Não vou comentar aqui a opinião expressa pelo Corcunda sobre Paulo Teixeira Pinto, mas não quero deixar de fazer uma clarificação face ao último parágrafo deste post, que toca num ponto que é – para mim – bastante mais importante.
A minha breve (e não irónica) referência ao talento desaproveitado do Corcunda não tem por base uma sugestão de que o pragmatismo deveria prevalecer sobre os princípios. Aliás, uma das razões pelas quais acho que há desaproveitamento de talento é precisamente porque os textos do Pasquim não caem geralmente no erro de subordinar os princípios à tirania curva do pragmatismo.
O que lamento (e, confesso, chega ocasionalmente a irritar-me quando o leio) é que os inegáveis (e infelizmente raros) recursos intelectuais do Corcunda sejam por vezes colocados ao serviço de caminhos ideológicos errados ou minados pelo que me parecem ser princípios inadequadamente assimilados.
Parte do desaproveitamento talvez advenha da frequentemente evidenciada (de forma explícita ou implícita) ausência de dúvidas, que pode facilmente conduzir a um excesso de certezas que potencia o laxismo intelectual, mesmo em mentes brilhantes. Por vezes penso que, com uma boa dose adicional de cepticismo, teríamos um Corcunda liberal (clássico, bem entendido), mas talvez seja apenas wishful thinking da minha parte (ou um efeito dos meus próprios preconceitos, não necessariamente verdadeiros).
Em qualquer caso, o ponto central da minha clarificação (e razão de ser deste post) é que o desaproveitamento a que me refiro não tem implícito um elogio do pragmatismo. A existência terrena é demasiado curta para perder tempo a curvar a mente ou cavalgar – com maior ou menor habilidade – tigres, actividades que não me ocorreria recomendar a alguém cujos textos, apesar das discordâncias, prezo como poucos.
[...] Política, Teoria — André Azevedo Alves @ 9:48 pm Uma excelente resposta do Corcunda a este meu post: Sociedade de Dúvidas e a Ideia [...]
Pingback por Os dogmas do liberalismo « O Insurgente — Maio 30, 2008 @ 21:48