O Insurgente

Abril 8, 2008

Janela Indiscreta

Filed under: Colunas,Comentário,Economia,Janela Indiscreta — BZ @ 02:00

Lendo os comentários ao aqui recomendado post blasfemo intitulado “Subprime II” percebi que ainda existe grande dificuldade em entender a inflação como um fenómeno monetário.

Um facto que deveria ser, para muitos, evidente: a inflação é consequência da emissão de moeda pelos bancos centrais.

Esta é a razão porque no Zimbabwe aquela taxa já ultrapassou cem mil porcento (100.000%) e porque o Banco Central Europeu [BCE] não pode reduzir as suas taxas de referência para “estimular” o crescimento económico sem que tal medida resulte no aumento da taxa de inflação – que já se encontra acima dos 2%, limite definido pelos países-fundadores daquela instituição.

Para o Estado interventor (todos portanto!) recorrer à emissão de moeda é uma política muito eficaz, tendo em conta que a relação entre impressão de papel-moeda e inflação não é linear, nem sequer imediata. Por outras palavras, apesar de determinado sector estar artificialmente “inflacionado” isso só se irá reflectir na generalidade dos preços do cabaz de produtos e serviços usado para calcular o IPC (Índice de Preços no Consumidor, CPI nos EUA) quando a aparente riqueza levar a maior consumo nos restantes sectores de actividade. E a grande eficácia da política monetária deve-se, sobretudo, à comunicação social (até mesmo a especializada) se “esquecer” de relatar sobre a verdadeira origem da inflação.

Ora, nos EUA foi possível verificar, na última década, o fenómeno de crescimento não sustentado dos preços – “bolha” – no mercado mobiliário (especialmente em acções de empresas tecnológicas) e, depois, no mercado imobiliário. Mas se os activos financeiros não espelham a evolução do “custo de vida” dos consumidores o mesmo não se pode dizer do preço duma habitação, uma porção significante do orçamento de muitas famílias. O problema é que, pelo menos em relação ao CPI americano, as prestações da casa não entram no seu cálculo mas sim as rendas que, dado as baixas taxas de juro, tornam-se menos atractivas e, consequentemente, não subiram de preço, facto conhecido pelo FED desde 2005:

Downward pressure on rental prices mainly resulted from an increase in demand for homeownership, which was spurred by historically low mortgage interest rates (see Figure 19). As housing starts and home sales surged in the recent recession and recovery, the national rental vacancy rate jumped from 7.8 percent in the fourth quarter of 2000 to 10.2 percent in the fourth quarter of 2003. This effect was compounded by the way owner-occupied housing prices are measured in the CPI. The CPI uses a rental-equivalence approach, measuring the value of the shelter services an owner receives from his or her home. Price movements in owners’ equivalent rent reflect changes in prices of rental units that are comparable in characteristics to owner-occupied homes. Therefore, increased demand for homeownership put downward pressure not only on tenants’ rent but also on owners’ equivalent rent — the largest component in the CPI.

O FED não prestou atenção aos efeitos inflacionistas que a sua política de baixas taxas de juro estava a provocar no mercado imobiliário porque a importante componente de habitação no CPI não sofreu notável aumento e este índice é, além da taxa de crescimento da economia, o único valor politicamente relevante para a tomada de decisões dos responsáveis daquela entidade estatal.

Concluindo, o Estado americano não só causou a bolha imobiliária como, também, “escondeu” do público as consequências de tal acção. Uma estratégia brilhante, devo dizer, visto que ainda hoje há quem acredite ser a actual crise culpa da banca. Como se fosse possível o crédito subprime florescer sem a existência de muitíssimo baixas taxas de juro…

6 Comentários »

  1. Muito bem!

    Comentário por ms — Abril 8, 2008 @ 09:57

  2. O que os BCs ainda não assumiram é incorporar os preços de activos financeiros e não financeiros na decisão da taxa de juro.

    Diga-se de passagem que se o fizerem, “in the end” têm de passar para uma vertente fortemente quantitativa, deixando as taxas de juro de curto prazo voláteis.

    Comentário por CN — Abril 8, 2008 @ 10:00

  3. “O que os BCs ainda não assumiram é incorporar os preços de activos financeiros e não financeiros na decisão da taxa de juro.”

    Quando em 1996 Alan Greenspan referiu-se à crescente bolha nos activos financeiros como “irrational exuberance” e, no entanto, não tomou medidas imediatas, isso revela que o problema era conhecido mas deliberadamente não assumido nem incorporado nas suas decisões. Por razões políticas suspeito*.

    *A Administração Clinton até considerou afirmar publicamente a sua contribuição para o boom na bolsa mas o presidente foi aconselhado a não o fazer (video). Em restrospectiva, foi uma excelente estratégia política, tendo em conta que ainda hoje se olha para Clinton como um presidente que fomentou grande crescimento económico…

    Comentário por BZ — Abril 8, 2008 @ 10:50

  4. “Banco Central Europeu (BCE) injectou esta terça-feira 130 milhões de euros”

    Isto não é o tipo de “injecção” que se ponha e mais tarde retire.

    A minha previsão é que os BCs vão acabar por comprar em definitivo os activos que os Bancos estão a dar como colateral.

    Só é pena é que a apregoada necessidade de transparência dos mercados e dever de informação não torne conhecidos os Bancos que usam esta linha extraordinária (tão extraordinária que representa 130 milhões de euros de criação de moeda).

    Comentário por CN — Abril 8, 2008 @ 12:47

  5. [...] BZ, n´O Insurgente   [...]

    Pingback por Dia de linkar O Insurgente « Farmácia Central — Abril 8, 2008 @ 15:25

  6. [...] assunto já por mim abordado em anterior post (relativamente às políticas da Reserva Federal [...]

    Pingback por Inflação e preços « O Insurgente — Agosto 5, 2008 @ 18:25


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