A FACE. Por José Pacheco Pereira.
Eu percebo que se apouque esta realidade, que se ache pouco falar de verdade, de seriedade, de credibilidade. Devem de facto abundar tanto, que só podemos lamentar o excesso. Quem a não tem despreza-a, quem não pode competir neste campeonato, para usar a linguagem futebolística de alguns, compete noutros. Têm “ideias”, uma lista de vacuidades com que todos estamos de acordo e que não adiantam nem atrasam. Como o grau de crítica circulante nos media é escasso, basta este exercício para se parecer que se diz alguma coisa de novo. Épater le bourgeois é simplicíssimo.
Mas há pior, que é fazer uma lista de medidas governativas daquelas que eu posso sempre fazer numa noite, meio tiradas dos jornais, meio atiradas numa conversa de restaurante, e chamar-lhe um “programa de governo”, um “projecto para o país”. Pobre país com estes “projectos”, sem “contabilista”, que o deixariam, como algumas câmaras municipais, anos e anos paralisadas para pagar a festa, as piscinas, os centros de congressos. Dêem-me dinheiro sem “contabilidade” e até eu, um não-fazedor a não ser de livros, farei um bom par de piscinas e uma festinha da moda.
Por tudo isto, agradeço aqui ao realizador da entrevista da RTP que não sei quem é. Fez a melhor das propagandas, mais rara, a mais difícil de fazer, a que não se encomenda, a que não se coreografa, a que não se imita. Fez da fragilidade uma força imensa. Não sei se chega para ganhar eleições no PSD, estou até mais convicto que chega mais facilmente para ganhar eleições no país, tão grande está o divórcio entre o partido e o país, mas estou de bem com esta maneira de ser. É o que mais faz falta.