O diabo que escolha. Por João Cândido da Silva.
Se a Comissão Europeia revelar acerto no seu exercício sobre o futuro próximo, Portugal vai continuar a empobrecer em comparação com a média dos seus parceiros da União Europeia. Entre os Estados-membros mais recentes, a pedalada vai manter-se vigorosa, enquanto que em solo lusitano o cidadão avisado terá de se conformar com a perspectiva de que a actual década está irremediavelmente perdida.
Os dois exercícios que estão pela frente vão ser de crescimento débil e de abrandamento em relação a 2007, ano em que, por alturas do Natal, o discurso televisivo do primeiro-ministro afiançou mais e melhor para este ano. Sócrates garantiu um bolo rei, Bruxelas diz que a Portugal apenas vai calhar a fava.
Os escolhos são muitos. O desemprego vai manter-se elevado, rondando, em percentagem da população activa, o nível actual. A inflação, estimulada pela alta dos preços do petróleo e dos bens alimentares, vai subir e provocar maior erosão nos rendimentos das famílias. Confrontadas com custos a subir a um ritmo mais elevado e constrangidas pela concorrência, as empresas pouca margem terão para compensar, com aumentos salariais mais vistosos, o apetite inflacionista.
(…)
No documento da Comissão Europeia não faltam motivos para desconfiar que a menorização que o Governo faz dos números é mera gestão de expectativas ou excesso de confiança. Entre a insensatez e a imprudência, venha o diabo e escolha.
Atenção: “empobrecer em comparação com a média dos seus parceiros da União Europeia” não significa que se empobreça em absoluto. Significa apenas que se é quem menos enriquece num clube de ricos.
“a actual década está irremediavelmente perdida”
Como assim, Portugal está a crescer sem parar!
Comentário por Luís Lavoura — Abril 30, 2008 @ 15:29