No Expresso desta semana, José Miguel Júdice (muito mais opinativo sobre o futuro do PSD desde que abandonou o partido do que o era enquanto lá estava), afirmou que “só uma pessoa” poderia vencer José Sócrates nas eleições de 2009, “aparecendo seis meses antes”, e que essa pessoa é Marcelo Rebelo de Sousa. Que se prepara um ataque do “Professor” à liderança do PSD, era já bastante evidente, e as declarações de Júdice apenas parecem vir confirmá-lo. Resta apenas saber se uma eventual sucesso de Marcelo seria uma boa notícia apara o PSD e para o país.
Repito o que em tempos escrevi a propósito de uma conversa com o Gabriel Silva e o André Abrantes Amaral, precisamente sobre esta hipótese. Não nutro grande apreço pelo professor. Nunca esqueço que Marcelo um dia elogiou Nuno Morais Sarmento por este ter mantido dois canais na RTP quando havia anunciado que iria privatizar um. Note-se que Marcelo não elogiou a solução que acabou por ser adoptada, elogiou isso sim o facto de ele ter conseguido fazer o contrário do que havia anunciado. Elogiou a hipocrisia. Elogiou a incoerência. Elogiou a falta de vergonha. Nisto, tanto eu como o André e o Gabriel concordávamos. Marcelo não se distingue pela riqueza do seu pensamento político. O Gabriel dizia mesmo que foi o gosto pela politiquice que “matou” Marcelo. Mas tal como Cristo foi crucificado uma vez e voltará para castigar os pecadores, também Marcelo poderá descer à Terra uma segunda vez. E aqui, como disse em tempos Vasco Rato no Independente, talvez fosse um melhor Primeiro-Ministro que candidato.
Também nisto, eu, o Gabriel e o André concordávamos. Marcelo poderia, na falta de um pensamento político solidificado, conseguir reunir em seu redor uma equipa de qualidade, essa sim, capaz de bem governar, protegida pela figura tutelar de Marcelo. Mas restaria um problema. Quando as coisas começassem a correr mal (e correriam mal. Se fizesse o que é preciso, enfrentaria descontentamento. Se não fizesse, acabaria por ter de pagar o agravamento da crise), alguém obcecado pela conspiração, pela politiquice, pela habilidade para dizer uma coisa e fazer outra, certamente deixaria cair essa equipa que eventualmente construíria em seu redor.
Restava apenas uma hipótese. Paradoxalmente, essa fixação politiqueira de Marcelo poderia acabar por ser benéfica. A ambição de Marcelo poderia ser benéfica. Marcelo poderia pensar na história. Poderia acabar por ser um governante firme, capaz de conduzir uma política que fosse ao encontro das necessidades do país, e mais importante ainda, capaz de aguentar a condução dessa mesma política, não por acreditar que ela seria a melhor (porque não acredita), mas por querer ficar na história enquanto um governante firme. Enquanto alguém que não teve medo de perder eleições. Como alguém que conseguiu pedir “sangue, suor e lágrimas”. Se Marcelo alguma vez vier a ser líder do PSD, se alguma vez vier a ser Primeiro-Ministro (o que não duvido) esta é a única hipótese de isso não se traduzir numa desgraça para este país. Já na altura me parecia pouco provável que assim acontecesse, e o comportamento de Marcelo não me tem feito mudar de opinião.
Caro Bruno,
Estou quase tentado a dizer: amen.
Sucede que entretanto fui vendo de modo diferente algumas coisas. Por exemplo, o que entender mais importante? Que o psd deixe de uma vez por todas de tentar ser social-democrata ou acreditar que de lá poderá sair um bom primeiro-ministro?
Estou actualmente em crer que a primeira é mais importante. E dessa forma, há que reconhecer que a actual liderança tem feito um notável e imprescindivel papel, como eu vaticinei. Ou seja, creio bem que apenas quando o psd for mesmo ao fundo, tocar a baixaria mais reles e levar com uma derrota histórica e uma perspectiva de mais 4 anos «a seco» é que haverá meia dúzia de corajosos a dizer: basta de socialismo.
É que nos últimos 20 anos, o psd é simplesmente um partido de poder, pouco interessado, seja no bem do país, seja em algum tipo de projecto político, seja com alguma ideologia. Os detentores do poder interno, os pequenos poderes designados por «bases», tem aderido, quais adesivos a qualquer líder que pareça poder vir a alcançar o poder. O povo eleitor interno não muda, é apenas desejoso de voltar ás benesses e ao pequeno poder. Tudo aceita ou tudo rejeita em nome de dar condições ao líder do momento para vencer.
Estou em crer que depois do verão, se Marcelo quiser, pode alcançar novamente a sua hora. Ou Rio, quando quiser.
Mas verdadeiramente, o que tal poderia implicar? As mesmas pessoas serrariam fileiras em volta do D. Sebastião em boa hora retornado. Ainda que tais líderes viessem a ter uma actuação condigna, ainda que alcançassem o poder (e não duvido que até poderiam ter um desempenho razóavel), nada de substancial mudaria, pois a base de poder interno sempre seria a mesma e nenhum líder poderia a ela ser indiferente, tendo de contemporizar e satisfazê-la. Sob pena de ser apeado. Uma mudança estrutural não se alcançaria com a liderança, e estou convicto que tal apenas poderá suceder pela derrota final, ou seja pelo fim do psd. Assim seja.
Comentário por Gabriel Silva — Abril 8, 2008 @ 16:43
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