O Insurgente

Maio 2, 2008

Portugal Séc XIX

Arquivado como: Comentário, Economia, Política, Portugal — Helder @ 12:49 am

Li com atenção a entrevista do Ministro do Trabalho ao jornal Público de hoje. Infelizmente, por distracção pus o jornal no lixo e o que aqui vai é de memória. Ficaram-me duas ou três notas.
Uma pessoa que conheço, economista, trabalhou alguns anos numa empresa do PSI20. Há algum tempo aceitou uma proposta melhor e mudou para outra. Dois dias depois de lá estar recebeu outra proposta irrecusável, de uma terceira, e mudou de novo.
O Ministro diz que na questão do emprego a parte mais fraca é o trabalhador. Que não é uma questão ideológica, é um facto que o empregador é a parte mais forte no contrato. Ora bem sendo que é verdade na maior parte (?) dos casos, também o é que um trabalhador hoje não é o operário do Séc XIX. No tipo de economia que existe ou em que nos estamos a transformar (baseada em serviços ou indústria de que incorpora alta tecnologia), a maior parte dos postos de trabalho que se criam ajudam a fortalecer o poder negocial dos trabalhadores. E nos casos em que a especialização não é complicada (comércio, restauração, etc) é a concorrência e a necessidade de não perder tempo que leva os empregadores a querer evitar a rotação excessiva de pessoal (com efeitos nos contratos a prazo) e a manter os melhores elementos que vão aparecendo*.
As prateleiras das livrarias estão cheias de livros sobre o capital humano, sobre a importância das pessoas nas organizações, sobre case studies como a Gore, a Google, a Microsoft, a Martifer, etc. Não faria mal ao Ministro deixar de imaginar fresas, limadores e charruas e passar a pensar em capital humano.
Infelizmente ainda há quem, como o secretário geral da UGT elogie o trabalhador português porque ele “aprende fazendo”. Sei o que isso é porque aprendi a gerir gerindo e sei que é a receita para o desastre. No caso dos “trabalhadores” é precisamente isso que pode condená-los: aprender a fazer fazendo significa que não se sabe fazer mais nada a não ser o que sempre se fez.

O Ministro disse ainda qualquer coisa como “o contrato a prazo pode ser uma boa opção a curto prazo mas não creio que o seja a longo prazo”, “ as empresas não podem…” isto ou aquilo e devem “aqueloutro”, etc.
A questão é só esta e é, sim senhor, ideológica: este Ministro e quase todos os outros julgam que sabem mais sobre como são e como devem ser geridas as empresas. O que é engraçado é que nunca criam uma. Não pagam um salário, não investem numa máquina, não avalizam um empréstimo, não põem nada no fio da navalha. Nada. Nem o nome. Usam o “pull” da vida política para se elevarem a cargos empresariais. Ayn Rand chamava-lhes pull-peddlers.
Acerca dos contratos a termo dizia que no curto prazo podem ter resultados na cotação das empresas na bolsa, mas a longo prazo não acrescentam riqueza, etc, etc. Uma coisa que gostaria que me explicassem é onde ficam as PMEs que são 400 mil e são responsáveis por 50% do emprego. Também têm valorização das acções cotadas? Ou é o Ministro que se limita a ser imbecil quando fala de leis que têm que ser cumpridas por todos como se só se aplicassem a alguns?
Quando na entrevista o Ministro deu a Suécia como exemplo, o entrevistador perguntou-lhe se queria “…importar empregadores da Suécia?” Porquê empregadores? Porque não trabalhadores? Porque não um povo inteiro? E entrevistadores já agora. Pelos vistos o problema em Portugal são os empregadores. Têm uma solução simples: desfaçam-se deles. Fechem-lhes as empresas, acabem-lhes com a raça. Com certeza tanto os trabalhadores como o Ministro como o entrevistador ficariam bem melhor. Sem trabalho, mas satisfeitinhos.
Para acabar, há uma coisa que nos entrava o progresso e a criação de riqueza e que, enquanto a geração no poder não bater as botas, não se resolve: não existe um antagonismo empregador/trabalhador. Esse antagonismo só aproveita aos órfão do marxismo que necessitam da pobreza, da luta de classes e do misticismo da teleologia historicista para manter o controlo sobre o resto da sociedade. Empregador e trabalhador são a fonte da criação de riqueza e um não existe sem o outro, por isso, toda esta treta dos códigos do trabalho neo-liberais e idiotices afins só servem para empatar. A liberdade contratual é o único Código do Trabalho justo.

