(também publicado aqui)
A entrevista de Manuela Ferreira Leite a uma Judite de Sousa que não conseguiu esconder a sua antipatia pela entrevistada, permitiu ver alguns sinais positivos na candidatura da ex-Ministra. Em primeiro lugar, Ferreira Leite não deixou de assinalar a frágil condição em que se encontra o partido (ao contrário de Passos Coelho, que ontem afirmou que “a análise” do declínio do partido “estava feita”, e que não “valia a pena falar sobre isso”), e fez questão de não fazer qualquer comentário negativo sobre a liderança de Marques Mendes (mais, afirmou que votou nele), sinal de que reconhece o mérito da reforma interna que o antigo líder laranja estava a fazer (já aqui escrevi que foi a eficácia na reforma interna do PSD, e não a suposta ineficácia na oposição a Sócrates, que levou a parte do partido por ela afectada a “revoltar-se” contra Mendes). Mas acima de tudo, Ferreira Leite não só mostrou compreender a necessidade de que o Estado precisa ser aligeirado, para deixar de “estrangular a sociedade”, como deu exemplos concretos (três, para ser exacto) daquilo que pensa dever ser o comportamento do Estado no seu relacionamento com os cidadãos.
Passos Coelho, por exemplo, defende (e bem) a privatização da CGD. De facto, o Estado não precisa de ter bancos, e como seu apoiante Pedro Marques Lopes explicou há tempos na Atlântico, o seu controlo político abre as portas a muita coisa pouco desejável. No entanto, há outras áreas em que a intervenção estatal afecta as pessoas de uma forma muito mais directa, e que por isso mesmo, deveriam merecer atenção prioritário por parte do PSD. Uma delas é, como bem notou Ferreira Leite, a questão fiscal, em que mais importante que uma descida dos impostos (dependente de muitos factores), seria uma simplificação do sistema que acabe com os “abusos” da máquina fiscal e seja mais atractivo ao investimento. Qualquer eleitor seduzido pela linguagem liberal de Passos Coelho só pode olhar com aprovação para estas palavras de Ferreira Leite.
Mas houve um aspecto em que Ferreira Leite mostrou ser bem mais “liberal” que Passos Coelho: este último não se cansa de dizer (e com toda a razão) que o Estado deve ser “um árbitro”, e por isso, “não deve jogar”. No entanto, na sua entrevista à SIC Notícias, disse que o Estado deveria “apoiar” (já não me recordo se a expressão foi “apoiar” ou “dar incentivos”, mas foi uma das duas) aqueles projectos empresariais que achasse serem mais fundamentais no desenvolvimento do país. Ora, se o Estado apoiar projectos específicos, por muito “fundamentais” que eles sejam, estará a “jogar”, precisamente o contrário do que Passos Coelho diz defender. Hoje, Manuela Ferreira Leite criticou esse mesmo comportamento por parte do Governo socialista, dizendo que para criar incentivos e “beneficiar” as empresas “que escolhe” cria dificuldades às outras que, através dos seus impostos, pagam os subísdios e benefícios fiscais que as outras recebem. Para o Estado ser “um árbitro e não um jogador”, não deve atribuir benefícios a ninguém, deve apenas sair da frente. O candidato que afirmou isto não foi o “liberal” Passos Coelho, mas a “social-democrata” Ferreira Leite. Aqueles que apreciam o discurso liberal de Passos Coelho talvez devessem prestar atenção ao discurso “liberal” que Ferreira Leite, mesmo não se dizendo “liberal”, vai fazendo. Mais do que a etiqueta com que ela se possa sentir mais confortável, interessa o material de que é feita a roupa das suas propostas, e isso parece ir no sentido certo, como a crítica ao comportamento do PS na questão dos certificados de aforro: um árbitro não pode mudar as regras do jogo a meio e, como Ferreira Leite bem notou, prejudicar as poupanças das pessoas apenas para não ter de cortar nas despesas que faz com as suas clientelas na Administração Pública.
O que a entrevista de Ferreira Leite mostra é que, para além de ela dar todas as garantias a quem, como eu, entende ser indispensável uma reforma do funcionamento interno do PSD, Ferreira Leite poderá ser também capaz de oferecer aos portugueses um programa liberal e convencê-los de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.
parecia um interrogatório da judite que ontem mudou de director. fala sempre do passado em lugar de pensar no futuro. prefiro o crespo por ser mais inteligente e por ter um ar bem disposto. a ex-ministra pouco mais podia dizer.
