O Insurgente

Junho 13, 2008

Viva a Irlanda!

As reacções ao Não da Irlanda ao Tratado de Lisboa são elas mesmas parte da razão pela qual eu votaria Não, caso me deixassem. “os demais não têm de ficar eternamente reféns de quem não quer.“(destaques no original) ou “os avanços que o Tratado de Lisboa prevê para a vida política de 500 milhões de cidadãos europeus não podem ser neutralizados – de um dia para o outro – por um referendo em que apenas 40% dos eleitores num país com 4.2 milhões de habitantes se dignaram a ir votar.” “Britain, France and Germany are all expected to declare they will continue the ratification process, as are the Czech Republic, Poland and Sweden

Cá e pela Europa fora não se percebe uma coisa: democracia não é as pessoas votarem no que nós achamos que está certo. Democracia é as pessoas votarem pelas razões que elas bem entenderem.

Diz-se que Churchill disse que “The biggest argument against democracy is a five minute discussion with the average voter.” Os bruxelistas poderiam tentar usar esse conhecimento para apresentarem razões claras e fáceis de entender para uma reforma do tamanho da do Tratado. Podiam apresentar um tratado simples, com mudanças leves mas sustentadas e facilmente inteligível e assim convencer os europeus. Mas não. Os melhores argumentos que ouvimos são os de que “é mesmo preciso”. “Se continuarmos como estamos não podemos progredir”. E brindaram-nos com um tratado confuso, com imensas mudanças em várias áreas e perfeitamente ininteligível para o average voter. Se o average voter não vai perceber o quão importante é o tratado, não o vamos deixar votar, hão de ter pensado.

Mas a Europa não precisa do Tratado de Lisboa. As instituições viveram bem até agora, e não assistimos ainda a nenhum leve sinal duma pequeníssima crise institucional. O que não precisamos é de Bruxelas com mais competências sobre Lisboa, que as que Washington tem sobre Atlanta.

Bruxelas continua a bater na tecla de que não há outra saída, que a constituição-virada-tratado é fundamental. Que os povos não percebem, mas que Bruxelas precisa de mais poderes para se poder dedicar inteiramente a servir os cidadãos. (Reagan percebeu que, «The nine most terrifying words in the English language are: ‘I’m from the government and I’m here to help». Bruxelas não.)

Os burocratas criaram uma crise ao acelerar demais na “construção europeia”. Agora não sabem como descalçar a bota. Mas não vale dizer que isto é uma rejeição de um, contra a aprovação de 26. Porque o Não dos irlandeses não é só deles. É dos holandeses e dos franceses, que já haviam rejeitado o tratado de Lisboa com outra capa. E é meu também. Só resta esperar que os bruxelistas não se fechem em modernos gabinetes no smoking e os iluminados do costume saquem da lapiseira e começem a esboçar o seu Plano C.

Viva a Irlanda!

10 Comentários »

  1. [...] Ler o resto do post do mais recente insurgente. Autor: DM [...]

    Pingback por Cortar a Direito :: Viva a Irlanda! :: June :: 2008 — Junho 13, 2008 @ 19:20

  2. Em dia de referendo europeu na Irlanda:

    Um video protagonizado por um dos mais celebres presos politicos da antiga URSS, Vladimir Bukovsky, um homem que passou 12 anos nas prisões do regime sovietico.
    No video Vladimir Bukovsky compara o regime da antiga URSS com o futuro que actualmente os dirigentes da União Europeia lhe pretendem imprimir, indicando as principais semelhanças que detecta entre ambos.
    http://www.youtube.com/watch?v=rNj5iCU5mLg&eurl=
    http://en.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Bukovsky

    Comentário por Carlos — Junho 13, 2008 @ 19:33

  3. Porque é que os ditos liberais ficaram quase tão contentes como os comunistas com o “Não” irlandês?

    Comentário por Carlos Silva — Junho 13, 2008 @ 22:52

  4. “Porque é que os ditos liberais ficaram quase tão contentes como os comunistas com o “Não” irlandês?”
    Carlos Silva

    Efectivamente. Também fico perplexo !…

    Conheço e compreendo, e até partilho, alguns dos argumentos liberais contra a burocracia europeia e uma certa ideia socializante da construção europeia.

