O fim do estado de sítio proclamado pelos camionistas – com nova confusão à vista – não alivia. Antes transtorna a triste figura do governo, enquanto líder do estado de direito (?) que se diz que Portugal é, e não ficam boas recordações.
Mas para memória futura vale a pena recordar:
Os preços dos combustíveis estão a subir sem parar: 17,27 por cento no gasóleo e 7,35 por cento nas gasolinas entre Janeiro e Maio deste ano, e nada faz prever que voltem a baixar para preços a que nos habituámos. As razões serão várias, destacando-se o facto de a China e a Índia terem entrado à força no mercado consumidor. A riqueza os ex-países-do-terceiro-mundo pode ser desconcertante para a Europa, mas é uma realidade que se vai acentuar. Assim sendo é de esperar que o aumento de procura leve os preços a subir no futuro, o que é legitimamente antecipado pelos operadores do mercado e faz também subir o preço no presente.
Neste cenário é natural que a economia se ressinta. Um bocado por toda a Europa fizeram-se sentir protestos contra o aumento dos combustíveis. Os lóbis mais fortes (agricultura, pescas, transportes) conseguiram monopolizar os media e a atenção dos governos. Restava saber como iriam estes reagir.
Em Portugal, os primeiros a tomar “medidas” violentas foram os pescadores. Como foram também os primeiros a conseguir apoios, fizeram escola e o caminho estava traçado: bloqueio das entradas dos locais de trabalho, destruição de mercadorias, perseguição dos fura-bloqueio, violência física e verbal e declarações inflamadas de que não se arredaria pé enquanto o governo não abrisse os cordões à bolsa. O governo abriu e as hostes acalmaram.
Depois vieram os camionistas que, porventura por serem mais ambiciosos (não sei se são ou não, o certo que alcançaram mais que os seus colegas do mar), impuseram “formas de luta” mais duras. De ameaças à melhor maneira mafiosa, a apedrejamento de colegas que optavam por trabalhar, viu-se de tudo. A polícia e o governo não quiseram intervir para repôr a ordem pública – na verdade já tinham perdido essa batalha em frente às lotas – e Sócrates optou, mais uma vez, pela negociação – abdicando do princípio do estado de direito que nega o direito de negociação a terroristas.
O resgate pago aos camionistas envolve uma notável clásula que prevê que os contratos entre as empresas de camionagem e os seus clientes fiquem indexados ao preço do combustível. Abriu-se, portanto, a porta para uma lei de bases do transporte terrestre em que é o governo que fixa as condições em que os privados da área podem trabalhar.
Como já foi referido, novos grupos de pressão põem-se a jeito. Os agricultores exigem ainda mais benesses que as que já têm, e taxistas há muito que namoram o milagroso gasóleo profissional. O governo, sabemos, não term cara para usar do monopólio da força que lhe confiamos para manter-nos o mais livre e sossegados possível.
Que havia o governo de fazer? Havia primeiro de fazer impedir a coação e a ocupação das estradas (antes disso da entrada das lotas) a que assistimos, para depois explicar que não se iria sentar à mesa com criminosos. Depois haveria de explicar que a vida está má para todos. Que não será transitória esta subida de preços, e que por isso é expectável que tenha que mudar o plano de negócio das transportadoras. Que pescadores e transportadores eram livres de subir os preços aos seus clientes. Que alguns acabariam por ter de deixar os sectores, mas que seria razoável acreditar, por exemplo, que o preço alto dos transportes fizesse aparecer novos empregos no armazenamento e na produção localizados.
Ainda se se vislumbrasse capacidade nas bancadas da oposição, nada disto seria crítico. Mas não se vislumbra. E assim fica a certeza que o futuro não trará nada de bom para Portugal. A forma como políticos e media aceitaram que sejam pisadas as liberdades individuais na frente de todos é todo um programa de vida. Portugal não está recomendável.