17 Comentários »

  1. É verdade que o empregador é a parte forte na relação porque é ele que tem o posto de trabalho. O facto de se receber propostas daqui e dali, é de empregador em empregador. Que o ministro consiga ver isto, já não é mau face aos seus antecessores e face àquilo que ele dizia às uns meses.
    O problema é que, conseguindo ver isto, não sabe o que fazer com esta percepção. A legislação laboral funciona como a pressão atmosférica. Sendo esta, andamos assim, sendo outra, andávamos na mesma. Ninguém vai deixar de trabalhar ou empregar, só vão mudar as condições. E habitualmente, estas condições funcionam ao contrário da pressão.
    Se o contrato a prazo é mais ou menos vantajoso que o sem termo, de certeza que o empregador, aquele que criou o posto de trabalho, o sabe melhor que o ministro. E, curiosamente, até o trabalhador parece saber que a prazo é melhor que contrato nenhum, mas pior que sem termo. Este jogo vai acabar por colocar as coisas todas na mesma que são hoje, apenas noutras condições. Muito provavelmente, baixando os salários que o ministro pensa estar a defender. É o que dá ser comunista profissional, depois não sabe fazer nada.

    Comentário por Tonibler — Maio 2, 2008 @ 1:20 am

  2. “Quando na entrevista o Ministro deu a Suécia como exemplo, o entrevistador perguntou-lhe se queria “…importar empregadores da Suécia?” Porquê empregadores? Porque não trabalhadores? Porque não um povo inteiro? E entrevistadores já agora.” :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 2, 2008 @ 1:22 am

  3. “e se receber propostas daqui e dali, é de empregador em empregador.”
    Certo mas quando se diz que o trabalhador é a parte fraca não é nesse sentido, é pressupondo que não tem poder negocial. De resto, de acordo, o empregador tem mais poder.

    Comentário por Helder — Maio 2, 2008 @ 1:31 am

  4. Nunca percebi o que é que se quer dizer quando se diz que “o empregador é a parte forte na relação “. Num mercado, o preço é o ponto de equilíbrio entre a oferta e a procura. No caso do mercado de trabalho, o salário é o ponto para o qual a tal suposta força do trabalhador iguala a do empregador. Se o empregador tivesse mais “força”, imporia um salário mais baixo.

    Comentário por JoãoMiranda — Maio 2, 2008 @ 7:18 am

  5. «Nunca percebi o que é que se quer dizer quando se diz que “o empregador é a parte forte na relação “. »

    O que é mais frequente encontrar? Um pai com um filho indisciplinado pensado/dizendo “se ele não muda, vai ser muito dificil arranjar e manter emprego” ou “se ele não muda, vai ser muito dificil arranjar e manter empregados”?

    O empregador tende a ser a parte forte na relação porque, por regra, o empregador tem vários empregados e o empregado só têm um patrão, logo o trabalhador é mais afectado se o patrão decidir rescindir o contrato do que o patrão se o trabalhador decidir rescindir (possiveis excepções: empregadas domésticas - normalmente têm vários patrões e cada patrão só um empregada; trabalhadores que só eles tenham a password do sistema informático;empresas em que os vários trabalhadores sejam complementares em vez de substitutos)

    Comentário por Miguel Madeira — Maio 2, 2008 @ 1:32 pm

  6. “Infelizmente ainda há quem, como o secretário geral da UGT elogie o trabalhador português porque ele “aprende fazendo”. Sei o que isso é porque aprendi a gerir gerindo e sei que é a receita para o desastre. ”

    Praticamente quase todo o que eu faço no meu trabalho “aprendi fazendo” e não tenho razões de queixa.

    Acerca dos gestores, o Helder lá saberá mas ainda gostaria de saber se há algum estudo comparando a performance das empresas geridas por licenciados em Gestão de Empresas e/ou titulares de MBAs com as outras.

