Enquanto ouvia o discurso ontem proferido por David Cameron, líder do Partido Conservador britânico, não pude deixar de pensar nas semelhanças entre o que ele estava a dizer e o que tem dito a candidata a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite. À primeira vista, não poderia haver um par de pessoas tão diferentes entre si: Ferreira Leite é “intransigente”, “dura” e, “por isso”, tem “má imagem” (pessoalmente, acho que é “por isso” que tem melhor “imagem” do que se pensa), enquanto Cameron é de “falinhas mansas”, “jovem”, “moderno” e “amigo das câmeras de televisão”. Mas com um bocadinho mais de atenção, essa primeira impressão começa a dissipar-se. Em primeiro lugar, eu tenho vindo a insistir que a promoção da “imagem” de Cameron, ao contrário do que todos dizem, é precisamente aquilo que ele faz de pior, e que as suas ideias (ou algumas das suas ideias, principalmente as que dizem respeito à relação entre o Estado e os cidadãos na prestação de determinados serviços), são o que de melhor ele tem para oferecer. Em segundo lugar, porque se prestarmos atenção ao que ambos dizem, as semelhanças saltam à vista.
Veja-se o discurso de ontem: afirmou que “after a decade of reckless spending under Labour, Britain needs good housekeeping from the Conservatives. We need to start living within our means”; que “we have reached the limits of acceptable taxation and borrowing” and must now “create the space for cutting tax“; que “the first way in which we will control public spending is to reduce the long-term demands on the state. We need to tackle the causes of the social problems that give rise to public spending in areas like welfare and crime. That means taking forward the work that began with Iain Duncan Smith’s magnificent Policy Group report, Breakthrough Britain”; que “we will control public spending is by carrying out the work that was the great missed opportunity of the Blair and Brown years - proper public service reform. Unlike the Labour Party, there is no internal feud or ideological war preventing us from carrying out the reforms that everyone knows are needed”; e finalmente, que “the third component of our strategy is cut out waste and make government more efficient”.
Tal como Cameron, Manuela Ferreira Leite acha que o país não pode gastar mais do que tem (Cameron também está “obcecado” com o défice). Tal como Cameron, Ferreira Leite acha que o Estado está a “sufocar” a “sociedade civil”, e tal como Cameron, acha que é necessário cortar a despesa pública para depois se poder baixar os impostos. Tal como Cameron, parece achar que essa tarefa passa pela mudança da forma como o Estado se relaciona com os cidadãos. E acima de tudo, tal como Cameron (veja-se o que escreve Daniel Finkelstein), não faz promessas concretas, limitando-se a “pintar” um quadro muito geral do que pensa dever ser essa relação: se é verdade que Cameron, ontem, já anunciou algumas coisas mais concretas, seria bom notar que isso acontece dois anos depois da sua conquista da liderança, e depois de muito trabalho (dele e do seu antecessor, figura a que Ferreira Leite deveria prestar muita atenção) para credibilizar o seu partido aos olhos dos eleitores.
Claro que os leitores poderão apontar um problema a esta minha comparação: Cameron e Ferreira Leite falam ambos da necessidade (teórica) de impostos mais baixos, mas enquanto Cameron nunca esteve no Governo, Ferreira Leite já foi Ministra das Finanças e aumentou-os, o que a desqualificaria de ser a voz de um “partido dos impostos baixos” (como Cameron diz ser). Mas este raciocínio hipotético que certamente passou pela cabeça de muitos leitores tem também ele um problema: como ela própria já explicou, Manuela Ferreira Leite aumentou os impostos numa situação de emergência. A Comissão Europeia dera a Portugal um ano para baixar o seu défice público, enquanto a Sócrates, por exemplo, de acordo com as novas regras entretanto adoptadas, foi dado um prazo bastante mais alargado: Ferreira Leite aumentou o IVA de 17% para 19%, enquanto Sócrates, numa situação de muito menor urgência, aumentou-os ainda mais de 19% para 21%. É verdade que Ferreira Leite não cortou a despesa pública em grau suficiente, mas é preciso não esquecer que foi corrida do Ministério pela chegada de Santana Lopes, e a sua política foi deixada a meio. A insistência dela na necessidade de cortar a despesa leva a crer que ela o poderia ter feito se tivesse continuado no Governo, tal como o facto de dizer que, como as circunstâncias actuais são diferentes das de 2002, não voltaria a aumentar os impostos. Mais uma vez, o leitor objectará: mas Ferreira Leite já disse que foi um erro baixar o IVA agora. Mais uma vez, o raciocínio do leitor tem um problema: baixar o IVA agora foi um erro porque a despesa não está controlada, e essa é a crítica de Ferreira Leite. Só se poderão baixar os impostos depois de baixar a despesa, e desde 2004 até hoje, apenas temos estado a perder tempo. Tal como o Reino Unido tem estado a perder tempo com as políticas de Gordon Brown. Se o leitor acha que David Cameron é um político que faria falta a Portugal, abstraia-se da “imagem”, da “modernidade” e da “juventude”: olhe para o que ele diz, e verá que não há ninguém em Portugal mais parecido com ele do que Manuela Ferreira Leite.
‘Olhei para o que ele diz’, e continuo a ‘ver que não há ninguém mais parecido com ele’ do que Passos Coelho…
Veja algo que contradiz o seu artigo:
“Manuela Ferreira Leite, candidata à liderança do PSD, considerou ontem à noite, em Coimbra, que o problema prioritário de Portugal é de natureza social e “não de contas públicas”, alertando para o aumento do desemprego e o surgimento de “novos pobres”. (…)
“Não sou populista nem liberal”, salientou, definindo-se como “muito social-democrata” e defendendo “um partido humanista e interclassista”.”
*in http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1329355
Comentário por L — Maio 20, 2008 @ 5:48 pm
Se Mr.Cameron e Manuela Ferreira Leite são parecidos é quando muito porque Mr.Cameron é só conversa.
Comentário por lucklucky — Maio 20, 2008 @ 7:24 pm
Caro L.,
leia os discursos de Cameron sobre a “Broken Society”, e verá como essa preocupação com o “social” é apenas e só mais uma das parecenças…
Comentário por Bruno Alves — Maio 20, 2008 @ 9:32 pm