O lamentável é que seja preciso usar a força para o eng. pinto de sousa ouvir a sociedade… agora faltam mais meia dúzia de sectores para que o estado socialista/social democrata abra falência…
Comentário por caodeguarda — Junho 12, 2008 @ 23:43
A oposição é uma caricatura. Os anteriores presidentes do PSD foram ver o jogo da selecção da FPF. Pacheco Pereira faz mais oposição que as bancadas do PSD e CDS juntas.
A chatice é que nos próximos tempos não será só o petróleo, serão também outros bens de primeira necessidade (cereais por exemplo). Os bens pouco diferenciados parecem começar a ter alguma importância.
Além disso as greves (ou lockout melhor dizendo) em Espanha e França também tem consequências cá. Veja-se a fábrica da Autoeuropa a ter que parar (a produção quando retomar parece que vai correr atrás do prejuízo).
Bem há quer diga que os movimentos que estamos a assistir são de facto protofascistas com patrões e empregados de determinados sectores a quererem receber benesses dos restantes membros da mesma sociedade.
E finalmente outros sectores com alguma força podem vir a fazer o mesmo. O governo tem aceite acordos com todos os grupos bem organizados mesmo que inorgânicos (com representação difusa). O grau de violência foi bem mais baixo do que em Espanha e julgo que em parte devido à forte reacção do governo por lá. Quanto à polícia não ter intervido mais se calhar é porque está com falta de pessoal na componente mais musculada. A protecção das embaixadas dos EUA e RU consomem muita gente, por um lado, e as missões internacionais, por outro, devem estar a esticar os efectivos.
Comentário por Carlos Afonso — Junho 13, 2008 @ 13:39
One tem andado a Manuela Ferreira Leite? A tratar do netinho. Lastimável par um Partido que aspira a ser poder. Uma vergonha! Pior que o Meneses. Portugal merece melhor! Rui Rio a Presidente!
Comentário por Carlos Silva — Junho 13, 2008 @ 14:36
Então e eu, e nós os que pagamos isto tudo, quer através do aumento do preço dos combustiveis,0 aumento dos artigos de maior necessidade, o aumento dos impostos, dos medicamentos, de tudo. Como vamos fazer? Vamos também todos para a rua e já.
Comentário por A.Filipe — Junho 13, 2008 @ 15:26
Entretanto estes governam-se…
http://denunciacoimbra2.wordpress.com/2008/06/13/a-politica-e-a-banca/
Comentário por denunciacoimbra2 — Junho 15, 2008 @ 00:01
Está toda a gente a exigir perante uma realidade bem palpável:a malta não consegue sobreviver, mesmo com a treta do utilizador/pagador, ao aumento do preço do crude mas sobretudo ao desenfrear da mama dos impostos e dos chamados custos de produção.
Só de impostos são mais de 60% comparados, por exemplo, com os 14% dos “odiáveis” gringos.
E se no tempo da ponte sobre o tejo e do aproveitamento da oposição da altura,do dr soares, presidente de todos os portugueses, das emissoras tipo PSF ao serviço da indignação, etc etc, ainda se gonseguiu alguma coisa, agora os varas de serviço estão do outro lado…
E é tudo ilegal…
Pobres de nós.
Comentário por Emidio Teixeira — Junho 15, 2008 @ 13:15
Meus caros, resolvi divulgar o texto que se segue da autoria
de Eugénio Rosa ( Economista ).
Por achar do interesse público, dar a conhecer o porquê da cumplicidade entre o Governo Português, e a GALP e sobretudo a ineficácia operativa da Autoridade da Concorrência que, por estar comprometida com o
Governo, apenas serve como sorvedouro de dinheiros publicos e para ocupar os
desempregados e amigos das elites políticas deste país!
*’A Autoridade da concorrência (AdC) acabou de apresentar o seu relatório sobre a formação dos preços dos combustíveis em Portugal. O cálculo dos preço dos combustível à saída da refinaria por parte das petrolíferas (o chamado ‘pricing’) não se faz adicionando os custos suportados pela produção do combustível, que inclui o preço da matéria-prima, que é o petróleo, e todos os custos de refinação, somando depois uma margem de lucro.
