Quando o Dr. Louçã fala pacatamente da questãozinha do Darfur, a guerra não vibra por aí além.
Mas quando se refere por exemplo à “Cimeira da Guerrrra”, a “guerrrrra” reverbera numa prolongada vibração que comunica aos embasbacados fiéis o quanto o Dr. Louçã se indigna com tão horrífico assunto.
Ao notar o fenómeno, pensei que fosse apenas um sotaque regional, como os “bbb” do Norte ou os “xxx” da Beira Alta.
Mas depois reparei que a vibração linguo-palatal só era usada em certas circunstâncias, de especial gravidade, e percebi que havia ali algo de profundo e inovador, talvez até uma verdadeira fonética da indignação, susceptível de inflamar os fiéis e os fazer comungar nos êxtases colérico-místicos do Dr. Louçã.
Há dias ouvi uma homilia do Dr. Pureza, (fui apanhado no carro de um amigo e não quis parecer mal-educado mudando de estação) e eis senão quando, a propósito de já não sei que importantíssimo assunto, o Dr. Pureza, arremeteu com uma formidável “guerrrrra” que, na minha opinião de entendido, está perfeitamente à altura das “guerrrras” do Dr. Louçã, chegando mesmo a superá-las em momentos de virtuosa execução.
Há assunto para uma tese.
Os dirigentes do BE parecem usar a vibração linguo-palatal em assuntos “guerrrrreiros”, da mesma forma que o Operário Jerónimo imita as mudanças de tom características do saudoso Dr. Cunhal.
Trata-se portanto, não só de uma mera fonética da indignação, como erradamente pensei a princípio, mas também da marca inconfundível dos líderes. Eu, se fosse o Dr. Louçã, mantinha o Dr. Pureza em rédea curta e sempre debaixo de olho.
Pelo menos até à próxima purga.
Maio 13, 2008
Os êxtases guerrrrrreiros da extrema-esquerda caviar
5 Comentários »
RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Os meus rr também são vibrados, seja qual for a guerra… Creio que é o r português original, tal como os erres do Espanhol e do Italiano. Li algures que o r francês que hoje se ouve mais que o antigo e original entrou na moda cá por causa da rainha D. Amélia. Um pouco, digo eu, como os esses finais chiados à portuguesa entraram em uso no Rio de Janeiro aquando da permanência da corte portuguesa lá.
Mas o que é engraçado é que tanto Louçã como Jerónimo de Sousa têm um erre vibrado nos erres em final de sílaba como na palavra governo, que pronunciam “goverrno”. Ora isto é que tem piada, já que ninguém fala assim.
Mas antes isso do que a porcaria que os lisboetas em geral dizem em vez do r fraco (como em parar, caro, etc.), uma espécie de g. A quantidade de gente que no Sul diz mal os erres é impressionante. Aliás, o sotaque lisboeta em geral é-me insuportável. Os meus sotaques preferidos são o algarvio e o minhoto (não confundir com o portuense, de que também não gosto).
Comentário por LPedroMachado — Maio 14, 2008 @ 01:15
Concordo com Pedro Machado, Mas acho piada à pronúncia lisboeta de duas ex-portuenses (Judite de Sousa e Fátima Campos Ferreira). Os seus “Almááaidas,fááaitos, lááais”…são de um lisboetismo a toda a prova. Fazem-me lembrar, mas para pior, os emigrantes da década de sessenta para França que, passado pouco tempo depois de lá chegar,já só sabiam arranhar algaraviadamente um francês de exportação.
Comentário por anonimo — Maio 14, 2008 @ 10:41
Interessantíssima questão, a qual me parece não se limitar a “mera fonética da indignação”, como diz, podendo mesmo remeter para um âmbito mais alargado – uma espécie de idiossincrasia cratilista. Ou seja, a linguagem específica (e imutável) da esquerda (a esquerrrrrrda) , cuja pronúncia se arrevesou com o tempo e o modo. Note-se que, por exemplo, além da guerrrrra, muitos outros étimos se fixaram na Língua esquerrrrdista, e com iguais sonoridades esquisitas, ou com a mesma série de fenómenos fonéticos associados: por exemplo, em “trblhdorej” (trabalhadores) ou em “fassssistaj” (fascistas), com todas as “derivações” daí resultantes.
“Há assunto para uma tese”, de facto. A antiquíssima e controversa dicotomia physis-nomos/physis-thesis teria tudo a ganhar, em termos de esclarecimento, com a investigação científica (séria) da cavidade bucal do Dr. Louçã e sua relação intrínseca com a cárie mental.
Comentário por JPG — Maio 14, 2008 @ 15:13
«… o sotaque lisboeta em geral é-me insuportável.», Maio 14, 2008 @ 1:15 am
Já eu, por exemplo, o sotaque nordeste a nível de gajas dá-me uma certa pica.
Comentário por AS — Maio 14, 2008 @ 17:05
É uma espécie de crepitar abafado de metralhadora a matar a fome do povo na Ucrânia, em 1933 (ou quiçá no Cambodja um pouco mais tarde para mostrar as maravilhas do Trotskismo).
Comentário por A. R — Maio 14, 2008 @ 21:40