O Insurgente

Junho 10, 2008

Go Ireland, go!

Filed under: Comentário,Internacional,Política — Michael Seufert @ 14:07

A possibilidade, para mim é esperança, de que o Não possa ganhar o referendo europeu na Irlanda, permite que se volte a perceber a anestesia dos líderes europeus face aos seus povos. Começam a lembrar os reis medievais perdidos nos seus castelos, longe da realidade.
Sendo certo que há argumentos que a campanha do Não usa na Irlanda que não são muito canónicos, tem graça ver a ameaça que o eurodeputado  Eoin Ryan deixa no ar se as pessoas ousarem votar Não: «Ryan nota que “ninguém sabe o que pode acontecer”, se o “Não” ganhar. “O resto da Europa pode simplesmente dizer que quer seguir em frente sem a Irlanda.”» Não Mr. Ryan, não pode. Não pode porque é nos irlandeses que resta a unica hipótese de os europeus serem ouvidos. Se o Não ganhar, esse Não não é só da Irlanda, é meu também. Os burocratas quiseram seguir em frente sem as pessoas, os irlandeses podem agora simplesmente dizer que não.

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Se o ‘Não’ acontecer de facto, então, a Irlanda terá de voltar à Europa e explicar porque é que votou contra e eu não sei se conheço as razões que levariam as pessoas a chumbar este tratado. É exactamente o não-saber-nem-querer-saber, que mais me preocupa. Bruxelas não é no centro da Europa. Bruxelas está muito longe da Europa.

A Europa que conseguiu juntar a uma mesa alemães e franceses, que afastou do seu interior a guerra, que permite a livre circulação de pessoas e bens, que uniu os sistemas monetários é uma Europa que durou 50 anos a fazer. Com baby-steps. Com unanimidades que não permitiram satisfazer os sonhos megalómanos de uns, mas que obrigaram a trade-offs, para que todas as partes se pudessem sentir satisfeitas com o avançar do “projecto europeu”. O problema é quando o projecto europeu passa a ser o projecto de Bruxelas. É que pouco importaria a natureza do tratado (mas importa, importa perder competência em áreas como a justiça ou a imigração, importa haver uma “escalator clause“, importa que passe a ser prioridade da UE combater as alterações climáticas, importa muito mais), pouco importaria a natureza do tratado mas importa muito os bruxelistas acharem que se devem dar tantos passos duma só vez sem consultar as populações. Mas é claro, «não sei se conheço as razões que levariam as pessoas a chumbar este tratado», por isso why bother ask… Mais do que o próprio tratado, julga-se também as atitudes dos bruxelistas. O voto é mesmo assim, cada um sabe porque dá o seu. Para mim, a arrogância de Sérgio Sousa Pinto no Prós e Contras vale meio voto não.

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Concordo plenamente com o Gabriel Silva, acerca do pretexto para este tratado: Qual crise? As instituições tem funcionado plenamente. (…) O que alguns pretendiam, isso sim, era dotar a UE de instituições diplomáticas e militares, transformando uma aliança de Estados num agente intervencionista a nível internacional. Imperialismo, puro e duro. Alguns povos que tiveram o privilégio de se pronunciar sobre a coisa recusaram. E os irlandeses parecem indiciar o mesmo caminho. Resta-nos agradecer-lhes.

Nesse sentido: Go Ireland, go! Kick some ass and vote No!

1 Comentário »

  1. Exactamente! Ainda está a tempo de dar uma palavrinha aos irlandeses aqui:

    http://notolisbontreaty.blogsome.com

    Quiçá, a democracia ainda poderá vir a agradecer-lhe. ;)

    Comentário por zedeportugal — Junho 10, 2008 @ 18:19


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