Tenho seguido com atenção as diversas críticas à governação de Sócrates que têm sido publicadas n’O Insurgente e, não obstante algumas discordâncias pontuais (como na questão da descida do IVA, que me parece ser de elogiar), estou regra geral de acordo com o sentido das mesmas. Continuam a faltar reformas liberalizadoras essenciais e, nesse contexto, a consolidação orçamental corre o risco de assentar numa base muito frágil de congelamento de algumas despesas que dificilmente poderá ser mantido a curto/médio prazo.
Isto dito, parece-me que não tem sido suficientemente salientado um aspecto muito importante de contextualização da governação de Sócrates: tendo em conta a base ideológica do PS e a situação do país, o actual governo tem tido uma performance razoável em alguns domínios, com destaque para a consolidação orçamental.
Ao recolher e analisar dados para uma análise que me foi pedida para uma publicação internacional que reunirá textos sobre a situação em termos de governação e políticas públicas de cada um dos países da União Europeia, não pude deixar de reforçar a convicção de que, quando comparado com governos anteriores, o desempenho do actual executivo não destoa pela negativa. Olhando para boa parte dos indicadores orçamentais (e ressalvando que este tipo de análise deve ser lido com cautela), Teixeira dos Santos, em particular, fica para já bastante melhor na fotografia do que a generalidade dos seus mais directos antecessores. Também na Administração Pública, na Educação e na Saúde foram introduzidas algumas medidas potencialmente positivas, ainda que severamente limitadas pelo compromisso ideológico socialista com um modelo social desadequado.
Faltam as reformas estruturais necessárias para promover a liberdade de escolha dos cidadãos e permitir taxas de crescimento bem mais elevadas? Sem dúvida, mas creio que seria, regra geral, irrealista esperar mais de Sócrates do que a gestão que fez. Caberia ao espaço não socialista apresentar um programa coerente assente num modelo social alternativo e em reformas liberalizadoras. E aí o vazio no espaço partidário tem sido quase total, com o PSD consumido por lutas internas e incapaz de se ajustar à governação social democrata de Sócrates e o CDS do cada vez mais desgastado e descredibilizado Paulo Portas a oscilar entre a irrelevância e o ridículo.
Nada disto implica, naturalmente, que as medidas do governo não possam (e devam) ser criticadas (com destaque apara alguns sinais preocupantes de claustrofobia democrática) mas creio que se justificaria um maior reconhecimento e reflexão sobre a (desconfortável) realidade de que o centro-esquerda de Sócrates é neste momento, e apesar de todas as suas limitações, bem mais consistente do que as alternativas que supostamente deveriam existir à direita.
O problema mais grave do actual contexto político português não está no centro-esquerda mas na ausência de uma alternativa consistente e credível no espaço não socialista. Sem essa alternativa à governação social-democrata de Sócrates, é o próprio regime que se desequilibra cada vez mais para a esquerda, como pode ser comprovado pelos fraquíssimos resultados do PSD e do CDS nas sondagens e pelo crescimento alarmante da extrema-esquerda que se aproxima dos 20%.
André,
A escreveres assim, o Abrantes fica sem emprego num instante:)
Ab
RAF
Comentário por RAF — Abril 7, 2008 @ 21:37
Porquê, caro RAF? quem diz a verdade não merece castigo…
Comentário por Pedro Gomes — Abril 7, 2008 @ 21:52
“A escreveres assim, o Abrantes fica sem emprego num instante:)”
também não é preciso ofender…
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 7, 2008 @ 21:54
“(…) ausência de uma alternativa consistente e credível no espaço não socialista“
Nenhum partido português ocupa tal espaço!!!
Comentário por BZ — Abril 7, 2008 @ 22:09
Por isso é que penso que o maior desastre que aconteceu ao PSD( e de certo modo a Portugal) chama-se Marcelo Rebelo de Sousa e a sua posição proeminente a fazer opinião.