*
*As petrolíferas para estabelecerem os preços à saída da refinaria, recolhem os preços dos combustíveis no mercado de Roterdão, e depois os preços de venda dos combustíveis de cada dia aos distribuidores, à saída da refinaria,
são os preços correspondentes aos do mesmo dia da semana anterior verificado naquele mercado do norte da Europa, a que deduzem apenas o chamado desconto de quantidade, que até beneficia mais a própria GALP, pois é ela que detém a maior quota a nível de distribuição (a GALP distribuição).*
*O que a Autoridade de Concorrência devia ter feito, mas não fez, era analisar se a adopção deste tipo de formação de preços se justificava, e se não estaria a determinar lucros especulativos para as petrolíferas à custa dos portugueses? *
*O que a Autoridade da Concorrência devia ter feito, mas não fez, era analisar porque razão o petróleo utilizado apesar de ter sido o adquirido 2,5 meses antes, portanto a preços mais baixos, no entanto na formação dos
preços à saída da refinaria ele é considerado como tivesse sido adquirido na semana anterior?
*
*O que a Autoridade da Concorrência devia ter feito, mas não fez, era analisar porque razão os lucros da GALP só determinados pelo chamado ‘efeito stock’, ou seja, pela razão referida no ponto anterior, tenham aumentado,
entre o 1º Trimestre de 2007 e o 1º Trimestre de 2008, em 228,6%, pois passarem de 21 milhões de euros para 69 milhões de euros?*
*O que a Autoridade da Concorrência devia ter feito, mas não fez, era analisar porque razão a GALP passou a estabelecer os preços dos combustíveis com base nos preços de Roterdão da semana anterior, quando antes estabelecia
com base nos preços de Roterdão do mês anterior, tendo passado depois para quinzenalmente, e agora semanalmente, e é de prever que, com a cobertura deste relatório, se prepare para ser diariamente o que, a concretizar-se, inflacionaria ainda mais os seus lucros com base na especulação à custa dos
portugueses?*
*Na produção dos combustíveis nas suas refinarias, a GALP utiliza petróleo adquirido, em média, 2,5 meses antes, portanto a preços mais baixos, o que permite que obtenha elevados lucros extraordinários.*
*Em Portugal, entre Dezembro de 2007 e Maio de 2008, de acordo com a Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia, o preço da gasolina 95 aumentou 9,6%; do gasóleo 19,9%, do gasóleo colorido 29,6% ; e do gasóleo de
aquecimento 30,3%. Como o petróleo utilizado na produção dos combustíveis vendidos em Maio de 2008 foi o adquirido em Março de 2008, isto significa que o preço do petróleo utilizado aumentou apenas 6,9% em euros, pois foi esta a subida verificada entre Dezembro de 2007 e Março de 2008. É esta disparidade que permite às petrolíferas embolsarem elevados lucros à custa dos portugueses, que a Autoridade da Concorrência devia ter analisado, mas não o fez.*
*Em Maio de 2008, os preços dos combustíveis em Portugal eram superiores aos preços médios da UE15, que é constituída pelos países mais desenvolvidos da União Europeia, em cerca de 2% (Gasolina95: +2,4%; gasóleo: +2%; Todos os
combustíveis: +2,2%). Por outras palavras, Portugal é o país menos desenvolvido deste grupo de 15 países, com remunerações e rendimentos mais baixos, no entanto os preços a que são vendidos os combustíveis em Portugal
são superiores aos preços médios da UE15. *
*É estranho que a Autoridade da Concorrência não tenha encontrado nada de anormal neste disparidade de preços sem impostos, e afirme que ‘entende não existirem também indícios de uma prática de preços excessivos’ (pág. 78 do
Relatório da AdC).*
*Tudo isto é estranho, muito estranho mesmo, e carece de uma explicação muito clara. O Governo ao aprovar este Relatório da AdC está também a ser conivente com toda esta situação.’
Comentário por Ju — Junho 19, 2008 @ 17:19
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