O Insurgente

Abril 15, 2008

Ortografias

Filed under: Comentário,Cultura,Diversos,Portugal — Miguel Botelho Moniz @ 16:30

O acordo ortográfico é mesmo essencial para a sobrevivência da língua portuguesa. A história está pejada de exemplos de línguas que morreram por não se adaptarem aos tempos modernos, por não se tornarem homogéneas e consistentes. Neste contexto, deixo aqui um breve exemplo de uma língua sem nenhuma importância e cujo declínio foi causado pela dificuldade de partilhar textos editados nos dois lados do oceano.

Versão do Velho Continente: Johnny’s favourite friday night programme is to go to a movie theatre. He usually goes to the local shopping centre, just up the road, at Marlborough. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pyjamas, there is nothing like the full colour and close dialogue experience of the silver screen.

Johnny is a little barmy about movies. At least that’s what his mum says. He’s memorised lines from all genres of movies from the mediaeval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the ageing jewellery-clad femme fatale. As a fan of aviation, his speciality, he also delights in movies that show the skilful art of manoeuvring aeroplanes.

The theatre up at Marlborough, however, is a bit draughty, due to the aluminium ceiling. But the show is worth ploughing through. In it’s defence, it should be said that being about 300 metres away from his front door, it could hardly better fulfil the role, in Johnny’s judgement.

Versão do Novo Mundo: Johnny’s favorite friday night program is to go to a movie theater. He usually goes to the local shopping center, just up the road, at Marlboro. Although he also has a large TV at home, where he could watch movies wearing his pajamas, there is nothing like the full color and close dialog experience of the silver screen.

Johnny is a little balmy about movies. At least that’s what his mom says. He’s memorized lines from all genres of movies from the medieval to science fiction. He knows everything about the stars, from the young starlet to the aging jewelry-clad femme fatale. As a fan of aviation, his specialty, he also delights in movies that show the skillful art of maneuvering airplanes.

The theater up at Marlboro, however, is a bit drafty, due to aluminum ceiling. But the show is worth plowing thru. In it’s defense, it should be said that being about 300 meters away from his front door, it could hardly better fullfil the role, in Johnny’s judgment.

9 Comentários »

  1. Este é realmente um bom exemplo. Mas vale notar que o espanhol pode também ser usado como um excelente exemplo de uniformidade, o que faz com que seja língua falada em mais países do mundo (tomando como parâmetro a língua nativa).

    Um dia assistia ao “Programa do Jô” (da Rede Globo) e lá o último Presidente da Academia Brasileira de Letras afirmava que muitos livros infantis brasileiros (e que segundo ele éramos profícuos neste campo) eram vetados em Portugal pelas diferenças ortográficas. Não possuo dados para afirmar se isto é ou não verdade, mas se o for, desconheço que do lado de cá do Atlântico os livros de ortografia portuguesa sejam de alguma forma impedidos de entrar.

    Quase quisera insinuar que os maiores interessados (ou os menos interessados) são os editores, que sempre consideraram as diferentes ortografias como reserva de mercado.

    Comentário por Reginaldo Almeida — Abril 15, 2008 @ 18:01

  2. Ao que consta por cá chegam produções gráficas, até revistas da Mónica! E ao que parece não se fazem traduções dos falares regionais brasileiros aquando as apresentações das novelas. Com tantos brasileiros do interior de Minas, Goiás,etc há já um abrasileirar de falares que condicionam ao uso de expressões próprias deles. Deixem ao menos a forma de escrever mais nossa, que vivemos noutro hemisfério!
    Estudei, vivi 30 anos no Brasil e sou pessoalmente contra o acordo pois que nem no lá escreve-se da mesma maneira e muitos o fazem baseados no falar característico.
    Querem é ser mais papista que o próprio.
    Nunca vi nenhum interesse em aproximarmos o português ao galego, nosso berço linguístico.

