Só se estranha pelo tempo que demorou
A vereadora da Câmara Municipal de Lisboa Helena Roseta sugeriu hoje, num debate em Coimbra, que o futuro Plano Estratégico da Habitação, incorpore a figura da requisição pública de imóveis devolutos.
(…)
A autarca referiu que em Inglaterra se prevê a requisição de imóveis devolutos para fins habitacionais, por cinco anos, após várias notificações aos proprietários para promoverem a sua ocupação.
Na sua perspectiva, não se trata de expropriações, mas de requisição temporária, e o Plano Estratégico da Habitação que o Governo pretende aprovar até ao final do corrente ano poderia adoptar essa figura e definir as contrapartidas para os proprietários.
Efectivamente é só isto que falta.
Depois de, por via legal e da prática jurídica, se ter transformado o arrendamento praticamente num direito real de propriedade, de se passar a conta do “direito à habitação” aos proprietários dos imóveis e de se ter por conseguinte desertificado e entregue à ruína os mais nobres centros das cidades, é deste género de “experiências” que esta gentinha se ocupa. Do total desrespeito pela propriedade e pela vontade dos seus legítimos proprietários, que pagaram bom dinheiro por ela. Sem se questionarem sequer do porquê que levará alguém a preferir ter um seu bem votado ao abandono do que ter esperança em dele tirar o seu rendimento legítimo.
Sobre a tal “experiência inglesa”, fica a notícia de 2005, sobre a qual já na altura escrevi.

Eu sou proprietário de uns imóveis devolutos, e não veria com maus olhos essa possibilidade, desde que
1) a requisição pelo Estado fosse temporária e o imóvel revertesse para mim outra vez passados, digamos, 5 anos;
2) o Estado me desobrigasse de pagar IMI pelo imóvel requisitado e não me fizesse pagar nada mais por ele.
De facto, os meus imóveis devolutos são um prediozinho muito velho, a cair e praticamente sem hipóteses de recuperação. Nem de reconstrução, dado que a área que esse prediozinho ocupa é muito pequena e semi-obstrói uma rua. A minha tese é, pois, se o Estado quiser ficar com aquilo e me desobrigar de pagar IMI, nada tenho contra.
Se há imóveis devolutos, isso é, em grande parte, porque nada há de rentável a fazer com esses imóveis. Ora, se o Estado quer pedir emprestados prédios que não são rentáveis, não vejo por que motivo hão-de os seus proprietários objetar.
Comentário por Luís Lavoura — Maio 9, 2008 @ 10:01 am
Ora, se o Estado quer pedir emprestados prédios que não são rentáveis, não vejo por que motivo hão-de os seus proprietários objetar.
Porque esse seu «emprestar» é um eufemismo. A noção de empréstimo pressupõe a liberdade de ambas as partes no sentido desse resultado.
Por outro lado, mesmo que não seja esse o seu caso, está a esquecer-se que o mesmo Estado que pretende, digamos, «tomar emprestados» estes prédios foi ele próprio a origem da falta de rentabilidade dos mesmos.
Comentário por SMP — Maio 9, 2008 @ 10:19 am
SMP, desculpe eu ter, de facto, utilizado um eufemismo.
Quanto à falta de rentabilidade: águas passada não moem moinhos. O prediozinho que eu tenho devoluto sofreu de facto muito com o congelamento das rendas, mas isso são coisas do passado. Temos que encarar o tempo presente. No tempo presente há muitos prédios (não necessariamente prédios que tenham estado arrendados) impossíveis de rentabilizar. O mercado está saturado de casas. Há muitos prédios que, devido à sua tipologia ou localização dificilmente são adaptáveis aos tempos modernos, dificilmente podem ser reconstruídos para serem depois vendidos com lucro. Os seus proprietários estão permanentemente a pagar IMI por uma propriedade que não conseguem rentabilizar. Numa tal situação, pode não ser desvantajoso que Estado pegue nesses prédios e, isentando o legítimo proprietário de quaisquer custas, faça neles algumas obras por forma a poder neles alojar, ainda que temporariamente e ainda que em más condições, algumas famílias. Isso pode não ser desvantajoso, mesmo para o proprietário.
Comentário por Luís Lavoura — Maio 9, 2008 @ 11:36 am
Ó Luís, eu acho que não está a perceber o cerne da questão aqui - daí o tratar como um mero detalhe o tal «eufemismo» de transformar uma requisição em empréstimo.
A questão essencial é que, se o quadro proposto «pode não ser desvantajoso, mesmo para o proprietário», como sugere, não vale a pena o Estado sacar dos seus poderes coactivos para o implementar. Bastará que o sugira, e logo se verá o acolhimento.
Comentário por SMP — Maio 9, 2008 @ 12:36 pm
“A questão essencial é que, se o quadro proposto «pode não ser desvantajoso, mesmo para o proprietário», como sugere, não vale a pena o Estado sacar dos seus poderes coactivos para o implementar. Bastará que o sugira, e logo se verá o acolhimento.”
Exactamente.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 9, 2008 @ 1:09 pm