Há tempos, no “auge” da sua liderança, Luis Filipe Menezes disse que só “à bomba” o tirariam da chefia do PSD. Depois das entrevistas de Aguiar Branco e António Borges, Menezes, apercebendo-se de que uma “bomba” era precisamente aquilo que os críticos se preparavam para usar, antecipou-se, convocando eleições antecipadas para assim tentar consolidar o seu poder interno (sim, Menezes tenciona recandidatar-se). Para além de Patinha Antão e Neto da Silva, Pedro Passos Coelho já confirmou estar na corrida, e José Pedro Aguiar-Branco afirmou “estar disponível”, quem sabe pronto a recuar caso um outro nome mais “forte” decida avançar. A grande incógnita é mesmo que nome poderá ser esse. Marcelo Rebelo de Sousa não parece estar muito interessado. Manuela Ferreira Leite parece também não ter grande vontade, e muitos sectores do partido parecem desejar que seja Rui Rio o candidato.
Há muito que sou da opinião de que Rui Rio, devido à simpatia de que é alvo e ao prestígio que detém fora do PSD (na dita “sociedade civil”), é provavelmente o único hipotético líder do partido laranja que o pode reformar, de forma a conduzi-lo ao Governo e, uma vez, aí, reformar o país. Pois devido a esse prestígio que tem “fora” do partido, é o único que pode forçar mudanças no seu interior, é o único que, se quiser, pode dizer aos militantes mais imobilistas do PSD que aquilo que fizer, por mais que lhes custe, “tem de ser feito”, pois é issso que “os portugueses” desejam. Devido ao prestígio que detém na tal “sociedade civil”, Rui Rio pode fazer voltar as atenções do partido laranja para o país e os seus cidadãos, em vez de as manter concentradas na obtenção e conservação de empregos públicos e em empresas municipais.
É provável que Rui Rio, mais uma vez, decida não avançar, justificando-se com o seu compromisso com os eleitores portuenses. Logo vários comentadores apontam tal justificação como falaciosa, argumentando que a verdadeira razão da sua ausência está num cálculo político de Rui Rio, que consideraria que, tendo poucas hipóteses de ganhar a Sócrates em 2009, seria prefrível esperar que o candidato derrotado nessas eleições caísse, para então tomar o poder no PSD e esperar que o Governo lhe caísse no colo depois na inevitável queda de Sócrates. A ser verdadeira, ou sendo encarada como verdadeira pela “opinião pública”, esta ideia seria particularmente prejudicial à imagem pública de Rui Rio: instalar-se-ia na cabeça dos que simpatizam com Rio a ideia de que ele, como Durão Barroso, por exemplo, se deixa dominar pelos cálculos politiqueiros de quem só avança quando não corre riscos de perder. A sua imagem de um político “diferente dos outros” desapareceria mais rapidamente do que um emprego de alguém que critica o engenheiro Sócrates, e a sua capacidade de se impôr ao PSD como uma “exigência” da “sociedade” seria tão escassa como a vergonha do Primeiro-Ministro.
Mas se Rui Rio avançar, esse risco não desaparece. Pois ele tem boas razões para não querer abandonar a autarquia portuense antes do final do seu mandato. Se desrespeitar o seu compromisso com os eleitores do Porto, Rui Rio transmitirá a ideia de que, como Guterres (que se demitiu para poder limpar a sua imagem a tempo das presidenciais de 2006, infelizmente para ele, sem sucesso) ou Durão Barroso (que fugiu quando Bruxelas lhe acenou com um poder maior do que aquele que já detinha), Rio não estaria a seguir outro critério que não o da sua ambição pessoal, e que sendo capaz de desrepeitar um compromisso eleitoral no Porto para tentar ser Primeiro-Ministro, facilmente esqueceria um compromisso eleitoral nacional se um confortável exílio no estrangeiro lhe fosse oferecido. Ainda para mais, correria o risco de ser visto como alguém que, à semelhança de um Sampaio, de um Santana Lopes, de um Fernando Gomes, apenas usa uma autarquia para sua promoção pessoal. Avançando agora, Rio arrisca-se a perder a imagem de alguém que foi para a autarquia portuense para mudar a forma como esta funciona, e que poderia fazer o mesmo no PSD e no país.
No fundo, Rui Rio teve muito azar com o calendário eleitoral do PSD. Faça o que fizer, a sua acção poderá ser sempre interpretada como um exemplo de calculismo ou de ambição desmedida, o que em qualquer dos casos minaria a sua imagem pública, e consequentemente, a sua margem de manobra para vir a desempenhar um papel importante no país. O que deve fazer então Rui Rio? Já que se encontra encurralado do ponto de vista meramente táctico, Rui Rio deve abandonar por completo quaisquer considerações desse tipo. Ao contrário do que os “barrosistas” (gente de quem ele deve desconfiar) lhe poderão dizer, ele só tem a perder nesse campo. E sabendo que do ponto de vista “tacticista” não há qualquer diferença entre avançar agora ou depois de 2009, Rui Rio deve orientar a sua opção segundo um único critério: aquilo que considerar ser melhor para o país. Se achar que será negativo mais um detentor de um cargo público abandonar o seu posto antes do fim do seu mandato, contribuindo para a descredibilização da classe política, então, deve permanecer na Câmara do Porto. Se achar que tem um contributo importante a dar ao PSD e ao país, no sentido de reformar ambos, então, não deve hesitar em avançar. Provavelmente, e sensatamente, achará ambas as coisas. Restar-lhe-á então pesá-las, e ver qual a mais importante. Assim, se perder (perca agora, em 2009, ou depois), ao menos perderá com a consciência tranquila. Se ganhar (ganhe agora ou daqui a uns anos), terá força para fazer alguma coisa.