Comentário por lucklucky — Abril 7, 2008 @ 22:42
“Nenhum partido português ocupa tal espaço!!!”
Espaço virtual, bem entendido.
Comentário por Filipe Abrantes — Abril 7, 2008 @ 23:40
consolidação orçamental?
Despesa: acompanhou a inflação. Como o PIB teve crescimento positivo, a % do PIB na despesa diminuiu.
Receita: a extorsão de Ferreira Leite continuou. A receita cresceu a mais de 7% ao ano!
Comentário por Libertas — Abril 7, 2008 @ 23:53
[...] Sócrates e o contexto político português: o problema mais grave não está no centro-esquerda por André Azevedo Alves. [...]
Pingback por A ler « Ágora Social — Abril 8, 2008 @ 08:30
O AAA pode queixar-se, com justez, da falta de medidas liberalizadoras. Mas olhe que, mesmo nesse campo, o governo Sócrates é melhor do que o precedente. Durão Barroso ocupou dois anos o lugar e não conseguiu fazer NADA em matéria de liberalização do arrendamento. Para lá de que criou, por exemplo, o negócio protegido dos notários. Sócrates liberalizou o notariado, as viagens de avião para a Madeira, uma parte do negócio das farmácias. É muito pouco. Mas o PSD e o CDS não fizeram NADA em matéria de liberalização.
Entre pouco e nada, eu prefiro pouco.
Comentário por Luís Lavoura — Abril 8, 2008 @ 09:58
[...] 8, 2008 Dia de linkar O Insurgente III Posted by Carmex under Genéricos Em que se defende que, para governo socialista, este governo nem é mau de todo. Se calhar o AAA tem razão. Só se pode exigir consoante as pessoas (e os governos) têm para dar. [...]
Pingback por Dia de linkar O Insurgente III « Farmácia Central — Abril 8, 2008 @ 15:16
Porreiro, pá!
Andávamos cegos, e fizeram-nos ver.
Como eu esperava, os nossos liberais estão a envelhecer. Pena que tenham secado o espaço para os novos. Era catita ter uns rapazes a dizer umas coisas engraçadas.
Comentário por MJP — Abril 8, 2008 @ 21:06
“Andávamos cegos, e fizeram-nos ver.”
Confesso que não percebi…
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 8, 2008 @ 21:30
“Como eu esperava, os nossos liberais estão a envelhecer.”
Não estamos todos?
“Pena que tenham secado o espaço para os novos.”
Mais uma que não percebi…
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 8, 2008 @ 21:31
[...] Leitura complementar: Sócrates e o contexto político português: o problema mais grave não está no centro-esquerda. [...]
Pingback por O que distingue hoje o PSD do PS ? « O Insurgente — Abril 21, 2008 @ 20:00
[...] complementar: Sócrates e o contexto político português: o problema mais grave não está no centro-esquerda; O que distingue hoje o PSD do PS ?; O que distingue hoje o PSD do PS ? [...]
Pingback por O que distingue hoje o PSD do PS ? (3) « O Insurgente — Abril 25, 2008 @ 12:33
[...] complementar: Sócrates e o contexto político português: o problema mais grave não está no centro-esquerda; O que distingue hoje o PSD do PS [...]
Pingback por Manuela Ferreira Leite, social-democrata « O Insurgente — Abril 30, 2008 @ 16:30
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Pingback por O que o PSD tem de esclarecer « O Insurgente — Maio 2, 2008 @ 21:33
[...] formos além de sentimentos partidário-clubísticos, é difícil não reconhecer que o actual executivo tem tido um desempenho que compara favoravelmente com o dos executivos anteriores…, com destaque para a consolidação orçamental (ainda que conseguida essencialmente pela [...]
Pingback por José Sócrates: o melhor Primeiro-Ministro dos últimos 15 anos? « O Insurgente — Julho 11, 2008 @ 01:33