    Comentário por alice goes — Abril 15, 2008 @ 20:08

  3. Ao leitor Reginaldo Almeida:

    No final dos anos 60, e durante a década de 70 do século XX, as edições brasileiras de BD de origem americana (por exemplo, da Disney) ou de produção própria brasileira eram muito populares em Portugal; quem, hoje na casa dos 40 e 50, não leu as edições da editora Abril: os “almanaques” do Tio Patinhas, do Pato Donald, do Mickey, do Zé Carioca, e os manuais do Prof. Pardal, do Tio Patinhas, do Escoteiro-Mirim, do Peninha, etc., etc., ou ainda a Mônica, o Cebolinha, a Luluzinha, … (de Maurício de Souza, editor brasileiro). Penso que até meados dos anos 80, estas edições eram exclusivamente brasileiras. Na altura, as preferências repartiam-se entre os leitores exclusivos de “Tios Patinhas” (designação genérica) e os dos chamados “livros de cowboys” (designação muito lata que abrangia não só BD de cowboys e de índios (por exemplo, “Texas Jack”) mas também BD policiais e de detectives (Matt Dilon, Rip Kirby, Garra de Aço, Mandrake,…), de super-heróis (Super-Homem, Homem Aranha, Batman, …), de personagens enigmáticos (Fantasma, o incrível Hulk,…) de heróis da selva (Kalar, Tarzan, …), de heróis de guerra e da Resistência (Major Alvega, Mamselle X, …). Havia ainda os leitores que “navegavam” entre um e o outro tipo de BD. Uma das características que distinguia os “Patinhas” dos “Cowboys” era que os primeiros eram a cores e os outros a preto e branco. Outras era que o tema destes últimos era menos “infantil”, ou mais “adulto”, se se preferir. Nos “livros de cowboys”, penso que a edição portuguesa era predominante ou quase exclusiva. No entanto, os livros do Super-Homem e do Homem-Aranha também foram edições brasileiras, pelo menos durante alguns anos. Peço desculpa se falho alguns pormenores; estou a citar de memória um universo que me foi agradável de ler, nos meus tempos de escola primária e do ciclo preparatório. Depois veio o Asterix, mas esse já é outro capítulo…

    Comentário por Jorge Lopes — Abril 15, 2008 @ 22:53

  4. Ainda estou para perceber qual é o “crime” em se tentar uniformizar as duas variantes ortográficas principais do Português. Não concordo com algumas alterações do Acordo, mas outras parecem-me perfeitamente possíveis e convenientes de aplicar. Com vantagens para os utilizadores da Língua. Práticas, económicas, estratégicas. Infelizmente, já se passaram 20 anos desde o anúncio do Novo (?) Acordo Ortográfico e até hoje, na prática, nada se aplicou.

    A comparação com a língua Inglesa é deveras interessante, mas há diferenças de escala enormes. É bom lembrar que o universo do Inglês já não está confinado aos falantes nativos da língua; o poder de que dispõe é enorme, e ameaçador, relativamente a outros universos linguísticos (é desnecessário citar exemplos). (Só esta razão seria suficiente para se progredir na unificação ortográfica do Português). Seja como for, a norma ortográfica “internacional” (chamemos-lhe assim) da língua inglesa é a americana. De facto. Os ingleses limitam-se a constatá-lo (não têm outro remédio).

    A aplicação do acordo ortográfico parece preocupar muitas pessoas. Já a introdução do inglês na escola primária (em nome duma certa “eficiência” saloio-económica, certamente…) não parece suscitar quaisquer preocupações. Também algumas propostas para a realização de licenciaturas utilizando o inglês como língua de ensino em universidades portuguesas… (em cursos de Economia e de Gestão, claro!…) também não parece ser motivo para demasiada irritação. Pelos vistos, a Língua Portuguesa nesses cursos seria um estorvo… Mas um acordo ortográfico para a Língua Portuguesa! … oh, que heresia!

    Comentário por Jorge Lopes — Abril 16, 2008 @ 02:23

  5. Nota: os “smileys” apareceram involuntariamente!

    Comentário por Jorge Lopes — Abril 16, 2008 @ 02:24

  6. Só esta razão seria suficiente para se progredir na unificação ortográfica do Português

    Esta afirmação carece de demonstração…

    Pelos vistos, a Língua Portuguesa nesses cursos seria um estorvo… Mas um acordo ortográfico para a Língua Portuguesa! … oh, que heresia!

    A evolução da língua deve ser um processo espontâneo, que ocorre na prática diária da sociedade civil. A evolução por decreto é absurda; e demonstra tendências autoritárias insuportáveis.

    Comentário por Migas — Abril 16, 2008 @ 11:04

  7. [...] não ser tão notório, as diferenças também não se deixam de assinalar, como bem apresentou o Miguel. Não vejo que, quer em Espanha, quer no Reino Unido se perca muito tempo em tentativas caricatas [...]

    Pingback por Acordo Ortográfico (III)? « O Insurgente — Abril 17, 2008 @ 01:23

  8. [...] 2, 2009 A partir desta quinta-feira, primeiro dia do ano, o novo acordo ortográfico da língua portuguesa começa a fazer parte do nosso [...]

    Pingback por Confira o Novo Acordo Ortográfico da Lingua Portuguesa « Jornalismo sem vergonha — Janeiro 2, 2009 @ 01:23

  9. [...] partir desta quinta-feira, primeiro dia do ano, o novo acordo ortográfico da língua portuguesa começa a fazer parte do nosso [...]

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