A “Europa” mais facilmente fará asneira do que aprenderá a lição

Na Irlanda, o referendo ao Tratado de Lisboa (a versão “soft” da “Constituição Europeia” já rejeitada pelo voto popular de franceses e holandeses) teve como resultado uma vitória do “Não”. Mais uma vez, a maioria dos cidadãos de um país europeu rejeita os planos burocráticos vindos de Bruxelas, e diz “Não” a uma “fuga para frente” por parte da “Europa”, que poderia no futuro vir a ter consequências bem desagradáveis. Os “euroentusiastas”, claro, já falam de uma “crise”, nunca lhes ocorrendo que esta só surge por insistirem, depois dos “Nãos” de franceses e holandeses, em forçar a entrada em vigor de um documento que sem condições para ser aceite pelos cidadãos de todos os Estados-membros.

Seria de esperar que os responsáveis políticos europeus aproveitassem a oportunidade para pararem um bocadinho, pensarem, e dedicarem os seus esforços a questões mais importantes que as tentativas de afastar o poder político ainda mais dos cidadãos. No entanto, como já desperdiçaram oportunidades semelhantes, o mais provável é que ocupem os próximos tempos à procura de uma forma de ludibriar ou chantagear aqueles que rejeitaram os seus planos.  Aliás, os primeiros sinais dados pelos responsáveis europeus vão nesse sentido: Gordon Brown, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e outras figuras destacadas já afirmaram que a “Europa” irá prosseguir com a ratificação dos Tratados nos países que ainda não o fizeram, de forma a isolar a Irlanda e forçá-la a ter de escolher entre ficar à margem da “Europa” ou desrespeitar a vontade da maioria dos seus cidadãos; Durão Barroso, em mais um exemplo da extraordinária falta de vergonha que o caracteriza, já disse que o “Não” irlandês não foi um “Não” ao Tratado. A desvalorização dos resultados e a procura de um caminho para o varrer para debaixo do tapete já começou em Bruxelas e nas várias capitais europeias.

É por isso que, sendo positivo que a “Constituição Europeia” tenha sido mais uma vez ferida de morte, dificilmente algo de bom poderá vir do que se passou na Irlanda: os responsáveis europeus acabarão por impôr muitas das alterações da “Constituição” por “debaixo da mesa”, sem uma revisão dos tratados; ou tentarão repetir o referendo irlandês até obterem o resultado “certo”; ou tentarão fazer da Irlanda um pária, fazendo da sua própria retórica de uma “Europa unida” uma farsa que apenas esconde a sua sede de poder. Teremos assim o pior dos dois mundos: a aventura da “Constituição” e a crescente descredibilização política daqueles que desrespeitam vergonhosamente a manifestação da vontade dos cidadãos em actos eleitorais. O resultado de semelhante cenário não poderá ser bom

5 Comentários »

  1. “Teremos assim o pior dos dois mundos…e a crescente descredibilização política daqueles que desrespeitam vergonhosamente a manifestação da vontade dos cidadãos em actos eleitorais.”

    Isto é mau?

    Comentário por lucklucky — Junho 16, 2008 @ 19:02

  2. As consequências dessa descredibilização sim: falta de confiança nas classes políticas dos vários países, consequente afastamento dos cidadãos da vida política e consequente dificuldade em governar…

    Comentário por Bruno Alves — Junho 16, 2008 @ 19:18

  3. Em caso de referendo estaria do lado do “sim” mas, gostaria que me tivessem perguntado.

    http://hekate-hkt.blogspot.com/2008/06/depois-de-6-anos-redigir-um-texto.html

    Comentário por hkt — Junho 16, 2008 @ 23:54

  4. O Vídeo de Vladimir Bukovsky aparece agora aqui:

    http://youtube.com/watch?v=bM2Ql3wOGcU

    “I have lived in your future and it didn’t work”.

    -

    Comentário por Range-o-Dente — Junho 17, 2008 @ 00:07

  5. O lucklucky é capaz de ter razão: quanto mais se desmascararem estes “democratas” bruxelenses, mais esclarecido fica o eleitor sobre a bondade destas avestruzes. É capaz de haver algum ganho nisso.

    Comentário por douro — Junho 17, 2008 @ 10:32


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