Vendendo ilusões. Por Rui Ramos.
Santana partilha com uma parte da esquerda esta ilusão: acredita que há uma opção entre o “crescimento económico” e a “obsessão do défice”. Não lhe ocorre que, se ignorar o défice fosse solução, Guterres deveria ter deixado o país a crescer loucamente. Não deixou, nem os gastos de então eliminaram as desigualdades ou melhoraram a educação. A “obsessão do défice” tem precisamente a ver com a necessidade, depois do fracasso do despesismo, de experimentar outras receitas para o “crescimento económico”, como aquela a que Cavaco Silva, em 2001, chamava a “receita irlandesa”. Numa coisa, porém, tem Santana razão: o seu ponto de vista faria diferença em relação a Sócrates. Para melhor?
Ferreira Leite e os seus apoiantes têm outra ilusão: julgam que a “credibilidade” é um problema só dos outros. Ferreira Leite, ao contrário de Santana, parece consciente das dificuldades. Mas nunca sugeriu, para essas dificuldades, remédios fundamentalmente diferentes dos deste governo: foi ela, aliás, quem denunciou o célebre “roubo das bandeiras”. Os seus argumentos reduzem-se a isto: ela faria melhor. Mas contra essa presunção, está o facto de que, no mesmo período de dois anos, fez pior do que Teixeira dos Santos. Ferreira Leite estará certa quando admite, perante as circunstâncias do país, que não há margem para grandes variações de políticas públicas. Falta-lhe o passo seguinte: reconhecer que, sendo as coisas assim, o principal terreno de oposição terá de ser o dos princípios e valores. Se não abrir horizontes aos cidadãos para além dos que o PS está disposto a admitir, o PSD nunca será mais do que a equipa B do sistema: jogadores de segunda escolha, destinados a ficar no banco até o actual governo se cansar.
Santana espera que, perante dificuldades agravadas pela “crise”, os portugueses decidam que o melhor é deixar de fazer esforços; e Ferreira Leite, que se lembrem de dar uma segunda oportunidade, para voltar a fazer o mesmo, a quem já falhou no passado. É isto realista? Não será antes, para citar o presidente da república, “vender ilusões”?