Dívidas transgeracionais
João Pereira Coutinho, no semanário Expresso:
Quando o assunto é a escravatura, alguém aponta o dedo para o Ocidente. Depois de séculos de vilanias no tráfico de seres humanos, não deve o Ocidente rico “indemnizar” os descendentes dos descendentes de escravos?
Sazonalmente, a conversa regressa. O meu espanto regressa também. Primeiro, porque a ideia de que a culpa passa de geração em geração determinaria, no limite, que todos os povos acabariam necessariamente por pedir contas ao antigo senhorio, um recuo demencial que só terminaria no Paleolítico. Mas sobretudo porque a originalidade do Ocidente não esteve na escravatura; esteve, pelo contrário, na forma determinada como a aboliu. Porque o negócio continua por outras bandas.
(…)
Em África, milhares de seres humanos são capturados anualmente em cenários de guerra e separados de famílias ou comunidades para uma vida de servidão.
E milhões são traficados nas Américas ou na Ásia, sobretudo na Índia, onde 10 milhões (no fundo, a população portuguesa) continuam a pagar “dívidas” transgeracionais em pedreiras e campos de cultivo.
Sim, porque as “dívidas” existem.
E até existem de geração em geração. Mas as patrulhas insistem em olhar para os credores errados.
Bom… tendo em conta as dívidas transgeracionais da Segurança Social, do Serviço Nacional de Saúde e de défices passados (acumulados no valor da Dívida Pública), podemos dizer que em Portugal a escravatura ainda não foi totalmente abolida.
PS: dois anos atrás perguntei se, “moralmente, pode um socialista condenar a comercialização de [empréstimos bancários com responsabilidade ilimitada]?”

JPC está estará correcto, no essencial.
Comentário por nacionalistas — Abril 16, 2008 @ 9:39 am
As indemnizações são devidas quando ainda existe relação directa entre herdeiros e o que está em causa são direitos de propriedade objectivos e não direitos abstractos.
Se alguém hoje aufere da posse de uma propriedade cuja origem pode ser objectivamente ligada a um acto de posse indevida (roubo), os herdeiros da pessoa roubada terão um caso legal-justo.
Não incluo nesta categoria a propriedade sujeita a um honesto homesteading por exemplo por “colonizadores” que não mais fizeram do que tornar produtiva propriedade não usada/ocupada préviamente por habitantes locais.
Mas devem existir muitos casos de posse por meios violentos de expulsão, etc.
Comentário por CN — Abril 16, 2008 @ 12:28 pm
Já agora, as dívidas transgeracionais faziam sentido enquanto a família era a entidade mínima na realidade social. A dívida era da família e os actos de cada (em todos os sentidos) honravam ou oneravam todo o núcleo alargado (que incluia, a propriedade, os servos e criados, os animais, etc).
E assim era devido ás condições precárias de sobrevivência e a dificuldade em preservar o capital (propriedade, etc) em boas condições.
Ainda assim é em locais mais remotos devido a isso mesmo.
Comentário por CN — Abril 16, 2008 @ 12:32 pm
Muito Bem!
Vamos lá conversar sobre escravatura ou então sobre colonização encapotada, nasci Moçambicano mais propriamente em Lourenço Marques, há 41 anos, fui escorraçado do meu país sem me perguntarem se esta era uma opção para mim, sem me perguntarem se queria ser Português ou Moçambicano, tive que ser forçosamente Português, tudo isto tem a haver com descolonização portuguesa. E todo o investimento dos meus pais nesse país? Quem vai pagar tudo aquilo que nos perdemos, quem nos indimnizar por todos os danos. Deixem-se de tretas e tomem como exemplo todo o dinamismo dos ex retornados, porque não me considero como tal, mas simplesmente como um homem que foi obrigado a sair do seu país por questões politicas.
Comentário por CP — Abril 16, 2008 @ 2:50 pm