O nosso André Amaral faz, no blog da Atlântico, alguns comentários ao que aqui tenho escrito sobre o PSD. O André diz, com razão, que apoio Ferreira Leite por esta ser “a única candidata” (dos que avançaram, acrescento) que “pode dar uma imagem de credibilidade ao PSD e que só depois do partido ser tido como credível estará em condições de apresentar um discurso liberal”. Mas engana-se ao dizer que eu me esqueço “que a credibilidade não se ganha expondo medalhas e mostrando o curriculum“, e de que “a credibilidade política é ainda um conceito mais amplo que a seriedade e a competência.” E engana-se porque, embora essa possa ser a retórica da candidatura de Ferreira Leite, não são essas as razões apontadas por mim para o meu favorecimento da sua candidatura. Interessa-me pouco a competência de Ferreira Leite, como pouco me interessa a suposta falta de experiência de Passos Coelho. Tal como não vejo Passos Coelho como a “modernidade” feita homem, e Ferreira Leite a “credibilidade” feita mulher. Acho é que a candidatura de Ferreira Leite tem melhores condições para tornar o partido credível aos olhos dos eleitores do que a de Passos Coelho: Ferreira Leite e apoiantes seus, figuras destacadas da sua candidatura, como Pacheco Pereira e Rui Rio, são muito críticos das regras de funcionamento interno introduzidas por Menezes, enquanto Passos Coelho disse ao Correio da Manhã que essas regras são para manter. Como eu acho que sem essa “volta” ao interior do partido não se pode “dar a volta” ao país, prefiro alguém que pareça disposto a mudar o que eu acho que tem de mudar. A “personagem” Ferreira Leite ou a personagem “Passos Coelho” , sinceramente, pouco me interessam: deposito a minha confiança em Ferreira Leite por esperar dela o regresso a política de credibilização do partido (falo do partido, e não pessoa que o lidera) que Marques Mendes vinha a conduzir, que eu elogiei e defendi logo na altura, que Manuela Ferreira Leite apoiou, e que Passos Coelho criticou por ser demasiado “virada para dentro”. Embora perceba as razões que levam Passos Coelho a dizê-lo, entendo que ele está enganado, e que o PSD tem mesmo de se virar para dentro e mudar muito, para mudar o país. Defendi há dias que Ferreira Leite deveria ser a “Michael Howard do PSD”. Já havia dito o mesmo em relação a Marques Mendes, e só lamento que se tenha perdido tempo com Menezes. Espero que já não seja tarde de mais.
No entanto, devo dizer que acho bastante injusto da tua parte, André, que digas que Ferreira Leite “se apresenta na política não apresentando uma opção”, uma alternativa, e que portanto, “não é credível porque não acrescenta nada de novo. Não é credível porque se reduz a uma cópia. Não é credível porque joga com a incompetência dos adversários, ao invés de acreditar nos seus trunfos”. E é injusto dizeres isto pois Ferreira Leite não se limita a dizer que fará o que Sócrates faz, mas “com mais competência”: na sua entrevista à RTP, criticou aspectos da política de Sócrates, e não apenas a sua execução; tal como nessa entrevista defendeu um modelo de sociedade com menos Estado e mais liberdade para a sociedade (na sequência, aliás, do que vem dizendo há anos. Veja-se o exemplo da moção ao Congresso do Pombal). Dir-me-às que é demasiado genérico. E eu posso aceitar que seja, mas Passos Coelho diz o mesmo, e tem para mim o defeito de não se ter oposto às regras internas do partido. Podes-me também dizer que Passos Coelho, ao contrário de Ferreira Leite, faz propostas “concretas”. Que Passos Coelho, ao apontar medidas “concretas”, permite que se faça uma escolha mais consciente. Esta é, aliás uma discussão que já tivémos aquando da corrida para a liderança do Partido Conservador britânico: inclinei-me para David Cameron no preciso momento em que David Davis propôs um corte nos impostos num determinado montante específico. Achei, nessa altura, que fazer propostas concretas com tanta antecedência era convidar os eleitores a suspeitarem da sua sinceridade, pois não há meio de saber que condições haverá para as aplicar, quando e efectivamente se chegar ao poder. É por isso que acho que Ferreira Leite tem razão ao não querer fazer promessas concretas, sem ter a certeza de que as pode cumprir. Ela deve ser bem explícita no modelo de sociedade que defende (mais Estado, menos estado, Estado em que actividades, com que funções), e de facto, talvez peque por não o ter feito tanto como eu gostaria, mas não deve cair no erro em que caiu David Davis. Aí sim, perderá “credibilidade”, pois ninguém levará a sério essas promessas.
O André termina perguntando-me se “não será qualquer pequeno esforço, qualquer pequeno passo no sentido da liberalização do Estado, um passo a valer a pena? Uma oportunidade a não perder?” Eu respondo-lhe que sim: apenas entendo que esse esforço terá forçosamente de passar pela reforma interna do PSD, e visto que Passos Coelho parece não ter consciência disso, temo que ele não seja a “oportunidade” a que fazes alusão. Se Passos Coelho ganhar e eu estiver enganado acerca dele, serei o primeiro a ficar contente com isso. mas se ele ganhar e eu estiver certo, ele não durará muito tempo, pois o “partido autárquico não hesitará em puxar-lhe o tapete, e deixando o PSD de desempenhar o papel de voz da mudança que tem desempenhado na história da democracia portuguesa, não teremos mesmo nenhuma oportunidade de dar qualquer “pequeno passo no sentido da liberalização”.
Houvesse mais pessoas com a frontalidade de dizer o que pensam…
Comentário por Nélson Faria — Maio 13, 2008 @ 16:25
[...] Arquivado como: Comentário, Política, Portugal — André Abrantes Amaral @ 12:15 pm O Bruno responde ao meu ‘post’ sobre o PSD e Manuela Ferreira Leite explicando que o papel de Ferreira Leite [...]
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[...] como: Comentário, Política, Portugal — Bruno Alves @ 10:08 pm O André responde ao meu post, dizendo que “os objectivos de Ferreira Leite são pouco ambiciosos, o que pode ser [...]
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