    Comentário por Miguel Madeira — Maio 2, 2008 @ 1:39 pm

  7. Errado, Miranda. Num mercado LÍQUIDO o preço é o ponto de equilíbrio entre a oferta e a procura. Como estamos a falar de um posto de trabalho para um trabalhador individual, a liquidez depende da existência de muitos mais postos de trabalho e de trabalhadores semelhantes.

    Comentário por Tonibler — Maio 2, 2008 @ 4:54 pm

  8. “a liquidez depende da existência de muitos mais postos de trabalho e de trabalhadores semelhantes.”

    Pois, mas o facto é que existem. Podem é não ser “da área em que me formei” ou “na área em que tenho experiência” ou “empregos que eu goste” ou, etc, etc

    Comentário por Helder — Maio 2, 2008 @ 5:59 pm

  9. Helder,

    Sabes tão bem como eu que isso equivale a dizer que contratavas qualquer um, desde que aparecesse com mais ou menos as mesmas características. Como imagino que o teu negócio não seja um bordel, não te estou a ensinar nada. E quem acha que pode colocar a questão do emprego como as curvas de taxa de juro é porque nunca contratou ninguém ou, se contratou, fez merda!

    Comentário por Tonibler — Maio 2, 2008 @ 11:09 pm

  10. Uma nota de rodapé. Os últimos dez anos têm sido férteis em falências, deslocalizações ou redução de efectivos das empresas instaladas em Portugal. Porquê?
    Não auferirão maiores salários os espanhóis, os franceses, alemães e italianos (entre outros)? Que desculpa têm os senhores da 3ª república - e aspirantes à 4ª- para que tenhamos chegado a este ponto? O que foi feito dos milhões recebidos para a formação? O sr. Cavaco deve saber do que isto quer dizer, assim como os seus dignos sucessores.
    De nada servem as especializações, se não existir indústria que delas se sirva. O país tem premente necessidade de produzir novos bens, caros e atractivos. Arranjaram-nos o sarilho. O regime que encontre uma solução.

    Comentário por Nuno Castelo-Branco — Maio 3, 2008 @ 12:24 am

  11. Nunca percebi o que é que se quer dizer quando se diz que “o empregador é a parte forte na relação “. Num mercado, o preço é o ponto de equilíbrio entre a oferta e a procura. No caso do mercado de trabalho, o salário é o ponto para o qual a tal suposta força do trabalhador iguala a do empregador. Se o empregador tivesse mais “força”, imporia um salário mais baixo. - JM

    1) É quem define os termos do contrato. A maior parte dos contratos de trabalho são contratos de adesão.

    2) É quem pode alterar unilateralmente o local e o horário laboral, facilitando ou dificultando as condições de trabalho e a vida familiar do trabalhador.

    3) É a quem o trabalhador deve respeito e obediência, contraponto do poder de direcção que lhe compete.

    4) Exerce o poder disciplinar, mas não está evidentemente sujeito ao mesmo.

    Claro que a forma como estes poderes são exercidos depende muito da importância do trabalhador para a empresa. O trabalhador que seja vital será bem tratado; o que for mau será maltratado. O que for mediano ou razoável será bem ou maltratado consoante a simpatia ou antipatia do empregador.

    Claro que o JM não concordará. Mas para isso a solução é trabalhar por 400 Euros e, no processo, ter de aturar alguns sacanas que o JM, felizmente, não teve, nem tem de conhecer.

    Comentário por José Barros — Maio 3, 2008 @ 2:16 am

  12. Ora o José Barros disse tudo. Começar este post com uma história de um trabalhador altamente qualificado, e que trabalha e é convidado para ir para várias empresas do PSI20, revela o afastamento da realidade.
    Falar de serviços, quando grande parte das funções nesses serviços são autozidas, é revelador de que os novos trabalhadores de serviços são os novos operários.
    Nessas empresas de serviços, nos call centers, nas firmas de introdução de dados, tudo é cada vez mais automatizado.
    Ao contrário do que se supunha, os postos de trabalho parecem cada vez mais operários.
    Dizer que tais pessoas tem poder de negociação, é ridículo. Ver que milhares e milhares são os tais trabalhadores precários, quer dizer que não existe sequer poder de negociação nenhum.
    Ou entras e queres, ou vais-te embora que a bicha é grande.

