É sabido que existem certas profissões para as quais a beleza é um factor predominante na remuneração. Em profissões como modelo, assistente de bordo, alguns empregos na área da restauração, é certo que a beleza é um factor que traz valor acrescentado ao negócio e é, sem dúvida, tida em conta na altura do recrutamento e progressão na carreira. Mas o que se passa com os restantes empregos em que a beleza não é um factor determinante? Serão os contabilistas bonitos mais bem pagos? Valerá a pena um académico passar duas horas por dia no ginário. Um estudo publicado numa edição passada da Economist dizia que sim: mesmo em profissões nas quais a beleza não traz qualquer valor acrescentado ao trabalho, as pessoas consideradas bonitas tendem a ser mais bem pagas.
Mas não fiquem demasiado satisfeitas as leitoras deste blog (nem muito consternados os meus caros companheiros de blog), que nem tudo é como parece. De facto, bastará existir uma profissão que privilegie as pessoas bonitas para que todo um sistema baseado no mérito se desequilibre, e pareça que as pessoas bonitas são beneficiadas. São as vantagens comparativas em acção. Senão vejamos:
Vamos supôr uma população em que as pessoas se dividem igualmente em quatro tipos: pessoas bonitas e inteligentes, bonitas e estúpidas, feias e inteligentes e feias e estúpidas. Num primeiro momento todas essas pessoas podem ter apenas uma profissão, professor universitário, em que a inteligência é o único factor que conta para a remuneração: independentemente da sua beleza, as pessoas inteligentes seriam as mais bem pagas. Estatisticamente não haveria qualquer diferenciação entre a remuneração das pessoas bonitas e feias. Agora imaginemos que, na mesma população, abre uma agência de modelos que apenas contrata pessoas bonitas, oferecendo o mesmo nível salarial que as pessoas inteligentes recebem como professores universitários. De imediato todas as pessoas correspondendo à descrição “bonitas e estúpidas” preferirão mudar de profissão. Entre as pessoas bonitas, apenas as inteligentes se manterão como académicos. Como apenas as pessoas inteligentes se mantêm na profissão, em média receberão mais que as pessoas feias (entre as quais se mantêm algumas pessoas estúpidas).
Em resumo, basta a existência de algumas profissões em que a beleza é um factor a ter em conta, para que em média as pesssoas bonitas em todas em profissões recebam mais. Este facto só seria equilibrado se houvesse um contrapeso, ou seja, um número igual de cargos em profissões em que a falta de beleza fosse vantagem competitiva. Mas como não existem saltimbancos e colunistas do Expresso suficientes para contrabalançar todas as profissões em que a beleza é vantagem competitiva, as pessoas bonitas continuarão a receber mais, em média, em todas as profissões, mesmo aquelas em que a beleza não é tida em conta. E com todo o mérito.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 7, 2008 @ 14:09
Carlos,
Estás a precisar de ir a um Congresso que te ensine a desafiar as estruturas patriarcais.
Permite-me uma sugestão:
http://oinsurgente.org/2008/04/02/a-ciencia-do-feminismo-a-corrida-contra-a-violencia-e-a-falta-de-vergonha/
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 7, 2008 @ 14:11
Eu acho que o interior é o mais importante. Mas todos os marketeers sabem que o pacote tb vende
http://pequenos–apontamentos.blogspot.com
Comentário por PR — Abril 7, 2008 @ 14:18
Quem já escreveu sobre isto foi o LA-C.
Comentário por RAF — Abril 7, 2008 @ 14:40
Artigo do LA-C: “O trabalhador, a feia, o vilão e a sua bonita advogada”
Comentário por BZ — Abril 7, 2008 @ 15:46
Também me recordava do LA-C ter escrito algo sobre o assunto. Mas o meu texto vai em sentido oposto. Aceitando o facto de que as pessoas mais bonitas recebem mais, não é certo que na maioria das profissões a beleza seja tida em conta.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 7, 2008 @ 16:17
Carlos, um trabalho que tentasse estimar o impacto da beleza sobre o rendimento das pessoas que nao tivesse em conta uma serio de outros factores (entre os quais uma proxy para a produtividade) nao seria sequer digno de ser chamado “estudo”. Nem a um aluno de segundo ano seria admitido tal “estudo”. Assim, parece-me que a maioria dos argumentos que apresentas sao bastante irrelevantes.
PS Escrevo isto sem ler o estudo a que te referes. Apenas digo que se esse estudo nao controla para factores tao obvios como o que apontas, entao nao se devia designar por estudo.
Comentário por LA-C — Abril 7, 2008 @ 17:53
LAC,
Eu não faço aqui qualquer crítica a esses estudos até porque desconheço a metodologia. Deste post só se pode concluir 2 coisas:
1.Não basta comparar a folha de salários e o ranking dos mais bonitos para se concluir que os mais bonitos são mais bem pagos
2.Mesmo que o método de controlo seja escolher apenas profissões onde a beleza não interfere na produtividade, as conclusões podem ser enviesadas
No fundo, no fundo, este post foi só uma desculpa para insultar os meus colegas de blog.
Abraço
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 7, 2008 @ 18:15
“No fundo, no fundo, este post foi só uma desculpa para insultar os meus colegas de blog.”
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 7, 2008 @ 18:51
“1.Não basta comparar a folha de salários e o ranking dos mais bonitos para se concluir que os mais bonitos são mais bem pagos”
Estamos de acordo. Mas isso e’ tao obvio que nenhum “estudo# fara’ apenas isso.
“Mesmo que o método de controlo seja escolher apenas profissões onde a beleza não interfere na produtividade, as conclusões podem ser enviesadas”
Isso e’ tao basico que nem chega a ser controlo.