    Mas também conheço, e não partilho de modo nenhum, muitos dos restantes argumentos contra a Europa “capitalista, mercantil, liberal” ! Vindos de sectores claramente anti-liberais, altermundialistas, nacionalistas, soberanistas e populistas, de esquerda como de direita, mas mais de esquerda do que de direita.

    A verdade é que a construção europeia, com os seus avanços e recuos, com os seus sucessos e falhanços, com os seus pontos fortes e fracos, tem globalmente contribuido para o avançar do mercado e da concorrencia no conjunto dos paises que a integraram.

    Também eu faço uma pergunta aos meus amigos eurocépticos Insurgentes :
    Não lhes faz alguma espécie o facto de os defensores do “Não” aos sucessivos tratados (desde a origem, de resto) serem predominantemente e fortemente anti-liberais ??!!…

    Comentário por Fernando S — Junho 14, 2008 @ 01:46

  5. “No video Vladimir Bukovsky compara o regime da antiga URSS com o futuro que actualmente os dirigentes da União Europeia lhe pretendem imprimir, indicando as principais semelhanças que detecta entre ambos.”

    Não vi as afirmações de Bukovsky nem sei quais são as tais semelhanças que refere.

    Mas, se fez este paralelo entre a URSS e a UE, acho que é um exagero e, no fundo, um erro !

    Uma coisa é ser-se critico da actual construção europeia.
    Ou até ser-se contra a Europa. Talvez até seja mais este o caso do russo que é Bukovsky !

    Outra coisa, muito diferente, é por a UE ao mesmo nivel da ex-URSS e meter tudo no mesmo saco !

    Não apenas por se apresentar um panorama excessivamente negro sobre a situação na UE.
    Mas, sobretudo, por se banalizar o que foi o totalitarismo comunista na ex-URSS. Ou ja nos esquecemos ?!…

    Comentário por Fernando S — Junho 14, 2008 @ 02:08

  6. Aos comunistas e neo-nazis que venceram o referendo francês contra o Tratado juntaram-se agora os fundamentalistas anti-aborto da Irlanda, uma estranha aliança entre os que se querem vingar da derrota do fascismo, os que ainda sonham com uma Rússia soviética onde ninguém tem saudades do comunismo e os que querem que a Irlanda seja uma sacristia do Vaticano.
    No Jumento

    Comentário por Carlos Silva — Junho 14, 2008 @ 11:00

  7. “Aos comunistas e neo-nazis que venceram o referendo francês contra o Tratado …”

    Mas que exagero !!

    Comentário por Fernando S — Junho 14, 2008 @ 12:10

  8. Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.

    Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.

    Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.

    Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.

    Eu conheço um país que tem uma empresa que concebeu um sistema pelo qual você pode escolher, no seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.

    Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou um sistema biométrico de pagamento nas bombas de gasolina.

    Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou uma bilha de gás muito leve que já ganhou prémios internacionais.

    Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, permitindo operações inexistentes na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos.

    Eu conheço um país que revolucionou o sistema financeiro e tem três Bancos nos cinco primeiros da Europa.

    Eu conheço um país que está muito avançado na investigação e produção de energia através das ondas do mar e do vento.

    Eu conheço um país que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para toda a EU.

    Eu conheço um país que desenvolveu sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos às PMES.

    Eu conheço um país que tem diversas empresas a trabalhar para a NASA e a Agência Espacial Europeia.

    Eu conheço um país que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas.

    Eu conheço um país que inventou e produz um medicamento anti-epiléptico para o mercado mundial.

    Eu conheço um país que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça.

    Eu conheço um país que produz um vinho que em duas provas ibéricas superou vários dos melhores vinhos espanhóis.

    Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamento de pré-pagos para telemóveis.

    Eu conheço um país que construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade pelo Mundo.

    O leitor, possivelmente, não reconheceu neste país aquele em que vive… PORTUGAL.

    Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.

    Chamam -se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Out Systems, WeDo, Quinta do Monte d’Oiro, Brisa Space Services, Bial, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Portugal Telecom Inovação, Grupos Vila Galé, Amorim, Pestana, Porto Bay e BES Turismo.