Comentário por balde-de-cal — Maio 7, 2008 @ 23:46
Fiquei a pensar se não terá sido táctico: para captar alguns dos votos do PPC…
Comentário por LPedroMachado — Maio 8, 2008 @ 00:35
Boa entrevista, finalmente MFL diz alguma coisa sobre o que poderá ser o seu projecto de governação para 2009. Pelo menos em termos ideológicos parece-me que o PSD vai ficar mais sólido, tanto com MFL como com PPC.
Comentário por FV — Maio 8, 2008 @ 00:52
… porque é que a grande maioria dos comentadores sempre esquece de debater o facto de que os “elites” foram os que prepararam e municiaram o Sampaio para a golpada de estado em 04/05? se os psds tem memoria curta…só merecem o limbo durante muito tempo mais. Eu a 15 anos sai e não voltoéi pois o Cavaco e staff também são responsaveis em parte pelo sofrimento do povo no presente. O que mais me custa é ver que vamos continuar do mesmo pois a esperança é ZERO. Um governo que destrói o sei povo deveria ser punido e os que colaboram por acção ou omissão também.
Comentário por alice goes — Maio 8, 2008 @ 00:53
http://camaradecomuns.blogs.sapo.pt/127695.html
chutou para canto com um chorrilho de chavões e lugares-comuns da política. Não me pareceu um manifesto liberal, nem esperaria que MFL o fizesse!
Comentário por João Maria Condeixa — Maio 8, 2008 @ 12:06
http://www.militantedebase.blogspot.com/
O aspecto mais interessante da entrevista de MFL á RTP1 foi sem dúvida a visão sobre o acto de governação socialista “Sócrates beneficiou de um aspecto fundamental: não teve ninguém na oposição a dizer-lhe que estava errado. Enquanto eu fui ministra das Finanças tive todo a guerra possível do PS”.
Este facto pode ser visto e interpretado de diversas formas vejamos.
Se por um lado o PS não teve oposição do maior partido da oposição muito se deve e deveu ás guerrilhas no PSD em que vários dos ilustres apoiantes de MFL tiveram um papel nuclear. Por outro se a oposição feita não teve o impacto esperado e merecido deveu-se em grande medida ao tratamento dos media em relação ao PSD e ao CDS-PP e aqui relembro a titulo de exemplo que Pinto Balsemão controla a SIC e o Expresso que muito se têm agora empenhado na credibilização de candidatura de MFL. Daqui se conclui que a própria MFL tem também responsabilidades no acto governativo do partido socialista.
Por outro lado ao dizer “Enquanto eu fui ministra das Finanças tive todo a guerra possível do PS” está somente a fazer-se de vítima, papel que geralmente atribuímos a PSL.
Penso que a entrevista não lhe correu de feição. Não se consegue nem desmarcar da governação socialista, não apresenta um programa nas áreas vitais para o comum dos portugueses, saúde e justiça, e acima de tudo não faz nenhum esforço de forma a harmonizar a vida interna do partido.
http://www.militantedebase.blogspot.com/
Comentário por AJF — Maio 8, 2008 @ 14:53
[...] é necessário cortar a despesa pública para depois se poder baixar os impostos. Tal como Cameron, parece achar que essa tarefa passa pela mudança da forma como o Estado se relaciona com os cidadãos. E acima de [...]
Pingback por Está á procura do “Cameron português”? Olhe para Ferreira Leite « O Insurgente — Maio 20, 2008 @ 12:24
Já não acredito em político nenhum.Desde 1957 que sigo a política com esperança em melhores tempos e o que tenho apanhado sempre e até agora foi desilusão sobre desilusão. Afinal os políticos desta república na minha opinião fizeram:
De 1974 a 1980 comeram o que havia em Portugal. O Dr. Mário Soares quando foi 1º ministro levou o país à banca rota. Safou-o com a venda à CEE da nossa agricultura e especialmente as nossas pescas. (quem se lembra dos assaltos a bancos, feitos por Palma Inácio?) O Prof.Cavaco tentou fazer algo, mas os barões do PSD tiraram-lhe o tapete. O Eng. Guterres recebeu da UE varios milhões de € por dia e foi embora do lamaçal.
Agora o Eng. Sócrates não pode assaltar bancos nem tem dinheiro a fartazana da UE aumentou os impostos.
Conclusão: Para mim velhote e desiludido recordo com alguma justiça, que afinal o Marcelo Caetano foi o melhor 1º Ministro que conheci. É a minha opinião.
Um braço
A. F.
Comentário por António Ferreira — Outubro 26, 2008 @ 19:06