Confesso que se querias apenas referir esses dois pontos, entao nao percebi para que falaste nos estudos (e ha’ imensos) que concluem que os mais bonitos sao mais bem pagos. Fiquei com a impressao de que estavas a querer levantar duvidas em relacao aos estudos.
Comentário por LA-C — Abril 7, 2008 @ 19:31
LAC,
O artigo em que me baseei foi este: http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=10311266
Repara especialmente no último parágrafo desta quotation e no método utilizado pelo Professor Hamermesh. Pela descrição apresentada dos “estudos” parece-me que num deles apenas foram compilados dados de níveis salariais por profissão. No segundo caso (último parágrafo) pior ainda, recorreram ao método mais básico de comparar uma lista de fotografias a uma folha salarial.
Estarei enganado?
“(…)Just over a decade ago Dr Hamermesh presided over a series of surveys in the United States and Canada which showed that when all other things are taken into account, ugly people earn less than average incomes, while beautiful people earn more than the average. The ugliness “penalty” for men was -9% while the beauty premium was +5%. For women, perhaps surprisingly considering popular prejudices about the sexes, the effect was less: the ugliness penalty was -6% while the beauty premium was +4%.
Since then, he has gone on to measure these effects in other places. In China, ugliness is penalised more in women, but beauty is more rewarded. The figures for men in Shanghai are –25% and +3%; for women they are –31% and +10%. In Britain, ugly men do worse than ugly women (-18% as against -11%) but the beauty premium is the same for both (and only +1%).
The difference also applies within professions. Dr Hamermesh looked at the careers of members of a particular (though discreetly anonymous) American law school. He found that those rated attractive on the basis of their graduation photographs went on to earn higher salaries than their less well-favoured colleagues. Moreover, lawyers in private practice tended to be better looking than those working in government departments.(…)”
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 7, 2008 @ 20:08
P.S.: Repara que falo da metodologia que o texto do artigo dá a parecer que foi utilizada, não a que terá sido utilizada de facto.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 7, 2008 @ 20:13
Bom, em questão de remuneração salarial não tenho total certeza de ser mesmo assim, quanto a entrevistas de emprego sou forçada a admitir que as giras batem-me aos pontos, especialmente se o entrevistador for do sexo masculino.
Espero pelo menos inserir-me no grupo das feias MAS inteligentes
Comentário por dscosta — Abril 7, 2008 @ 22:09
Carlos, quando é dito “which showed that when all other things are taken into account (…)”
When all other things are taken into account… quer dizer que foram controlados toda uma série de variáveis. Ou seja, variáveis que se sabe, de estudos anteriores, serem relevantes. Portanto, à tua pergunta “Estarei enganado?”, sim estás enganado. Obviamente que o Hamermesh usa estatística multi-variada.
A questão mais interessante, pareece-me, é diferente. Eu gostaria de saber se as pessoas bonitas são mais produtivas? (after all other things are taken into account)
Comentário por LA-C — Abril 8, 2008 @ 08:07
É que se a resposta for sim, então não há grandes argumentos para dizer que há discriminação.
Comentário por LA-C — Abril 8, 2008 @ 08:16
LAC, aceito que no caso do survey possa ter havido um qualquer controlo de outras variáveis, embora não apareçam exactamente que variáveis foram controladas (se não existiu controlo das diferenças de produtividade, e acho difícil que tenha existido, parece-me que todo o estudo cai por terra). Na experiência descrita no último parágrafo, não aparenta ter havido qualquer tipo de controlo. A experiência é descrita como “Dr Hamermesh looked at the careers of members of a particular (though discreetly anonymous) American law school. He found that those rated attractive on the basis of their graduation photographs went on to earn higher salaries than their less well-favoured colleagues.”. Não existe qualquer referência a variáveis de controlo (nota de final de curso ou outra proxy de produtividade). Mais uma vez, admito que tenha havido controlo, mas o texto não o clarifica.
Respondendo à tua pergunta sobre se as pessoas bonitas recebem mais porque são mais produtivas, a minha resposta é sim. A existência de profissões onde apenas a beleza importa funciona como um filtro que apenas deixa passar para outras profissões as pessoas bonitas que podem ser produtivas nessa profissões. Ou seja, se vires uma contabilista com o corpo da Heidi Klum podes ter a certeza que ela é muito boa no que faz. Todas as mulheres com o corpo da Heidi Klum só serão contabilistas se tiverem mais a oferecer à contabilidade do que à moda.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 8, 2008 @ 08:25
“É que se a resposta for sim, então não há grandes argumentos para dizer que há discriminação”
Completamente de acordo. Sem se isolar o efeito produtividade, não se pode concluir que as pessoas bonitas são privilegiadas.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Abril 8, 2008 @ 08:27
[...] Serão as pessoas bonitas beneficiadas no emprego? por Carlos Guimarães Pinto. [...]
Pingback por A ler « Ágora Social — Abril 8, 2008 @ 08:35
Não duvido que tenha razões para o (até ver incontestado) cepticismo quanto à beleza dos seus colegas de blog, mas, pelo menos neste caso, deveria ser mais caridoso com os economistas académicos: o mais importante destes estudos será a tentativa de validar empiricamente métodos que distingam discriminações tipo Becker de outras, não estabelecer correlações.
Os do Hamermesh:
http://www.eco.utexas.edu/faculty/Hamermesh/Beautystuff.html
Por outro lado:
http://ideas.repec.org/p/ver/wpaper/18.html
“…the impact of beauty due to pure discrimination or productivity? We provide evidence against the hypothesis of Becker-type discrimination stemming from tastes and in favor of productivity-related discrimination.”
Comentário por HO — Abril 11, 2008 @ 14:21