    Há ainda grandes empresas multinacionais instalada no País, mas dirigidas por portugueses, com técnicos portugueses, de reconhecido sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal e a Mc Donalds (que desenvolveu e aperfeiçoou em Portugal um sistema que permite quantificar as refeições e tipo que são vendidas em cada e todos os estabelecimentos da cadeia em todo o mundo.

    É este o País de sucesso em que também vivemos, estatisticamente sempre na cauda da Europa, com péssimos índices na educação, e gravíssimos problemas no ambiente e na saúde… do que se atrasou em relação à média UE… etc.

    É tempo de mostrarmos ao mundo os nossos sucessos e nos orgulharmos disso.

    Nicolau Santos, Director – Adjunto do Jornal Expresso, In Revista “Exportar”

    Comentário por Carlos Silva — Junho 14, 2008 @ 15:46

  9. “A verdade é que a construção europeia, com os seus avanços e recuos, com os seus sucessos e falhanços, com os seus pontos fortes e fracos, tem globalmente contribuido para o avançar do mercado e da concorrencia no conjunto dos paises que a integraram.”

    Um despota iluminado também poderia ter os mesmo resultados. A construção europeia só funcionou assim porque apesar da sua natureza burocrática e anti-liberdades a História estava para lá virada(URSS como inimigo) e também por necessidade de sobrevivência, uma burocracia para se instalar tem de ter cuidado nos primeiros tempos , nada mais. Agora com a História a dar outra volta será instrumento de opressão, controle e menor liberdades em todos os domínios. O sistema de Poder para tal está montado e já tal se verifica. menos liberdade para cada um de nós decidirmos o nosso destino.

    Carlos Silva acha essa lista alguma coisa de especial?

    Comentário por lucklucky — Junho 14, 2008 @ 16:32

  10. lucklucky,

    “Um despota iluminado também poderia ter os mesmo resultados. A construção europeia só funcionou assim porque … a História estava para lá virada …”

    Bom … pelo menos estamos de acordo quanto aos resultados !

    Quanto às causas.
    Não sei se um “despota iluminado” teria obtido os mesmos resultados…
    Mas penso que é certamente mais seguro e prefirivel obte-los através de um processo democratico. Por mais complexo e trabalhado que seja. Mesmo com burocracias, governantes iliberais e catalizadoreres externos. O meio para se chegar a certos objectivos faz parte dos objectivos !

    “Agora com a História a dar outra volta será instrumento de opressão, controle e menor liberdades em todos os domínios.”

    Isso ainda está por demonstrar.
    Esperemos que não.
    Efectivamente, tudo é possivel, o pior e o melhor.
    Mas sou dos que pensam que, apesar de tudo, o Tratado de Lisboa é um instrumento mais adequado do que o actual quadro institucional no sentido de garantir e aprofundar o que já foi obtido em termos da criação e do desenvolvimento de um grande mercado europeu concorrencial.
    Por sinal, é também o que pensam (receiam) muitos dos mais ferozes opositores ao Tratado de Lisboa quando criticam a sua orientação excessivamente “liberal”.
    Fica certamente ainda muito aquém do que os liberais mais impacientes, onde eu me incluo, desejariam.
    Mas a realidade é o que é e o importante é considerar as coisas não em termos absolutos mas antes em termos de alternativas e custos/beneficios de oportunidade.
    A manutenção do “status quo” actual seria o caminho aberto para um cada vez maior enfraquecimento das regras comuns e para um maior fraccionamento do mercado alargado. Seria o regresso aos velhos tempos das politicas nacionais, estatalistas e intervencionistas. Ou seja, mais liberdade para os governos nacionais e menos liberdade para os individuos. No fim de contas, “menos liberdade para cada um de nós decidirmos o nosso destino.” !!

    Por exemplo, se não fossem o Euro e as regras europeias em matéria orçamental, face aos protestos que tem ocorrido e que continuarão a ocorrer devido ao aumento dos preços dos combustiveis, o governo portugues teria certamente aceite baixar os impostos sobre os combustiveis e aumentar ainda mais os subsidios à economia e à população. Os déficits publicos e os desiquilibrios macro-economicos seriam depois tratadas segundo as velhas politicas nacionais de emissão interna de moeda e desvalorização externa !

    Comentário por Fernando S — Junho 14, 2008 @ 19:32


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