    Comentário por Ester R — Maio 3, 2008 @ 3:10 am

  13. “Começar este post com uma história de um trabalhador altamente qualificado, e que trabalha e é convidado para ir para várias empresas do PSI20, revela o afastamento da realidade.”

    Nem por isso Ester. As pessoas que tenho contratado em maior número não têm esse tipo de especialização e nem por isso deixam de ter poder de negociação. Algumas só ao fim de três/seis meses é verdade. Mas têm.

    “Nessas empresas de serviços, nos call centers, nas firmas de introdução de dados, tudo é cada vez mais automatizado.”

    As empresas de serviços não são call-centers, é ao contrário. Algum luddismo nesta frase?

    Comentário por Helder — Maio 3, 2008 @ 4:15 pm

  14. Tou com pouco tempo mas os vossos comentários merecem respostas mais completas a ver se posto mais sobre o assunto. Obrigado.

    Comentário por Helder — Maio 3, 2008 @ 4:16 pm

  15. “o que for mau será maltratado.”

    Devia ser despedido ou despedir-se e aprender alguma coisa com isso;

    “O que for mediano ou razoável será bem ou maltratado consoante a simpatia ou antipatia do empregador.”

    Conforme o tratamento devia despedir-se ou não;

    “Mas para isso a solução é trabalhar por 400 Euros e, no processo, ter de aturar alguns sacanas que o JM, felizmente, não teve, nem tem de conhecer.”

    O que nunca percebi é essa narrativa da total impotência das pessoas que só sofrem o que sofrem porque algo ou alguém exterior a elas as faz passar pelos males do mundo. JB, isso é a desresponsabilização total, é retirar às pessoas a dignidade que têm e que lhes temos que admitir. No limite, a decisão é de cada um.

    Comentário por Helder — Maio 3, 2008 @ 4:23 pm

  16. O que nunca percebi é essa narrativa da total impotência das pessoas que só sofrem o que sofrem porque algo ou alguém exterior a elas as faz passar pelos males do mundo. JB, isso é a desresponsabilização total, é retirar às pessoas a dignidade que têm e que lhes temos que admitir. No limite, a decisão é de cada um. - Helder

    Caro Helder,

    Não, não é. Tirar-lhes a dignidade é fazer de conta que não há pessoas a trabalhar 12 horas por dia, a recibos verdes, e a ganhar 400 Euros ao fim de mês, sem qualquer hipótese de arranjar outro emprego, porque ninguém contrata pessoas de 50 anos. Tirar-lhes a dignidade é ainda julgá-las tão burras, tão burras que ainda não perceberam que o que têm de fazer é despedir-se e procurar outros empregos que não existem para pessoas como elas.

    Não me entenda mal. Eu sou muito favorável a reformas liberais no direito do trabalho (quer na contratação a termo, quer no regime de despedimento, para dar dois exemplos), mas abomino este discurso liberal que passa sempre por se imaginar uma liberdade mirífica que as pessoas normais não podem exercer ou por se abstrair e se mostrar um desconhecimento absoluto das condições de vida da maior parte dos portugueses. Um exemplo é o comentário do JM que ainda não percebeu por que razão o contrato de trabalho se define por ser uma relação de subordinação jurídica do trabalhador ao empregador. Faz lembrar a Maria Antonieta com a “estória” dos croissants.

    Comentário por José Barros — Maio 3, 2008 @ 7:17 pm

  17. “tão burras, tão burras”

    Não tem que ver com burrice tem que ver com desresponsabilização.

    “Tirar-lhes a dignidade é…” menosprezar-lhes a resiliência, a capacidade de fazer mais e melhor e de tratar de si mesmas.

    “é fazer de conta que não há pessoas a trabalhar 12 horas por dia, a recibos verdes, e a ganhar 400 Euros ao fim de mês”

    quem é que faz de conta que isso não existe?

    “porque ninguém contrata pessoas de 50 anos”

    Exactamente. E desses é que temos que cuidar, não é dos jovens coitadinhos à procura do primeiro emprego obrigados a cumprir horários num call-center. Dá pano para mangas e havemos de voltar a isto.

    Comentário por Helder — Maio 4, 2008 @ 1:20 am

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