O Insurgente

Maio 17, 2008

O Nargis e a importância da Birmânia para a China

Filed under: Internacional,Política — André Azevedo Alves @ 01:45

O Índico depois do ‘Nargis’. Por Miguel Monjardino.

O isolamento político e económico a que os países da União Europeia e os EUA votaram a Birmânia nas últimas décadas deixa-os sem meios para pressionar o seu brutal Governo. Os últimos dias tornaram claro que a China é um dos poucos países com real capacidade para pressionar o regime do general Than Shwe. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, por exemplo, encorajou esta semana os decisores da Birmânia a “cooperarem com a comunidade internacional”. À primeira vista, a frase parece mostrar que Pequim partilha das preocupações de Washington e Paris em relação ao que está a acontecer na Birmânia. Infelizmente para os birmaneses isto não é bem assim. A frase mostra o interesse de Pequim em ver o regime birmanês começar a reconstruir o país. Numa fase inicial, tal só pode ser feito com ajuda externa. Para a liderança chinesa, esta ajuda, desde que devidamente supervisionada, é a melhor maneira de evitar o colapso do regime militar que tem governado a Birmânia desde há décadas. A acontecer, este colapso seria um desastre para a China. Tal como acontece com o Tibete, os europeus tendem a ver a Birmânia como uma questão dos direitos humanos e da democracia. Para os decisores chineses, todavia, a Birmânia é essencial por razões bastante diferentes.

Ao longo dos últimos anos, o Oceano Índico tem vindo a transformar-se numa verdadeira auto-estrada energética e comercial para a China. Os laços entre o mundo árabe e persa e Pequim são cada vez mais fortes. Nas próximas décadas estes laços serão ainda mais fortes. O problema é que as linhas de comunicação chinesas com o Índico são dominadas pelas marinhas dos EUA e da Índia. Do ponto de vista estratégico, Pequim precisa de garantir o acesso a este Oceano o mais rapidamente possível para evitar um futuro estrangulamento naval norte-americano nas zonas de acesso ao estreito de Malaca. Um olhar para o mapa, mostra-nos que a Birmânia, com o seu crucial Golfo de Bengala, é uma das melhores maneiras de conseguir este objectivo. Por isso mesmo, Pequim tem vindo a construir discretamente uma série de bases navais, portos e postos de vigilância e escuta na costa birmanesa.

A Birmânia é também essencial para o desenvolvimento regional da China. O país fornece grandes quantidades de madeira, pedras preciosas e gás natural para alimentar o enorme crescimento da economia chinesa. A estrada que está a ser construída entre a província chinesa de Yunnan e o Golfo de Bengala, mostra que a Birmânia está intimamente ligada ao desenvolvimento regional das províncias mais pobres do interior da China. O ‘Nargis’ revela-nos a crescente importância do Índico e da Birmânia para a China.

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