O Insurgente

Maio 16, 2008

Crise ou mudança?

Arquivar em: Comentário, Cultura, Economia, Internacional, Política, Portugal — Rodrigo Adão da Fonseca @ 00:50

Durante anos a fio, fomos ouvindo falar na ‘globalização’, mas sempre olhando para o fenómeno com algum distanciamento, como se esta se situasse numa dimensão, apesar de tudo, um pouco afastada de nós, traduzida, numa realidade, sim, mas com a qual conseguíamos manter uma certa equidistância. Durante anos, também, fomos acreditando, whisful thinking, que a globalização era um fenómeno ‘modelável’ e ‘gerível’ nas fronteiras de cada um dos países, susceptível de ser condicionada pela acção política.

2007, e até agora, 2008, têm ajudado a acabar com algumas ilusões. A ‘globalização’ entrou-nos pela porta dentro sem pedir licença, mostrando-nos, abruptamente, que talvez já seja hora de abandonarmos certas mistificações; a ‘globalização’ – entendida como a expressão que dá corpo às diferentes manifestações, interacções e sínteses, nem sempre alinhadas e quantas vezes contraditórias, ocorridas num mundo integrado em constante reinvenção e movimento – tem vindo a impor as suas racionalidades, sem fazer perguntas, nem pedir licença; a sua não compreensão dá lugar a inúmeras perplexidades, pois tentamos explicar o que não percebemos; à falta de solução mais válida, apelidamos as novas realidades de ‘crises’.

A grande ‘crise’, porém, não é conjuntural, como o são a dos mercados financeiros ou dos alimentos, nem reside nos ajustamentos drásticos a que o mundo está sujeito. O nosso maior problema assenta na incapacidade de compreender e acompanhar a mudança, em perceber que o mundo está diferente. Esta incapacidade é estrutural, e radica na forma como nos relacionamos com o futuro e nos habituámos a ver a realidade. Os modelos económicos e políticos que dominaram o século XX, assentes no comunismo, nos socialismos e nas sociais-democracias criaram-nos a convicção que o mundo se podia gerir com planos, e que a acção humana seria capaz de suprimir, em grande extensão, a incerteza que está necessariamente associada ao futuro. Ecce Homo, que iria ser capaz de construir sociedades igualitárias e perfeitas.

Se há, contudo, ideia que caracteriza adequadamente o nosso tempo, ela é a de ‘complexidade’; o planeta começa a fugir ao Ecce Homo, parece que gira cada vez mais rápido, a uma escala e com um nível de integração e interacção que o torna imprevisível; todas estas dinâmicas globais forçam o indivíduo a confrontar-se com as suas limitações; o homem, no século XXI, perdeu as certezas, estando cada vez mais afastado dos seus antepassados racionalistas, dos ‘cientistas sociais’, e de todos aqueles que se sentiam capazes de apreender a ‘essência do real’ apenas através da razão; as visões cartesianas persistem, mas, elas sim, estão hoje em crise, já que as suas respostas laboratoriais – completas, translúcidas, transparentes, capazes de funcionar como cartilha ideológica – chocam com a realidade e com os processos continuados e acelerados de mudança. O mundo exprime-se numa nova e mutável catalaxia, que se vive, mas que nem sempre se observa, pois a sobreposição de imagens e a amplitude espacial em que estas são produzidas e exibidas estão para lá do nosso reduzido ‘alcance visual’ (da nossa capacidade de apreensão e conhecimento): hoje, o ‘olho humano’ é incapaz de perspectivar a globalidade; mais do que nunca, observamos o mundo por um ‘monóculo’, produzindo pensamentos fechados sobre a realidade. Ninguém se atreve a antecipar com certezas o futuro e, com frequência, as análises e projecções falham, ultrapassadas pelas racionalidades caprichosas da ‘globalização’ [leia-se, deste mundo integrado em constante reinvenção e movimento], da qual fazemos parte integrante, da qual não conseguimos fugir – nem sequer dominar ou condicionar.

Será que somos capazes de evoluir na forma como nos relacionamos com o mundo – cada vez mais integrado, diversificado, contraditório e imprevisível – e com o futuro, aprendendo a viver com uma elevada dose de incerteza, conscientes que não é possível anular o risco, ou vamos continuar a insistir nas velhas receitas, rígidas, inflexíveis, que não se adaptam às mudanças, iludidos na perseguição de uma falsa ideia de segurança?

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